domingo, maio 17, 2026
HomeSaúde física e emocionalem busca de ratos na Amazônia – Jornal da USP

em busca de ratos na Amazônia – Jornal da USP


Além das questões de segurança, a mineração ilegal representa uma ameaça à saúde e um entrave ao desenvolvimento socioeconômico da região, segundo Aldair Paiva, morador da Resex do Rio Jutaí e vice-secretário da Associação de produtores da reserva (Asproju). “O gargalo mais forte aqui para a nossa região é o garimpo. Isso atrapalha muito o nosso dia a dia; [até] na alimentação, em tudo que a gente faz”, disse Paiva ao Jornal da USP, enquanto auxiliava os pesquisadores no projeto. Segundo ele, a população muitas vezes tem receio de consumir os peixes do rio, por não saber se eles estão contaminados pelo mercúrio dos garimpos. “A gente tem muito medo disso aí.”

Outra ameaça percebida por Paiva nos últimos 20 anos é a da mudança climática. “Antes a gente não tinha essa dificuldade na época da seca para o escoamento da produção. Hoje a gente tem, porque a seca é muito extensa, né?”, relata ele, que trabalha como condutor de lancha e conhece os cursos d’água da região com uma afinidade espantosa. “E aí, quando vem a cheia, em algumas comunidades também dá aquele impacto.”

As reservas extrativistas são unidades de conservação de uso sustentável, em que as comunidades tradicionais têm exclusividade sobre a exploração dos recursos naturais e gerenciam o território em parceria com o ICMBio. A Resex do rio Jutaí foi criada em 2002 e seu plano de manejo foi aprovado em 2011. Segundo Paiva, cerca de 240 famílias vivem na reserva, organizadas em 16 comunidades no rio Jutaí e 11 no rio Riozinho, que delimita a margem leste da unidade. A maioria dessas comunidades sobrevive da agricultura de pequena escala (roça) e da pesca, incluindo o manejo de pirarucu, seguindo limites estabelecidos no plano de manejo da unidade. Já a Estação Ecológica de Jutaí-Solimões é uma unidade de proteção integral, onde só são permitidas atividades de pesquisa e conservação ambiental.

Na comunidade Marauá, a primeira visitada pelos pesquisadores, vivem 37 famílias. É uma comunidade acolhedora, com casas bem cuidadas e alinhadas ao longo de uma calçada que margeia o rio, com rede elétrica, internet e um postinho de saúde. O senhor Arnaldo Trajano, mais conhecido como “Pilha”, é uma das lideranças locais que deu apoio ao trabalho dos cientistas e organizou uma equipe para ajudar na abertura de trilhas e na colocação de armadilhas. 

Pergunto a ele se tem notado mudanças na Amazônia nos últimos anos. “Companheiro, eu já estou aqui há 27 anos e eu acho que a extensão da floresta está meio feia”, responde Pilha, que vive da produção de banana, mandioca e cará. Segundo ele, está muito mais difícil trabalhar na roça hoje em dia do que antigamente, por causa do calor. “Eu não sentia essa quentura e coisa e tal; hoje a gente não aguenta”, relata ele. “Outra coisa que está afetando nós é maior doença, por causa dessa floresta que está acabando.” Pilha e sua esposa contraíram dengue pela primeira vez no ano passado, durante uma visita a familiares em Jutaí. “É mais ruim que malária”, disse Maria Leni.

Os ribeirinhos disseram ver com bons olhos o trabalho dos pesquisadores na região. Segundo Paiva, é uma forma de trazer atenção para a região e agregar valor científico ao conhecimento das comunidades tradicionais, que são “as verdadeiras guardiãs da floresta”. 

Percequillo, por sua vez, se orgulha de estar proporcionando a alguns de seus alunos a mesma experiência inesquecível que ele teve ainda na graduação: de conhecer e se apaixonar pela Amazônia. “É um papel que eu fico muito feliz de estar podendo proporcionar às novas gerações”, disse. Segundo ele, “ninguém volta igual” da Amazônia. “Eu acho que esse mergulho, nessa nova realidade, é extremamente importante; (…) não só pelo deslumbramento com a natureza, mas por conhecer uma região, uma cultura e uma forma de encarar a vida que é muito diferente daquela a que a gente está acostumado.”

Além de todos os cientistas já mencionados, também participaram da expedição o biólogo Marcos Angelo Alves Filho, aluno de mestrado no Museu de Zoologia da USP (orientado por Percequillo), e Cibele Rodrigues Bonvicino, pesquisadora vinculada ao Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), especialista em Genética e Taxonomia de mamíferos.

Mais informações: percequillo@usp.br, com Alexandre Percequillo



Fonte