Atos em várias capitais, com destaque para show no Rio de Janeiro, resgataram a força cultural da MPB e deram novo sentido a clássicos da resistência, reafirmando a arte como símbolo de luta democrática
O professor Guilherme Wisnik usa o espaço desta sua coluna para falar sobre as manifestações políticas e culturais realizadas no último domingo (21) em todas as capitais e em outras cidades do País contra a PEC da Blindagem e da anistia. Na opinião do colunista, os atos trouxeram um grande alento para o campo da esquerda como reação, “porque mostraram poder de mobilização que esse campo parecia não ter já há muito tempo. Nós havíamos perdido, em grande medida, para o setor da extrema-direita, esse lugar da massa popular na rua, da emoção, da causa como investida de um grande propósito”. Nesse sentido, Wisnik chama a atenção para o show que aconteceu no Rio de Janeiro, o qual reuniu grandes nomes da MPB, justamente aqueles que, desde os anos 1960, estiveram na linha de frente da luta contra a ditadura militar e a favor da democracia. O ápice da apresentação, na opinião do colunista, foi a canção Cálice, composta por Gilberto Gil e Chico Buarque, que ele considera uma das canções emblemáticas da resistência à ditadura e que retorna com o peso da transposição dos tempos.
“O próprio Gil diz que tem, sempre teve muito desconforto em cantar; no caso do Gil, por uma questão de espiritualidade, porque essa imagem do filho que fala com o pai ‘afasta de mim esse cálice e o vinho tinto de sangue’, o vinho que é o sangue de Cristo na liturgia católica. Quer dizer, no caso do Monstro da Lagoa, que é a ditadura que estava emergindo, essa repressão, essa palavra presa na garganta, esse grito desumano, tudo ali era um filho conversando, não se sabe se realmente ou teoricamente, com um pai imaginário, pedindo ajuda a esse pai. Claro que isso é uma citação da Bíblia, na passagem em que Cristo, prestes a ser crucificado, faz esse apelo ao pai […] ‘Interessante’, eu diria, o fato de que hoje boa parte da questão da direita no Brasil se liga justamente à religião, ao evangelismo, à religião católica, e tem nesse Deus todo poderoso do primeiro Testamento, esse Deus inquisidor, uma imagem tão forte, e que é uma coisa que nos anos 60 e 70 não era tão presente, era mais uma metáfora que estava ali. Então eu queria fazer esse nexo aqui e pensar sobre a atualização dessa canção no momento atual.”
Espaço em Obra
A coluna Espaço em Obra, com o professor Guilherme Wisnik, vai ao ar quinzenalmente quinta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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