“Os impactos sociais e ambientais da internet estão definitivamente na agenda global. A má notícia é que a velocidade e a diversidade dos impactos da inteligência artificial sobre matérias-primas, energia, saúde e cultura ainda parecem muito maiores e mais intensos do que as nossas capacidades de monitoramento, controle e punição”, afirma o professor Gilson Schwartz no início de sua coluna quinzenal para a Rádio e o Jornal da USP. “Não é fácil vigiar e punir quem faz usos inaceitáveis da tecnologia, que abre novos mercados a cada dia. A boa notícia é que pesquisadores, empresas, governos e cidadãos acordaram. Enquanto a internet, em seus primórdios, era louvada como uma solução universal, uma espécie de tecnologia mágica que ampliaria a liberdade, a autonomia e a criatividade dos seres humanos, a chegada de algoritmos treinados sobre a vastidão de dados gerados pela internet vem criando conflitos, erros, riscos e ameaças a direitos humanos. Mas o ceticismo e a busca urgente de soluções para as chamadas alucinações algorítmicas são mais evidentes. O fato é que as melhorias algorítmicas permitem que os modelos de inteligência artificial de uso geral sejam treinados com menos recursos. As técnicas e os métodos de treinamento que sustentam os modelos estão melhorando. A eficiência computacional das técnicas de inteligência artificial para treinamento usando enormes bases de dados tem aumentado em aproximadamente dez vezes a cada dois a cinco anos em domínios importantes.”
Esses avanços, conforme o colunista, permitem que os pesquisadores de inteligência artificial desenvolvam modelos mais capazes ao longo do tempo, com menor orçamento de hardware. No entanto, o conjunto de evidências nessa área ainda é muito limitado e permanece uma incerteza substancial com relação ao futuro da inteligência artificial. Podem ocorrer mudanças ainda mais rápidas nos próximos anos. “Nesse contexto, vem ganhando força a movimentação das organizações internacionais em favor da autorregulação das empresas, ou seja, essas empresas envolvidas na aceleração tecnológica também devem fazer esforços para mitigar riscos, aumentar o letramento digital e colocar tanta capacidade de processamento para buscar soluções em desafios na área de saúde, mudança climática e vulnerabilidades, na defesa de direitos humanos, da privacidade ao assédio moral e sexual.”
Schwartz encerra seu comentário informando que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou informações sobre essa tendência emergente a partir de dados colhidos com empresas líderes, as quais estão desenvolvendo práticas para enfrentar a pirataria e a invasão de sistemas de informação. “As respostas vieram principalmente de empresas de tecnologia e telecomunicações, total de 16 organizações. Algumas instituições de consultoria, pesquisa e educação participaram. A nacionalidade das organizações também é um fato revelador. Sete contribuições de empresas do Japão, seis dos Estados Unidos, duas do Canadá, uma da Alemanha, uma da Coreia do Sul, uma da Romênia e uma de Israel. O lado preocupante é que essa amostra, embora representativa com grandes empresas, está muito longe de esgotar o universo geopolítico da fronteira tecnológica no campo da inteligência artificial. A ausência de informações ou colaboração de empresas da Rússia, da Índia ou da China já diz muito sobre a evolução ainda insatisfatória do processo global de autorregulação por empresas ou mesmo de transparência de governos no campo da inteligência artificial. A guerra pela inteligência mal começou.”


