Francisco Thomé dos Santos Filho, conhecido como mestre Bigo em São Paulo e mestre Francisco 45 na Bahia, iniciou-se na capoeira Angola na academia de mestre Pastinha, em 1954, aos oito anos de idade. Continua nela até hoje, passados 71 anos. Nunca colocou no papel uma letra sobre a capoeira; seu conhecimento, acumulado por tantos anos, circula pela oralidade. Um saber ancestral, construído com os mais velhos que encontrou pelo caminho – mestre Pastinha, mestres João Pequeno e João Grande –, com seus contemporâneos, – mestre Lua de Bobó, Eliseu Trovoada, Junta de Ferro –, e também com os mais novos – “Eu aprendo com os alunos dos mestres”, diz mestre Bigo. Um saber ancestral também porque a sua forma de ver e viver a capoeira passa pela história que a pele preta carrega no Brasil, pois foram africanos escravizados e seus descendentes que recriaram aqui na América a arte-dança-luta-jogo Capoeira Angola.
Pedreiro de profissão, migrou para São Paulo no final dos anos 1960. Primeiro, para participar de uma peça de teatro, versos que ele recita de cor ainda hoje, depois trabalhando como pedreiro quando viajou pelo interior de São Paulo participando da construção do estado mais rico do Brasil. Se quisermos usar termos acadêmicos, mestre Bigo é um pesquisador e divulgador da capoeira Angola. Mestre Bigo é uma biblioteca viva, cujo saber não cabe em palavras, artigos ou livros. Viva porque seu saber está em seu corpo, em sua história. Viva porque o seu saber ainda é colocado em prática e renovado a cada nova experiência.
Nos dias 2 e 3 de setembro, mestre Bigo esteve na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP para uma oficina de confecção de Berimbau. Um ofício que realiza na garagem de sua casa, sob os olhos dos vizinhos, que por ali passam, em Guaianazes. Nessas vivências, mestres da cultura popular continuam e divulgam sua pesquisa. Se aos 79 anos de idade, mestre Bigo não pode mais exercer o ofício de pedreiro, que possa exercer o ofício de pesquisador da Capoeira Angola.
Jovens, com pouco mais que um quarto da idade de mestre Bigo, puderam receber seu carinho, seu cuidado, seus ensinamentos. Descascaram biribas, deram acabamento com vidro e lixa, serraram, cortaram coro, pregaram, abriram cabaças, furaram, tiraram arame de pneu, fizeram corda, fizeram argola e cabresto, armaram berimbau. Após pelo menos oito horas de trabalho manual, puderam tocar seu próprio instrumento com mestre Bigo. Mas se o berimbau é o visível, a convivência com mestre Bigo é o que realmente importa: aprender na relação, no cuidado, na experiência compartilhada. Em uma época de inteligência artificial generativa e discussão sobre epistemicídio, ainda mais urgente é reconhecermos um saber que se dá apenas na relação.
Mestre Bigo veio acompanhado de seu aluno mais antigo em São Paulo, mestre Cabo Jairo, e do filho deste, Jamal, de apenas 10 anos. Se o conhecimento se dá apenas na relação, acompanhar o mestre faz parte da pesquisa, e Jamal já é pesquisador. Num espaço universitário com pouquíssimos professores negros (pretos e pardos), a presença desses mestres oferece referências concretas para estudantes. Estar na cultura popular é escolher como ídolos quem está próximo de nós, com quem podemos conviver, aprender e pesquisar juntos.
Mestre Pastinha deixou escrito que “a capoeira está dividida em três partes, a primeira é a comum, é esta que verá o público, a segunda e a terceira parte é reservada no eu de quem aprendeu, e é reservada em segredo, e depende de tempo para aprender”. Nos últimos dois anos, temos vivências de capoeira Angola na USP Leste. Vinculadas à Comissão de Inclusão e Pertencimento, estão abertas para quem quiser chegar, tocar um instrumento ou movimentar o corpo. Para quem está apenas na superfície, vê apenas socialização, atividade física, disciplina, ritmo, coordenação. Mas tem muito mais sofisticação; nos aponta que outras estéticas são possíveis, que outras lógicas são possíveis, que outras verdades são possíveis, que outros valores civilizatórios são possíveis.
Se na sociedade, varrer o chão é tarefa menor, mestre Plínio me ensinou que na academia de Mestre Gato Preto, varrer o chão era reservado ao contra-mestre, segundo em importância na academia. Se na sala de aula se assume que todes devem caminhar no mesmo andamento, na capoeira Angola cada qual é cada qual, cada qual segue no seu tempo, “devagar também é pressa”. Se na universidade o conhecimento de cada um é avaliado individualmente, o saber na Capoeira Angola é coletivo, compartilhado; para que uma roda possa encantar um, o encantamento tem que ser coletivo. Se a pesquisa na universidade acontece fora da sala de aula, na Capoeira Angola ela acontece no ensino; mestre João Pequeno dizia: “eu aprendo com o aluno mais duro”.
“A capoeira é um instrumento de reescrita da minha própria existência”, nos diz mestra Janja. Se as palavras são da mestra, ela também se aplica a mim. É na capoeira Angola que me torno negro; se sempre foi fácil me saber não branco, a Capoeira Angola me dá um lugar de afirmação. Enquanto as referências em sala de aula não estão empretecidas, a Capoeira Angola pode ser esse lugar empretecido; esse lugar de pertencimento. Não apenas para pessoas negras, pois a cultura afro-diaspórica é generosa, e acolhe quem dela quiser se aproximar. Se ela nasce como um instrumento de luta de pessoas reprimidas social, religiosa, e culturalmente, ela também é um instrumento de mudança para um mundo mais diverso e justo.
Se a Capoeira Regional chega na USP nos anos 1970 com mestre Gladson, a capoeira Angola na USP tem uma história mais recente. Nos anos 1990, mestra Janja ensinou em uma sala de aula no Instituto de Psicologia, enquanto cursava seu mestrado e doutorado na Faculdade de Educação. Nos anos 2000, mestre Pinguim ocupou um espaço para criar o Núcleo de Artes Afrobrasileiras, núcleo que está sempre ameaçado de despejo, mas que tem várias dissertações e teses provocadas pelas suas atividades. Nos anos 2010, o professor Omowale é contratado pelo Cepeusp. No mês passado, mais de uma centena de pessoas se amontoaram numa sala on-line e em uma pequena sala da Faculdade de Educação para assistir a defesa de mestrado de Mestre Zelão, maranhense, mas radicado desde dos anos 1980 em São Paulo.
Mesmo com a institucionalização da capoeira Angola, para quem cabe na ontologia e episteme da Universidade, mestre Bigo ainda se encontra em lugar nenhum. A vivência com mestre Bigo foi viabilizada por uma portaria da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento, que permitiu mestre Bigo estar na USP Leste, no seu modo de ser e de ensinar. Em agosto, a Pró-Reitoria criou a Cátedra Encontro de Saberes, empossada pela professora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva. Que essa cátedra possa reconhecer não apenas os saberes diversos, mas que também encontre caminhos para que mestres e mestras da cultura popular possam compartilhar de suas pesquisas, mas respeitando sua própria episteme e ontologia.
Retorno à fala de mestre Bigo: “A capoeira é tão bonita que não conhecemos a beleza dela”. Conviver com os velhos mestres e mestras é apreender e se encantar por uma beleza desconhecida para quem não foi iniciado aos oito anos de idade, como mestre Bigo e Jamal. Mas também é encontrar na cultura popular instrumentos de reescrita de uma universidade mais diversa e inclusiva.
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