Há 150 anos nascia Thomas Mann. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1929, inimigo número um de Adolf Hitler e observador sagaz da vida e da alma da sociedade burguesa. Escritor que produziu como poucos obras monumentais e fez isso conciliando aparências, desejos reprimidos e combate ao totalitarismo.
Mann nasceu em 6 de junho 1875 em Lübeck, no norte da Alemanha. Seu pai, Thomas Johann Heinrich Mann, era um rico comerciante local que também ocupou o cargo de senador. Já sua mãe, Julia Mann, nasceu como Julia da Silva Bruhns no Brasil. Viveu na cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, até os 7 anos de idade, habitando o casarão do Engenho Boa Vista, hoje propriedade do navegador Amir Klink.
O escritor deixou poucas declarações sobre suas origens brasileiras. Mas falou delas em 1930 para o então correspondente de O Jornal Sérgio Buarque de Holanda – que depois se tornaria professor da USP. “O Brasil faz-me evocar, na verdade, alguns instantes deliciosos de minha infância e de minha mocidade”, contou Mann para Sérgio Buarque. “Recordo-me de que minha mãe, que era brasileira e que nasceu em uma fazenda de café ou de açúcar, não me recordo bem, entretinha-me frequentemente sobre a beleza da baía de Guanabara… Sim, creio que a essa origem latina e brasileira devo certa clareza de estilo e, para dizer como os críticos, um ‘temperamento pouco germânico’. Li apaixonadamente os clássicos alemães, os escritores franceses e russos e, especialmente, os ingleses, mas estou certo de que a influência mais decisiva sobre minha obra resulta do sangue brasileiro que herdei da minha mãe.”
Thomas pai e Julia tiveram cinco filhos. O mais velho, Heinrich, também se tornaria um escritor reconhecido, e serviria de exemplo, ora a ser seguido, ora confrontado, para o jovem Thomas. A educação que recebeu em casa foi luterana, mas o garoto não gostava da escola e deixou os estudos sem ter concluído o ensino médio.
Após a morte do patriarca, Julia e os filhos mais jovens se mudaram para Munique. Dois anos depois, em 1893, Thomas junta-se a eles. Começa a trabalhar em uma empresa de seguros contra incêndios, mas logo abandona o posto para se dedicar integralmente à escrita. Graças a uma pensão do pai falecido, não precisava de empregos fixos.
Seu primeiro livro de impacto foi Os Buddenbrook, publicado em 1901. Na obra, Mann conta a história de ascensão e decadência de uma família do norte da Alemanha, atravessando quatro gerações. A narrativa realista do século 19 se encontrava com a psicologia propagada por Freud, de quem Mann era leitor. Ele descrevia as mudanças sociais, culturais e econômicas da época a partir de personagens e situações inspirados em seus familiares e em conhecidos de Lübeck. O tom adotado na prosa causou por muito tempo desconforto na cidade natal.


