O sucesso do modelo ocidental de desenvolvimento econômico, fundado em estímulos de mercado e forte crescimento de seus estoques de capitais humanos, serviu de paradigma para a formação e incorporação, na economia mundial, de um enorme contingente de recursos humanos de boa qualidade localizados no Sudeste Asiático. A incorporação destes capitais humanos à base produtiva da economia mundial funcionou como o gatilho que desencadeou a enorme crise por que passam as economias ocidentais verdadeiramente democráticas.
A partir do Plano Marshall, as democracias ocidentais puderam desenvolver-se em ritmos inéditos na história humana, pela incorporação efetiva das prescrições liberais, como delineadas desde o último terço do século 19:
(i) economias de mercado;
(ii) sistemas políticos mantidos por mecanismos de contrapesos e balanços fundados nas atuações independentes dos seus sistemas judiciário, executivo e legislativo;
(iii) imprensas livres;
(iv) respeito à propriedade privada e à livre negociação expressada nos contratos.
O sucesso das economias de mercado foi grande o suficiente para fazer com que o sistema de mercado se universalizasse tornando-se hegemônico, exceto por algumas poucas autocracias – Cuba, Coreia do Norte, Venezuela – que, embora estejam literalmente “na fome”, insistem em manter suas economias centralizadas. Outras autocracias, tais como China, Rússia, Cingapura, Irã etc. – tornaram-se economias de mercado convivendo com estruturas políticas ditatoriais de partidos ou de grupos religiosos ou, mesmo, ditaduras tradicionais. A literatura chama de economias meritocráticas de mercado às do primeiro grupo e de economias políticas de mercado às do segundo. Para os liberais, a estabilidade das economias do segundo grupo não deve ser duradoura no longo prazo!
A crise das democracias ocidentais atingiu um ápice importante com as medidas desestabilizadoras atualmente conduzidas pelo governo Trump, nos Estados Unidos. Como país líder destas democracias, os Estados Unidos têm um enorme peso na manutenção da estabilidade das economias meritocráticas de mercado. Este efeito estabilizador está sendo destruído, provavelmente pelas próprias causas que desencadearam a crise. A nosso ver, a faísca maior que iniciou o processo da crise foi uma combinação de fatores: de um lado a abertura da economia dos USA, iniciada nos anos 1970, e que permitiu a incorporação, por força dos mercados, do enorme contingente de recursos humanos bem treinados do sudeste asiático à economia mundial globalizada e, de outro, os altos estoques de capitais humanos dispostos a trabalhar por uma fração dos salários dos ocidentais daquelas economias orientais absorveram as principais plantas industriais do mundo.
Deve-se notar que o conhecimento gerador de novas tecnologias continuou nas corporações ocidentais, o que garantiu a seus países as rendas que geraram grandes avanços nas qualidades de vida de suas populações. A crise ficou séria quando as economias orientais começaram a concorrer com as ocidentais, também, na geração de conhecimentos e tecnologias inovadores.
O sistema educacional e de pesquisa científica dos USA mostrou-se, historicamente, altamente eficiente na geração e disseminação de novos conhecimentos humanos, em especial o seu sistema universitário gerador de conhecimento científico básico. Fundado nas tradições judaico-protestantes de suas elites dirigentes, o sistema universitário do país pode manter-se competitivo com as corporações ocidentais por meio de um complexo arranjo de financiamentos governamentais, de fundos universitários oriundos de doações legalmente facilitadas no mecanismo conhecido como Endowed Chairs, além dos pagamentos pelas famílias das anuidades cobradas pela educação de seus filhos. A partir do conhecimento básico gerado nas universidades, os departamentos de pesquisas e tecnologias – R&T – das suas corporações puderam, ao longo das décadas, manterem-se à frente da economia mundial pelo controle das patentes e da criação de novos produtos. É este eficientíssimo sistema de pesquisa que Trump, sem justificativas econômicas conhecidas e em tacadas tipicamente Macarthistas, parece estar querendo destruir.
Até o início dos anos 1970, a economia dos Estados Unidos era considerada fechada na maioria dos modelos utilizados por seus economistas. Com grande capacidade produtiva geradora de renda interna que garantia a existência de enorme mercado consumidor, sua população desfrutava de alta capacidade de consumo. Com a abertura de sua economia e pelo processo de globalização então iniciado, uma parte importante de seus recursos humanos encontraram muita competição vindo da região do Sudeste Asiático. Os altos estoques de capitais humanos daquelas economias permitiram que fossem produzidos, por uma pequena fração dos custos das ocidentais, produtos de qualidade semelhantes ou, às vezes, melhores. Como os recursos empresariais e os capitais físicos das corporações capitalistas meritocráticas não têm pátria, eles construíram suas plantas naquela região para produzirem com custos menores.
O sistema educacional e de pesquisa científico-tecnológica do Ocidente continuou provendo a R&T que gerava as rendas que permitiu a manutenção da alta qualidade de vida de suas populações. Quando aquelas economias orientais começaram a ameaçar seriamente o predomínio das empresas ocidentais na sua supremacia científico-tecnológica, governos populistas mobilizaram as frustações das populações, especialmente daquelas não diferenciadas científica e tecnologicamente, para destruir a forças de globalização e internacionalização da economia mundial. Trump parece ser um expoente maior neste processo.
Os mesmos recursos empresariais que foram muito eficientes em deslocar suas plantas industriais para o sudeste asiático, mantendo o controle da geração e desenvolvimento científico e tecnológico nas matrizes ocidentais de suas empresas, agora estão dando enorme suporte econômico e garantindo o financiamento político de populistas que criminalizam a globalização. Querem manter fechados os mercados ocidentais para se protegerem da concorrência das empresas orientais! Disseminaram novo termo, tal como nearshoring e proclamam as vantagens da produção local na geração de empregos para angariar apoio político ao fechamento dos mercados à concorrência externa. Todo este comportamento empresarial é logicamente explicado pela análise econômica e cabe aos verdadeiros estadistas entenderem o processo e criarem a narrativa capaz de mostrar às populações os reais benefícios do uso das vantagens comparativas na construção de uma ordem geopolítica que continue apontando para a melhoria da qualidade de vida da humanidade, em vez de involuirmos no sentido do fechamento das economias para manutenção de corporações e grupos privilegiados!
A ciência econômica ensina, desde Adam Smith, que os mercados globalizados e interligados são, de longe, o melhor para a vida da humanidade; isto do ponto de vista econômico e não demagógico! Trump está sendo um empresário em busca de privilégios como outro empresário qualquer e, quando não há countervailing power para limitá-lo, ele consegue. Não está pensando na população; está pensando de acordo com um determinado grupo de vencedores que são aqueles que vão ganhar com isso. E, acima de tudo, não está do lado da grande massa populacional que vai perder. Como a maior oposição às suas proposições virá, de fato está vindo, do pensamento científico, ele precisa reduzir o poder de fogo de sua principal fonte geradora: as universidades!
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