Empreendedoras ficam em desvantagem e veem limitado o potencial de crescimento de seus negócios no País
Por Susana Oliveira*

Mais de 10 milhões de brasileiras empreendem atualmente, muitas vezes por necessidade e conciliando o trabalho com a sobrecarga de tarefas familiares. A realidade, no entanto, é marcada por restrições financeiras: o faturamento médio desses negócios é de cerca de R$ 2 mil mensais, segundo levantamento da Serasa Experian. Ainda de acordo com a instituição, 87% dessas mulheres já se endividaram e 68% tiveram pedidos de crédito negados, evidenciando a urgência de soluções mais inclusivas.

Para especialistas, linhas específicas com juros reduzidos, análise de risco social e garantias alternativas como o histórico comunitário ou de redes locais podem representar um divisor de águas. “Na prática, os negócios ficam restritos ao capital inicial da empreendedora ou de algum familiar, o que limita bastante a possibilidade de escalar”, observa Bianca Maia, mestranda em Empreendedorismo e Inovação na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP.
Ela lembra que as exigências do sistema financeiro tradicional não dialogam com a realidade da maioria das empreendedoras. “Essas linhas geralmente pedem garantias reais, histórico formalizado e uma estrutura que não existe nos pequenos negócios ou nos informais. O sistema foi construído com um modelo mental que não corresponde à realidade do empreendedorismo nacional, especialmente o feminino.”
As dificuldades não se resumem ao acesso aos bancos. Muitas empreendedoras atuam sozinhas, como microempreendedoras individuais (MEI), sem sócios e com redes de apoio frágeis. Isso contribui para o isolamento e dificulta tanto a gestão do negócio quanto a busca por financiamento. “Não é só uma barreira econômica, mas também cultural e relacional. Os preconceitos de gênero pesam, e até os dados que embasam as análises de risco acabam reforçando essas desigualdades”, aponta Bianca.
A sobrecarga de trabalho doméstico é outro obstáculo. Segundo a mestranda, a dupla jornada reduz a capacidade de planejar e aplicar recursos estratégicos. “Mesmo quando conseguem financiamento, muitas mulheres vivem num ciclo de urgências, com pouco tempo para pensar em crescimento. Isso acaba transformando a desigualdade de gênero em uma barreira econômica.”
O impacto da exclusão do crédito é amplo. Sem recursos, as mulheres têm dificuldade em investir em equipamentos, melhorar a estrutura ou expandir os negócios. Quando conseguem acesso, os efeitos vão além da renda. “O crédito abre portas para que as escolhas sejam reais. O negócio deixa de estar preso à sobrevivência e passa a ter potencial de crescimento, geração de empregos e inovação. Isso se reflete também na vida comunitária e no fortalecimento da autonomia social”, afirma Bianca.

Na visão de Sandra Brandani, presidente da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), o desafio exige a reinvenção do sistema financeiro. “O mercado de crédito precisa lidar com as demandas atuais e se reinventar para fazer isso de forma que todos ganhem. Apoiar o pequeno negócio é também apoiar a economia local, porque muitas vezes são pessoas que saem do nada para construir uma empresa”, destaca.
Ela lembra ainda que associativismo e redes de apoio são fundamentais para reduzir barreiras. “Pensar em crédito é também pensar em parceria. Quando a empreendedora tem acesso a cursos, mentorias e um espaço de troca com outras mulheres, ela ganha segurança para usar o financiamento de forma estratégica. Nosso trabalho é justamente aproximar essas ferramentas das empresárias da região.”
Além das linhas de crédito já oferecidas em parceria com instituições financeiras, a Acirp mantém programas de capacitação e redes de apoio. “Muita gente não conhece os recursos disponíveis. Nosso papel é aproximar essas mulheres das soluções, seja via Sebrae, Desenvolve SP ou cooperativas de crédito”, explica Sandra.
Como tentativa de enfrentar essas desigualdades, o tema esteve no centro da Conferência Livre Mulheres no Centro – Democracia Econômica, Empreendedorismo e Direitos, realizada em agosto. As propostas aprovadas, que incluem novas formas de financiamento voltadas às mulheres, serão levadas à 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres no final de setembro em Brasília.



