segunda-feira, maio 18, 2026
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Os fundamentos do ato poético, segundo Fernando Paixão – Jornal da USP


Professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP lança “Descoberta da Poesia”, pela Editora da USP (Edusp)

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Capa de livro com imagem abstrata.
O livro de Fernando Paixão publicado pela Editora da USP (Edusp) – Foto: Divulgação/Edusp

Em 1982, o editor Caio Graco Prado convidou o jovem jornalista, poeta e editor Fernando Paixão – hoje professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – para escrever o livro O Que É Poesia, que formaria o volume 63 da Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense. Agora, 43 anos depois, Paixão lança uma nova versão do livro, com novo título – Descoberta da Poesia: uma Introdução à Leitura Poética – e alterações no conteúdo, a fim de “dizer com as palavras de hoje as intuições críticas” que vislumbra há muitos anos, como ele mesmo diz. O livro é um lançamento da Editora da USP (Edusp). Paixão é também organizador de Antologia do Poema em Prosa no Brasil, recentemente publicado pela Ateliê Editorial.

Homem de cabelos grisalhos e de óculos.
O poeta e professor da USP Fernando Paixão – Foto: Maira Mesquita

Descoberta da Poesia começa com um prólogo, “Início de Conversa”, que explica a história por trás da opção por refazer o livro de introdução à poesia. A seguir, a obra é dividida em três partes. A primeira é dedicada a abordar conceitos gerais e históricos da poesia, enquanto a segunda trata de aspectos formais da escrita poética, e a terceira aborda modelos poéticos contemporâneos que romperam com a poesia tradicional. Além disso, o autor oferece indicações de leitura, em que dá dicas de como escolher livros e sugere seis leituras para aprofundar os temas discutidos em Descoberta da Poesia.

A imaginação, os símbolos e a sensibilidade

No prólogo, Fernando Paixão explica que mudou de opinião sobre o texto que escreveu em 1982, fazendo-se necessária a retirada do título do catálogo da Brasiliense e a sua atualização. Ele diz que a obra era “datada”, “simplista” e estava “incompleta de informações”, mas ressalta a importância dela como base para a atual, já que não queria deixar para trás sua versão mais jovem, “que entendia a poesia como uma arte que implicava viver intensamente”. Com isso, por meio de uma linguagem de fácil entendimento, mas sem perder a clareza e o rigor e se valendo de exemplos de diferentes épocas, o autor busca “ampliar o gosto da poesia em parcela dos leitores”, como ele escreve.

Na primeira parte do livro, o foco do texto está nas subjetividades envolvidas nos processos de escrita e de recepção dos poemas, além de trazer as transformações que ocorreram ao longo do tempo — afinal, uma mesma experiência pode causar sensações distintas em pessoas diferentes, tanto na escrita quanto na leitura. Um dos temas investigados é o amor como um tema recorrente na poesia. Como Paixão observa, da Antiguidade até o início do século 19 predominava um amor idealizado. Depois, passou a ser algo “ambíguo e inquietante”. Dessa forma, o papel da poesia pode ser o de traduzir sensações, transformando o sentimento em imagens. Para explicar essa ideia, Paixão cita o exemplo do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), que descrevia o poeta como um “fingidor”, sendo o fingimento o que leva o leitor a acreditar na arte de um poeta.

Capa de livro com o desenho de uma pessoa de costas.
Livro de Fernando Paixão publicado em 1982 na Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense – Foto: Reprodução

Ainda na primeira parte de Descoberta da Poesia, Paixão trata das figuras de linguagem relacionadas à analogia e o papel desses recursos na construção poética. No que diz respeito à metáfora, o principal desses mecanismos, ela existe na modalidade tradicional — que consiste na aproximação entre dois elementos estranhos um ao outro de forma direta — e na modalidade de comparação — que contém a presença explícita do elemento comparativo. O primeiro formato é mais comum e faz da metáfora algo “essencial à poesia”, ainda que mesmo a metáfora tenha passado por mudanças. Paixão explica que, até o século 18, a metáfora era utilizada “para tornar o assunto mais elevado, longe da vulgaridade”. Mas, a partir do século 19, a liberdade formal e as implicações no imaginário aumentaram, com maior presença do romantismo e do verso livre. Isso se refletiu, no século 20, na valorização do inconsciente, do desconhecido e da loucura em movimentos como o Surrealismo.

A forma poética: do clássico ao contemporâneo

A segunda parte de Descoberta da Poesia é dedicada principalmente ao estudo das métricas de construção de poemas. Rimas, repetição de vogais e outros recursos que moldam o ritmo e a cadência de um poema caminham lado a lado com a sonoridade do texto na construção do seu sentido, ensina Paixão. O autor explica, por exemplo, como funciona a divisão das sílabas poéticas, que é diferente da gramatical. A seguir, apresenta modelos de forma fixa e comenta o fato de que, com o passar dos anos, as formas fixas deixaram de ter presença obrigatória nos poemas. O soneto, por exemplo, surgiu numa “sociedade que prezava a razão e pregava a obediência aos preceitos da Igreja e do Império”, a fim de valorizar a harmonia e o equilíbrio. Mas hoje o que predomina é a adaptação desses modelos. “Não existe incompatibilidade entre a forma fixa e a sensibilidade crítica nos séculos 19 e 20 modernos, o que interessa é o feliz encontro entre forma e conteúdo”, escreve o autor.

Utilizando o poema Bananas Podres, de Ferreira Gullar (1930-2016), o autor explica que “a poesia cria o próprio tempo”, enquanto, na prosa, o próprio enredo dá essa noção. Ele explica que a ideia de tempo tem percepções distintas, a depender da origem: se nas civilizações tradicionais o passado era o principal, com o presente e o futuro sendo “reflexo de um passado primordial, longínquo, muito além da memória”, no Ocidente, marcado pela percepção judaico-cristã, “o tempo caminha em direção ao futuro” e a uma “vida melhor”. O que se vê atualmente é uma ênfase no tempo reflexivo, vertical, mais do que nas relações de causa e efeito, continua o autor. Além disso, Paixão explora as relações entre tempo, natureza e poema, que estão direta ou indiretamente ligados na construção poética. Para ele, assim como a natureza tem polaridades, o poema também tem suas dualidades, dentre as quais pode-se destacar a oposição entre palavra e silêncio. A partir daí, ele analisa a importância das pausas para a construção de uma dinâmica dentro do texto.

Na terceira e última parte da obra, o autor se volta à contemporaneidade para explicar que os recursos poéticos transcendem um tipo de escrita específica. Ele apresenta dois modelos que rompem com a divisão pré-estabelecida entre prosa e poesia. O primeiro é a prosa poética, que tem predominância narrativa e se apropria de recursos da poesia para tornar a narrativa mais complexa, o que acontece em muitos contos e romances — como é o caso de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa (1908-1967). Já o segundo modelo é a poesia em prosa, que é formada por “textos de inspiração lírica, mas sem o corte de versos”, a partir de três elementos principais: a unidade (poucos elementos), a gratuidade (inspiração em situações pontuais) e a brevidade (que, em poucas linhas, mantém o efeito do ritmo). Paixão cita o poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) como alguém que defendia, já na sua época, a ideia de que a história se confunde com a poesia moderna, não sendo necessária uma regra formal que separe ambas.

Fernando Paixão é organizador de obra sobre poema em prosa – Foto: Divulgação/Atelier Editorial

A anarquia em relação às formas fixas de poesia também aparece na menção aos poemas futuristas, como os do italiano Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944) e do brasileiro Oswald de Andrade (1890-1954). Como uma das vanguardas literárias do século 20, o futurismo se movimentava contra a sintaxe e o uso de adjetivos, de advérbios e da pontuação, por exemplo, de modo a defender um texto ininteligível. Apesar de toda essa liberdade nas poesias, o autor ressalta que é preciso que elas “promovam uma atmosfera lírica que confira unidade aos versos”. Ainda no contexto do século 20, Paixão traz a ideia de poesia visual — que tem na visualidade o seu grande referencial — e a diferencia da poesia concreta, que traz mais espaços em branco e menos versos, unindo o sonoro ao visual no chamado verbovicovisual e estimulando a percepção do leitor.

Sobre a poesia nos dias de hoje, Paixão acredita que ela está intimamente ligada ao conceito de modernidade líquida, como desenvolvido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). Nesse cenário, a variedade de experiências vividas pelas pessoas propicia que se usem vários estilos, ao mesmo tempo em que a individualidade, o imediatismo e as transformações sociais da atualidade rompem com a solidez do período anterior. Paixão apresenta a ideia de “sensibilidade líquida”, ligada ao estado de espírito inquieto das pessoas do século 21 e refletida no aumento da imaginação fugitiva e transitória na poesia. Ele traz, também, a visão da escritora Claudia Roquete-Pinto sobre a existência da poesia feminina (ou de qualquer poesia associada às minorias políticas em um ambiente que sempre foi predominantemente masculino). Na opinião dela, não existe poesia feminina, mas sim “certas vivências tipicamente femininas, que se projetam na poesia”.

Por fim, ele apresenta o conceito de “leitura devagar”, surgido no final do século passado e que valoriza a leitura e “a lentidão como um antídoto contra a leitura (e a vista) rápida”. Para Paixão, a leitura devagar desperta maior curiosidade intelectual e abertura para outras sensibilidades, amadurecendo o leitor. “A poesia não está nos versos nem nas coisas. Ela é uma apropriação da sociedade pelas palavras, arte do discurso que busca a singularidade da forma, o registro formal e uno.”

Descoberta da Poesia – uma Introdução à Leitura Poética, de Fernando Paixão, Editora da USP (Edusp), 168 páginas, R$ 40,00

* Estagiário sob supervisão de Roberto C. G. Castro



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