Inundações ocorrendo no Paquistão desde junho estão causando diversos desastres e dificuldades para o país

As monções no Oceano Índico são um padrão climático natural e crucial para a agricultura em toda a Ásia. No entanto, recentemente, o fenômeno se tornou cada vez mais errático e extremo, causando ondas de calor devastadoras, inundações históricas e deslizamentos de terra. Os eventos têm ocorrido desde o mês de junho e já ocasionaram diversas mortes e o deslocamento forçado de milhares de pessoas pelo Paquistão, principalmente na província de Punjab.
Fernando Villela, professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, explica melhor como ocorre esse padrão climático e também sua importância para a agricultura da região. “As monções são entradas de ar quente, que acontecem principalmente no verão em função da entrada de massas de ar de baixa pressão, que são centros conversores de vento, que atraem a umidade do oceano para as áreas que são atingidas por essas massas de ar. Com isso a umidade aumenta e permite que várias culturas, realizadas em áreas de planície, possam ser cultivadas como, por exemplo, o arroz. Então, em princípio, elas fazem parte inclusive do aproveitamento humano milenar que ocorre nessas regiões asiáticas.”
Intensificação das chuvas
O professor de Ciências Atmosféricas Augusto José Pereira Filho, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, explica o motivo desse fenômeno ter se intensificado tanto ao ponto de ocasionar tamanha destruição. “A Índia, vizinha do Paquistão, tem uma planície de inundação muito grande, ou seja, quando chove muito na época das monções, a água ocupa uma vasta área e acaba inundando, mas com um nível não tão elevado. Porém, essa água, ao descer pelo rio Chenab, na direção do Paquistão, afunila-se na planície. Então quando esse grande volume d’água que vem desde o norte da Índia, na região do Himalaia, chega ao Paquistão, onde ocorreu a maioria dessas mortes, o nível d’água sobe muito.”

O meteorologista também ressalta que os desequilíbrios climáticos ocasionados pela ação antrópica no planeta pouco interferem na ocorrência desse evento extremo, que pode ser caracterizado como uma variabilidade climática, ou seja, alterações temporárias no clima, que não seguem o padrão. Os desastres estão sendo intensificados também pela liberação dessa água acumulada nas barragens das planícies indianas, ocasionando o transbordamento dos rios Sutlej, Chenab e Ravi.
Principais consequências
“A perda de vidas humanas com certeza é a consequência mais grave desse fenômeno, após isso vêm as perdas socioeconômicas, ocasionando em crises sociais, destruição da infraestrutura do país e a piora da qualidade de vida para a população. Numa situação extrema, isso também acaba gerando migração, como o inchaço urbano, principalmente, como foi em algumas áreas do Paquistão, se ocorreram em áreas rurais, fazendo com que a população mude para as cidades, esperando um atendimento melhor” ressalta Villela.
Além disso, as inundações representam um risco à segurança alimentar dos paquistaneses, devido à destruição de locais de agricultura e pecuária, também afetando profundamente a saúde pública da população, que fica exposta à disseminação de doenças transmitidas pela água, como cólera e hepatite. “Se ocorre uma desregularização do ciclo de monções, com eventos de alta magnitude em termos de chuva, isso acaba desestabilizando esses sistemas atmosféricos, podendo migrar de uma área que é comum esses ciclos para áreas que geralmente não têm esse tipo de sazonalidade”, completa o professor de geografia.
Mitigação do fenômeno
Pereira Filho comenta quais são as estratégias que podem ser utilizadas para mitigar esse fenômeno. “Normalmente, a mitigação se faz com medidas estruturais, mudanças no escoamento da água dos rios e também com o sistema de previsão e alerta. Mas a maneira certa de mitigar é investir mais em sistemas de medição. Não se faz mitigação sem um bom sistema de monitoramento do tempo e do clima. O Brasil, por exemplo, chegou a ter 12 mil pluviômetros, mas quando essa rede estatística foi avaliada, quase 40% dos dados foram rejeitados pelo centro de previsão do tempo de Washington, nos Estados Unidos, devido a falhas, erros e outros problemas. Então, se queremos melhorar a nossa compreensão do clima e do tempo, é necessário investir. Do ponto de vista climático é necessária uma série longa de dados de qualidade, no mínimo 30 anos, para caracterizar uma variabilidade climática dessa como ocorrida no Paquistão.”
Além da melhora dos sistemas de monitoramento, uma outra medida estrutural que pode ser utilizada para reduzir os impactos das chuvas é a variabilidade espacial da superfície, que alterna áreas impermeabilizadas, como monoculturas e asfaltos com áreas permeabilizadas, que possam absorver a quantidade massiva de água.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
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