Evento realizado por USP, Fapesp e Museu Nacional de História Natural da França integra a Temporada França-Brasil 2025
Por Michel Sitnik

A Universidade de São Paulo (USP), o Museu Nacional de História Natural da França (MNHN) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) realizaram, em São Paulo, o encontro Florestas, Biodiversidade e Sociedades Humanas. O evento integra a Temporada França-Brasil 2025, uma programação conjunta de atividades culturais, científicas e acadêmicas organizada pelos dois países para marcar os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
O objetivo foi discutir a biodiversidade florestal, os ecossistemas e sua relação com as sociedades humanas, com foco no fortalecimento da cooperação científica e cultural entre Brasil e França. O encontro reuniu cientistas, gestores públicos, profissionais de museus, estudantes e representantes da sociedade civil em conferências, mesas-redondas e debates, além de visitas institucionais. O papel dos museus também foi um assunto central que permeou as discussões.
A abertura ocorreu no auditório da Fapesp na quarta-feira, dia 1º de outubro, com a participação do presidente da Fundação, Marco Antonio Zago; da vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda; do presidente do MNHN, Gilles Bloch; da cônsul-geral da França em São Paulo, Alexandra Mias, e diversas autoridades brasileiras e francesas.
“Os museus de história natural têm suas origens no século 17, quando plantas, animais e artefatos de diversos continentes eram coletados e enviados para os centros europeus, a fim de abastecer os famosos gabinetes de curiosidades da nobreza. Muitos destes gabinetes acabaram por se transformar nas grandes coleções biológicas e etnológicas que deram origem a museus emblemáticos como o Museu Nacional de História Natural de Paris e o British Museum em Londres. Diante disso, não é surpreendente que esse modelo de produção e comunicação do conhecimento tenha sido posteriormente criticado por causa dos seus vínculos estruturais com o colonialismo. Ainda assim, esses museus continuam desempenhando um papel central na educação e na pesquisa”, lembrou Maria Arminda.

Ela também comentou o projeto, atualmente em execução, da futura Praça dos Museus da USP, que reunirá acervos dos museus de Zoologia (MZ) e de Arqueologia e Etnologia (MAE). “No Brasil, os museus de história natural estão intimamente ligados ao surgimento da pesquisa científica no país. A Universidade de São Paulo tem acervos museológicos ímpares, acervos científicos e culturais dentre os maiores do mundo. Temos um compromisso com os nossos museus e com esses acervos, e, por isso, estamos construindo um novo espaço, com um projeto notável, do grande arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Esse novo museu será uma referência para toda a cidade, para o País e para o mundo”.
Zago destacou a importância das áreas florestais no desenvolvimento da ciência: “Aproximadamente quatro milhões de quilômetros quadrados do nosso país, uma área que corresponde a mais ou menos 40% do tamanho da Europa, são cobertos pela Floresta Amazônica. Mas esta imensa floresta estende-se também ao território francês, da Guiana Francesa. Temos, assim, nós, brasileiros e franceses, uma responsabilidade compartilhada sobre esta floresta, que é uma das maiores reservas da biodiversidade do planeta. O seu destino pode determinar o destino da humanidade”, disse. “O interesse científico nesta região cada vez mais se desloca de uma preocupação que era mais centrada nas características do bioma, do seu papel sobre o clima e da sua biodiversidade. Agora, isso se amplia e cada vez mais se fixa na relação da floresta com o homem. Homem e floresta são um binômio inseparável que definiu a história da região desde tempos imemoriais, e essa relação não se limita ao passado histórico. Pelo contrário, ela está muito viva e determina a trajetória atual da região e o futuro da floresta. Mais de 20 milhões de amazônidas convivem com rios, igarapés, florestas e montanhas, mas também nas grandes metrópoles da região, com centenas de etnias indígenas que dividem um território complexo e diversificado. É fácil entender o interesse científico nisto, mas também nós podemos compreender que a ciência pode servir de base para decisões mais racionais e políticas públicas voltadas para a preservação com sustentabilidade, com base em modelos próprios, criados pela nossa ciência, e não em tentativas de reproduzir modelos alheios importados”, asseverou.
Já Gilles Bloch, afirmou que “os desafios ambientais compartilhados por França e Brasil são muito sérios, e o MNHN está fortemente comprometido em trabalhar as questões ambientais de forma contundente. Este fórum é bastante ambicioso e reforça a tradição de colaboração que existe entre nós e a USP. Todos os acordos que estamos celebrando nessa visita são uma grande honra para nós e vão facilitar a prática de ações e cooperações num trabalho que precisa ser realizado em rede. Tive a oportunidade de visitar o MZ e o MAE nos últimos dias e fiquei extremamente impressionado com o que vi. Os acervos são tesouros inacreditáveis, e seus pesquisadores e técnicos são pessoas muito animadas com uma vocação e uma paixão pela natureza e sua preservação”, celebrou.

Mesas e debates
A programação dos dois primeiros dias, que foi aberta ao público, teve início com duas conferências: uma do professor Carlos Augusto da Silva, da Universidade Federal do Amazonas, sobre a floresta e a presença humana na Amazônia antiga e contemporânea, e outra da pesquisadora Jane Lecomte, do MNHN, sobre a preservação e a convivência com os ecossistemas florestais.
Silva apresentou o conceito de “digitais humanas” na Amazônia, que são os pequenos sinais de convivência entre humanos e floresta em diferentes épocas. Tais sinais demonstram como cada um dos elementos do ecossistema desempenha um papel no que o pesquisador compara com “serviços ambientais realizados em rede”. Para ele, o entendimento desses papéis é a chave para a convivência harmoniosa e a preservação ambiental. Na palestra de Jane, o foco foi nas variações das dinâmicas entre os diferentes tipos de florestas e na integração das riquezas dos saberes locais de cada uma para o entendimento mais profundo sobre o funcionamento desses ambientes e na conscientização sobre a nossa interdependência em relação à natureza.

Na sequência, houve uma sessão de relatos com os resultados das mesas-redondas que foram realizadas em Paris no mês de junho, na primeira parte da programação da Temporada França-Brasil.
À tarde, sessões introdutórias abordaram intercâmbios científicos Brasil–França sobre o estudo das florestas e de seus povos, seguidas de uma mesa-redonda sobre a cooperação científica entre a Guiana Francesa e o Brasil, com participação de pesquisadores de universidades brasileiras, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do MNHN.
O segundo dia começou com conferências que trataram da sociobiodiversidade florestal e dos desafios impostos pelas mudanças globais à conservação da biodiversidade. Pesquisadores do Brasil e da França discutiram questões como monitoramento ambiental, riscos climáticos e estratégias de preservação. À tarde, a programação trouxe uma conferência sobre o conhecimento biocultural amazônico e a diversidade cultural e biológica, seguida de uma mesa-redonda dedicada às relações culturais entre humanos e florestas. Participaram especialistas das áreas de psicologia, arqueologia, biologia e antropologia, além de representantes de comunidades indígenas, como o povo Guarani da Aldeia Jaraguá.
Encontros institucionais
Além da programação aberta ao público, foram realizados, paralelamente, encontros entre cientistas, dirigentes e integrantes de grupos de pesquisa brasileiros e franceses para intercâmbios de experiências, reforçando a continuidade da cooperação iniciada em Paris.
No dia 30 de setembro, Gilles Bloch foi recebido pelo reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior, na Reitoria da Universidade. A visita teve a participação do pró-reitor adjunto de Cultura e Extensão Universitária, Hussam El Dine Zaher, e dos diretores do MZ, Luís Fábio Silveira, e do MAE, Eduardo Góes Neves, além de diversos dirigentes e membros da comitiva. Na ocasião, o grupo pôde trocar experiências sobre a administração de museus científicos, com especial ênfase nos desafios relacionados à gestão de coleções e à atração de público.

O reitor destacou o projeto da Praça dos Museus e a importância da integração entre os acervos que ocuparão o novo espaço: “Cada um desses patrimônios, sozinho, já é algo imenso. São milhões de itens. E a importância vai além da questão numérica, pois são conteúdos com valores inestimáveis em termos científicos e históricos. A unificação de tudo isso em um espaço físico comum vai propiciar uma conexão entre os pesquisadores e estimular ainda mais colaborações e inovações”, explicou.
Já na noite de 1º de outubro, após as atividades na Fapesp, foi assinado, no Consulado-Geral da França em São Paulo, um protocolo de intenções entre o MNHN, o MZ e o MAE. O documento prevê a ampliação da colaboração acadêmica, científica e cultural entre as instituições.
Entre as áreas contempladas estão o desenvolvimento de projetos conjuntos de pesquisa, intercâmbio de pesquisadores e estudantes, organização de eventos acadêmicos e culturais, além de iniciativas voltadas à preservação e valorização de coleções. O protocolo também prevê a possibilidade de realização de exposições conjuntas e de ações de divulgação científica voltadas ao público.
No dia 3 de outubro, os participantes do fórum voltaram a se encontrar na Reitoria da USP e integraram uma série de debates e trocas de experiências sobre temas como intercâmbios e financiamento. Representantes de museus, universidades e entidades diplomáticas expuseram experiências bem-sucedidas de colaboração e trabalho em rede, além de sugestões para o estabelecimento de novos trabalhos conjuntos. A agenda das delegações foi encerrada com uma visita técnica ao Instituto Butantan, onde o grupo foi recebido pelo diretor Esper Kallás.



