Projeto da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto utiliza figuras artesanais para sensibilizar professores sobre sinais de abuso e violência contra crianças
Por Joyce Pezzato*

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Em uma sala de professores da rede pública, bonecos artesanais se tornam protagonistas. Cada figura de pano carrega uma história de dor e vulnerabilidade, servindo de ponte para discutir como identificar sinais de violência sexual contra crianças e adolescentes. O recurso, ao mesmo tempo simples e simbólico, é a principal ferramenta do projeto Violência, Rede Protetiva e Promoção da Saúde Junto à Comunidade, desenvolvido pela assistente social e pesquisadora Cíntia Aparecida da Silva, no Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP.
A iniciativa integra o Programa de Pós-Doutorado para Pesquisadoras e Pesquisadores Negros da USP, tem orientação da professora Luciane Sá de Andrade e busca valorizar a escuta ativa e evidenciar a composição e o funcionamento da rede protetiva no município de Ribeirão Preto. Segundo Cintia, a ideia dos bonecos nasceu após um mapeamento inicial em dez escolas públicas: “Percebemos o pouco conhecimento sobre os tipos de violência contra crianças e adolescentes e que a escola não se reconhece como protagonista da rede de proteção. A partir daí, em conversa com a professora Luciane, destaquei a importância de um trabalho de formação pós-pesquisa com os profissionais da educação, através de oficinas. Foi então que surgiu a ideia de utilizar bonecos, cada um representando a situação de uma criança em vulnerabilidade.”

Professora do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da EERP, Luciane explica que o uso de recursos simbólicos, como os bonecos, pode contribuir para romper tabus e silêncios em torno da violência sexual infantil no ambiente escolar. “Os bonecos podem ser entendidos como recursos educacionais para o desenvolvimento de oficinas com os professores. Neste contexto, podemos pensar os bonecos como signos, dentro da abordagem histórico-cultural, fundamentada em Vigotski [Lev Semionovitch Vigotski, psicólogo proponente da Psicologia Histórico-Cultural]. A história servirá como um disparador da discussão entre os professores e equipe escolar sobre quais condutas a escola pode e deve tomar em cada caso.”
Segundo Luciane, os signos apresentados assumem significados distintos para cada participante; com isso, após as discussões coletivas realizadas durante as oficinas, o papel da rede protetiva foi ressignificado. “Um princípio nessa oficina é que os professores e outros participantes da equipe escolar mobilizarão e construirão novos conhecimentos sobre o assunto, com a ajuda da pós-doutoranda”, completa a professora.
Cintia destaca que, nas atividades de formação, os bonecos ganham voz ao serem trabalhados por professores e diretores. “Eu conduzo o encontro com eles, contextualizo a questão da violência e a importância da atuação da escola dentro da rede de proteção. Depois, dividimos os participantes em pequenos grupos, e cada um fica responsável por um boneco, por uma situação. Em seguida, cada grupo explica como lidaria diante de um relato de violência feito por uma criança. A partir do que eles já trazem de conhecimento, vamos somando informações, e eles mesmos vão compreendendo a relevância do papel do professor e do vínculo com o aluno.”
A pesquisadora enfatiza a necessidade de reconhecer sinais apresentados em sala de aula. “Se o professor tem esse conhecimento, consegue reconhecer os sinais, ele pode levar isso para a coordenação para eles darem sequência no que for necessário. Acionar a rede, o canal que for, como Conselho Tutelar, e a partir daí o caso terá outros desdobramentos.”

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Já a orientadora lembra que o trabalho contribuiu para fortalecer a rede protetiva e reduzir a sensação de impotência dos professores diante das situações de violência. “Cintia analisou o conhecimento que cada equipe escolar tinha sobre a rede protetiva e fez um compromisso de retornar a cada escola para dar uma devolutiva sobre a pesquisa e desenvolver a oficina. Assim, no projeto não se buscou apenas identificar e analisar um problema, mas foram criadas ferramentas para transformar a situação encontrada.”
Com a oficina se fortaleceu a parceria entre a Universidade e as escolas de educação básica, pois para Luciane, Cintia pôde construir junto com as equipes escolares formas de enfrentamento diante de diferentes casos de violência com os quais a escola pode se deparar, acionando a rede protetiva, que muitas vezes era desconhecida ou não acionada por algumas equipes.

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Sinais revelados pelos bonecos
Entre os personagens criados está a boneca Carol, vítima de abuso sexual do padrasto dependente químico: “Ali, você percebe que existe um contexto social, mas também um contexto de saúde na vida dessa criança. Essa criança [Carol] está inserida na escola, então como a escola trabalha? Qual é o cuidado? Por isso é de extrema importância o papel do professor para uma criança, na questão do cuidado, da escuta, da sensibilização. Fazer um olhar diferenciado para a história de vida dessa criança, porque a criança não é só mais um número, ela traz uma vivência e isso é muito importante.”
Para Cíntia, a violência sexual pode ser comparada a um caminhão que passa por cima da vítima: “Ela dá sinais, a criança é aquilo que ela vive e vivencia no seu dia a dia. Ela é o espelho daquilo que ela tem de vivência. Então, não só a educação, mas toda a sociedade, todas as políticas precisam trabalhar e dialogar para que essa criança tenha o mínimo de sofrimento possível.”
Apesar dos desafios, a pesquisadora mantém o compromisso de colaborar com professores: “Estou procurando meios e caminhos para conseguir dar continuidade nesse trabalho, que foi muito importante. Tanto para a minha vida profissional quanto a pessoal, como pessoa. Eu sinto que o aprimoramento do conhecimento dos profissionais foi muito positivo, eles agradeceram demais.”

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Ao concluir o projeto, Luciane Sá de Andrade destacou que os impactos vão além do ambiente escolar, alcançando o campo das políticas públicas e do engajamento social. “Há uma grande mobilização da sociedade para se fazer a denúncia diante de casos de violência sexual. As políticas públicas têm sido implementadas gradativamente e iniciativas como esta demonstram a urgência de se melhorar cada vez mais a forma de assistência a essas vítimas e também a importância de todos que compõem as instituições de rede protetiva, realmente trabalharem em redes, desencadeando providências, assistência e esperança para as crianças e adolescentes”, finalizou.
No doutorado, a assistente social já havia trabalhado com o mesmo tema, que resultou na elaboração de uma cartilha sobre a rede protetiva em Ribeirão Preto para casos de violência sexual contra crianças. Essa cartilha foi divulgada pelo Jornal da USP, matéria disponível neste link.
Ouça no player abaixo entrevista da pesquisadora Cíntia Aparecida da Silva para a Rádio USP Ribeirão.
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*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone



