Em sua coluna, Luli Radfahrer esmiúça o termo “Fomo”, que tão bem é usado pelas empresas de tecnologia para manter os usuários sempre na dependência e na frustração
Você já ouviu falar no termo Fomo? Pois é, Luli Radfahrer explica nesta sua coluna que o termo em questão foi inventado por uma agência de publicidade e, durante muito tempo, não foi levado a sério, “mas depois descobriram que ele sintetiza bem e acabou se tornando um termo de uso psicológico. Fomo, ou, em inglês o medo de ficar de fora, é a ansiedade que surge da crença que os seus colegas, as pessoas em volta de você, estão tendo experiências mais legais, estão tendo um dia mais legal, uma noite mais legal do que você. Ele sempre existiu, mas as grandes empresas de tecnologia transformaram esse viés psicológico em uma arma, por meio de feeds infinitos, tipo TikTok, Instagram, notificações em tempo real, interrompendo tudo o que você estiver fazendo e até toda a ideia de escassez artificial”.
O problema, ainda de acordo com o colunista, é que esse tipo de notificação está o tempo todo interferindo no dia a dia das pessoas, o que acaba causando prejuízos à saúde mental. “Para começar, os mais óbvios: ansiedade, estresse, aquela necessidade constante de checar as redes sociais para se manter atualizado […] outro efeito muito comum é a pessoa se sentir exausta por excesso de demandas. E, claro, o terceiro, óbvio, também é a baixa autoestima. A hora que eu me comparo com todo mundo, todo mundo é mais lindo, todo mundo é mais bacana, todo mundo está tendo um dia melhor, a culpa só pode ser minha de estar tendo uma vida tão ruim. Além disso, tem a sensação de isolamento, porque se eu estou sempre por fora de algo bacana, é porque, sei lá, vai ver que eu tenho chulé. Tem a tomada de decisão impulsiva também, porque a hora que todo mundo me cobra, me pede um monte de coisas, eu estou distraído, eu vou responder sem pensar.”
Tudo não passa de uma estratégia perversa por parte das empresas de tecnologia, que descobriram que a notificação irregular – “ou seja, você não sabe a que horas, de que jeito e com que conteúdo você vai receber uma notificação” – cria os mesmos padrões de dependência encontrados no jogo de azar. “Então faz com que o indivíduo fique verificando o dispositivo compulsivamente, com medo de perder a próxima dose de aprovação social. É daí que vem o Fomo (Fear of Missing Out), medo de estar por fora. E essa notificação é projetada para ser usada o tempo todo. Por quê? Porque o usuário motivado por isso passa mais tempo na plataforma; como está sem pensar direito, interage com o conteúdo com mais frequência e clica em mais anúncios. Por isso que, de repente, as plataformas mudaram daquela ideia de conectar os seus amigos para começar a mostrar experiências de estilo de vida.” Mas como escapar dessa armadilha? “O que a gente precisa mesmo é uma reeducação dos hábitos, desligar todo tipo de notificação e tirar o telefone da frente, porque a maior parte das vezes a gente está vendo que os aplicativos estão sendo desenvolvidos para explorar qualquer fraqueza, qualquer fragilidade psicológica que você tenha.”
Datacracia
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.
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