domingo, maio 17, 2026
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Peça mostra como as raízes do desastre de Brumadinho estão na era da colonização – Jornal da USP


Em cartaz no Teatro da USP, “Ganga” denuncia a negligência de empresas mineradoras em Minas Gerais

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Quatro pessoas num palco de teatro.
Estrutura de ferro com dois panos pendurados, usada para construir cenários da peça Ganga – Foto: Manuela Trafane*

Para o Coletivo Aterra, o desastre de Brumadinho, em 2019 — quando barragens da cidade de Minas Gerais romperam e liberaram quantidades maciças de lama pelas ruas —, foi, na verdade, um crime. Com essa ideia, aquele grupo de teatro colaborativo criou a peça Ganga, que denuncia a negligência das empresas mineradoras para com os trabalhadores e o ambiente. Por meio de uma performance que envolve cantigas e monólogos, Ganga mostra como essa relação é mais velha do que as empresas, tendo seu cerne no período da colonização brasileira. A obra já está em cartaz desde o dia 20 de setembro e suas próximas apresentações acontecem nos dias 11 e 12 deste mês, no Teatro da USP (Tusp), na Cidade Universitária.

A peça parte do que aconteceu em Brumadinho e busca relacionar esse fato com um processo histórico maior: a colonização do Brasil. Sua história começa com a personagem Luzia Medeiros (interpretada pela atriz Clara Beatriz), engenheira-chefe de uma empresa mineradora em Minas Gerais. Como uma rara figura feminina e negra nos altos escalões da empresa, ela é convocada para dar uma entrevista sobre como conseguiu chegar ao topo da hierarquia empresarial.  

Em meio à entrevista, o jornalista pergunta sobre denúncias relacionadas à empresa. O questionamento estressa Luzia, que pede um tempo para se acalmar. Buscando serenidade, a personagem se transporta ao Rio Paraopeba. Nesse momento, não é certo se ela realmente vai até lá, ou se é apenas um refúgio mental. Mesmo que o córrego esteja devastado por lama desde as avalanches, a engenheira o vê límpido. “Posso jurar que, naquele momento, eu vi”, ela diz em monólogo à plateia.

Mulher sentada diante de uma mesa num palco de teatro.
Em Ganga, a personagem Luzia Medeiros, interpretada por Clara Beatriz, é engenheira-chefe de uma empresa mineradora em Minas Gerais – Foto: Manuela Trafane*

A partir desse momento a atmosfera da peça muda. As luzes se apagam e o jogo entre iluminação e sonoridade envolve o espectador. No palco, uma estrutura de ferro com dois panos pendurados é usada em diversos momentos durante a performance para formar cenários. A sombra das pessoas, projetada no tecido, forma uma casa cheia de gente rezando ou uma mina com trabalhadores batendo seus instrumentos nas pedras. 

Pela presença de uma entidade mágica, Mãe do Ouro — figura mitológica responsável por proteger as riquezas da terra —, Luzia tem acesso a cenas do passado. A narrativa passa a transitar entre a época do Ciclo do Ouro no Brasil, no século 18, quando a mineração se tornou atividade econômica dominante no Brasil, e o desastre em Brumadinho, em 2019. O enredo perpassa ocasiões históricas como a instauração pela Coroa portuguesa da cobrança do “quinto” — imposto de 20% sobre todo o ouro extraído na colônia —, enquanto demonstra o tratamento dado aos trabalhadores escravizados responsáveis pelo garimpo. 

Paralelamente, é apresentado um membro da equipe de resgate que trabalhava na operação de busca e localização de vítimas da catástrofe de seis anos atrás. Diante da terra hipotética, a personagem se pergunta: “Eles pensaram o quê? O que se pensa enquanto se afunda na lama?”.

A denúncia

Um dos objetivos de Ganga é mostrar ao público como as relações sociais escravocratas continuam presentes na atualidade. Como é dito na peça, “foram-se os escravizados, mas ficou a escravidão”. A diretora-geral Clarice Chauí lembra que a extração do ouro destrói a terra para beneficiar o mercado internacional, já que é voltada para a exportação. “Além disso, ela explora quem trabalha, desde sempre. Nunca teve um momento de ruptura com esses pilares, com essa forma exploratória de produzir. As coisas vão mudando de cara, mas as pessoas continuam sendo tratadas como nada”, pondera. “Inclusive, está comprovado pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que se sabia que a barragem ia estourar.”

O nome Ganga foi escolhido para a peça porque essa palavra designa o conjunto de minerais e terra sem valor, que é despejado e descartado. É também é o nome de uma entidade feiticeira angolana. “Achamos que seus vários significados conversavam com a peça”, diz Clarice Chauí. 

Três pessoas num palco de teatro simulando fazer um garimpo.
A atriz Ana Fabrini (à esquerda) e os atores Bruno Fanin (no centro) e Pedro Máximo (à direita) em cena de Ganga – Foto: Manuela Trafane*

A pesquisa

Enquanto produziam a obra, os membros do coletivo Aterra ficaram por cinco dias em Brumadinho e em Ouro Preto para coletar testemunhos das vítimas do desastre e dados históricos da mineração regional. “Foi um presente termos tido a possibilidade de estar em Minas Gerais”, fala a atriz Clara Beatriz. “Tentamos, dia após dia, trazer para o palco um pouco do que vimos e sentimos lá. Essa chance de fazer pesquisa de campo é muito rara para o teatro de grupo em São Paulo, principalmente o universitário.”

Para Chauí, a perspectiva das pessoas assoladas pela tragédia deveria sair de Brumadinho e ser espalhada pelo resto do Brasil. “A experiência em Minas foi muito intensa, de muita troca. Sabíamos que não havia tempo de criar um enraizamento na cidade para fazer perguntas. Então o que surgiu foi muito espontâneo com quem queria falar conosco”, acrescenta a diretora. “Foi muito pesado, porque a tragédia continua lá. Temos a ideia de que algo aconteceu e passou, mas as feridas ainda estão abertas.”

Na antessala do teatro, antes do início do espetáculo, é exibida uma projeção com depoimentos de moradores de Brumadinho interpretados pelos atores e atrizes do coletivo. Entre esses depoimentos estão falas como: “O que aconteceu não é um desastre, é um crime. Eles sabiam o que estavam fazendo” e “A gente estava pensando em fazer uma reunião de turma, essas coisas de escola, mas vimos que não seria possível fazer porque metade da turma havia morrido”. Além do vídeo, são expostos os materiais de pesquisa usados na criação do espetáculo.

Três pessoas dentro de uma estrutura metálica, num palco de teatro.
Cena da peça Ganga, em que uma estrutura metálica é usada para simular um trem – Foto: Manuela Trafane*

Neste sábado e domingo, dias 4 e 5, às 14 horas, o Coletivo Aterra realizará duas oficinas de teatro colaborativo. Nelas, o grupo vai mostrar os recursos de criação utilizados na produção de GangaPara participar, é preciso fazer inscrição neste link.

As apresentações da peça Ganga, do Coletivo Aterra, acontecem nos próximos dias 11, sábado, às 20 horas, e 12, domingo, às 18 horas, no Teatro da USP, o Tusp (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Os ingressos são distribuídos uma hora antes do espetáculo na bilheteria do Tusp

* Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro



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