Pacientes submetidos ao estudo publicado numa revista médica reagiram bem à válvula de derivação ativada, que permite a drenagem contínua do líquor, tendo melhora em seus sintomas
Por Marcia Avanza
A hidrocefalia de pressão normal, ou HPN, é uma condição neurológica que costuma afetar adultos mais velhos, geralmente acima dos 60 anos. Ela acontece quando há acúmulo de líquido cefalorraquidiano (o líquor) dentro dos ventrículos cerebrais — que são cavidades no cérebro —, mas sem aumento aparente da pressão quando esse líquor é medido.
O que chama atenção é a tríade clássica de sintomas: alteração da marcha (a pessoa passa a andar devagar, com passos curtos e dificuldade de equilíbrio), problemas cognitivos (como perda de memória ou lentidão de raciocínio) e incontinência urinária. Esses sintomas podem ser confundidos com outras doenças como Alzheimer ou Parkinson, o que torna o diagnóstico um desafio.
O diagnóstico da HPN envolve uma boa avaliação clínica e exames de imagem — principalmente a ressonância magnética do crânio, que mostra os ventrículos dilatados. Mas o passo mais importante costuma ser o chamado teste de drenagem de líquor: retira-se uma certa quantidade de líquor por punção lombar e observa-se se há melhora temporária da marcha. Se o paciente melhorar, isso sugere que ele poderá responder bem à cirurgia. E foi justamente esse critério que foi usado para selecionar pacientes com quadro clínico e radiológico de HPN para um novo estudo publicado esta semana na revista New England Journal of Medicine.
O estudo trouxe resultados bastante animadores. Ele foi realizado com 99 pacientes diagnosticados com hidrocefalia de pressão normal, todos previamente avaliados com aquele teste de drenagem do líquor, ou seja, já se sabia que tinham chance de responder bem à cirurgia. Os pacientes foram divididos em dois grupos: um recebeu a válvula de derivação ativada, permitindo a drenagem contínua do líquor; o outro grupo recebeu a válvula em modo placebo, ou seja, fechada, sem drenagem real.
Após três meses, o grupo que recebeu a derivação ativa teve melhora significativa na velocidade da marcha, além de avanços em equilíbrio, conforme medido por escalas clínicas. Já os sintomas cognitivos e urinários não mostraram melhora significativa nesse período curto de acompanhamento, mas isso não é surpresa — esses sintomas costumam melhorar de forma mais lenta ou parcial, e alguns pacientes podem manter déficits mesmo após o tratamento.
É importante lembrar que, como toda intervenção médica, a cirurgia também envolve riscos. No estudo, houve mais casos de dor de cabeça e sangramento leve (hematomas subdurais) no grupo tratado, mas a maioria dos efeitos adversos pôde ser controlada.
O minuto do Cérebro
A coluna O minuto do Cérebro, com o professor Octávio Pontes Neto, vai ao ar quinzenalmente, terça-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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