Por Elaine Santos, pós-doutora pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP
Nas últimas semanas assisti por acaso à série Las maldiciones, ou As maldições em português. Trata-se de uma minissérie argentina de três episódios, adaptação do livro de Claudia Piñeiro, dirigida por Daniel Burman.
Embora o título sugira algo próximo ao terror ou ao suspense, ao saber que se tratava de uma adaptação envolvendo recursos minerais, pensei que pudesse remeter à chamada “maldição da abundância”, expressão tão presente nas discussões sobre recursos naturais, principalmente na América Latina, que descreve países com vastos recursos naturais que não conseguem transformar essas riquezas em benefícios concretos para suas sociedades. Mas a narrativa segue outro caminho. A maldição não é da abundância, é da ambição humana. E, sobretudo, do modo como determinadas relações familiares, no caso, a mãe do personagem principal, retiram qualquer possibilidade de escolha do filho governador, anulando intervenções que não estejam sob o seu controle. Um terreno fértil para psicólogos e psicanalistas.
Assisti com a expectativa de que o enredo trataria da exploração do lítio na Argentina. Em parte, ele aparece, mas não como tema central. Diferente do livro, a minissérie se organiza tendo como pano de fundo um projeto de lei sobre recursos hídricos e exploração de lítio. O governador Fernando Rovira, interpretado por Leonardo Sbaraglia, se vê diante da votação que poderia definir o futuro da exploração mineral e, consequentemente, o seu futuro como governador, pressionado por um acordo previamente favorável à exploração, firmado com a fictícia mineradora Mapple Corps.
A negociação envolve impactos diretos sobre comunidades tradicionais, especialmente relacionados à compra de terras e ao uso intensivo de água, recurso escasso em regiões de salares. A série mostra de forma crua o pragmatismo dessas decisões políticas, que dessensibilizam a percepção sobre as relações humanas, sustentadas por alianças com corporações que prometem ganhos, empregos e infraestrutura para poucos. Do outro lado, a oposição defende a preservação dos territórios. A disputa, que em princípio parece ficcional, aproxima-se muito dos conflitos reais que hoje atravessam comunidades argentinas. Talvez por isso o diretor tenha incluído o tema do lítio em sua adaptação.
A minissérie se passa em uma região fictícia do norte do país, mas foi filmada em Jujuy, província real localizada no noroeste do país que integra o chamado “triângulo do lítio”, junto com Chile e Bolívia, onde estão concentrados aproximadamente 60% dos recursos globais.
Na Argentina, a produção concentra-se nas províncias de Jujuy, Salta e Catamarca, onde, segundo dados de 2024, há 44 projetos em diferentes fases de desenvolvimento: seis de propriedade americana, seis de origem chinesa, seis australiana, oito canadense, treze argentina e os demais europeus. Em pesquisa de campo recente na Argentina, a autora de um estudo lembrava que, desde 1994, a Constituição do país atribui às províncias a regulamentação da exploração mineral.
Isso significa que não há uma política nacional unificada para o lítio, mas disputas locais em que cada província negocia diretamente com empresas, resultando em situações desiguais. Em Salinas Grandes e Laguna de Guayatayoc, a articulação entre comunidades indígenas conseguiu frear a mineração em seus territórios. Em outras áreas, no entanto, as promessas de investimento e emprego dividiram posições.
O paralelo com a realidade é inevitável. As poucas imagens de desertos e salinas, intercaladas com piscinas de evaporação, situam o espectador diante da ambiguidade: a beleza natural e a transformação que acompanha a mineração no deserto. Em certo sentido, reforçam algo que sempre repito nos textos que escrevo: tudo relacionado à energia é social, e tratar seus impactos apenas a partir de uma racionalidade técnica é insuficiente. Essa lógica, que resume tudo a curvas e projeções de oferta e demanda, como se fossem números neutros pairando acima da sociedade, ignora que a energia é material. Piñeiro, em seu livro, chamou isso de “nova política”, regida por um pragmatismo absoluto, que beira a perversidade. Não por acaso, o partido de Rovira na ficção se chama “Pragma”.
É nesse espaço que se revela a ambivalência da minissérie. A narrativa segue centrada nas tramas familiares, na paternidade e na maternidade, na incapacidade de romper os fios de uma herança de poder. O lítio, ao entrar como pano de fundo, não deixa de refletir os dilemas contemporâneos da Argentina e da América do Sul de forma geral. Não porque a série queira discutir o recurso em si, mas porque já não é possível narrar a política argentina sem que o lítio apareça. Talvez a verdadeira maldição seja essa: a ilusão de que o pragmatismo e as alianças de ocasião possam resolver dilemas tão profundos e multidimensionais, quando, na prática, apenas os deslocam de lugar.
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