Pesquisa em Artes Cênicas discute questões relacionadas à incorporação de tradições afrodiaspóricas nos trabalhos de centro artístico fundado pelo diretor polonês Jerzy Grotowski na Itália

A descrição de um sonho sobre identidade negra com Neusa Santos Souza abre a tese de doutorado de Luciano Mendes de Jesus. Post-its estão espalhados ao longo do trabalho e autores como Achille Mbembe e Frantz Fanon aparecem como personagens-guia do texto. O pesquisador explica que buscou uma estrutura que produzisse “um conhecimento legítimo, mas que não tem que ser legitimado pelas lógicas de uma certa academia, e nem mesmo pelas normas da ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas]”.
O resultado desse esforço, intitulado O mapa é de fragmentos de um espelho no chão do mundo: amizades, africanidades e identidades na Estrada Negra de Grotowski ao Workcenter, aborda as relações em um espaço de trabalho performativo situado na cidade italiana de Pontedera, na região da Toscana. Orientado pela docente Sayonara Sousa Pereira, do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, o trabalho recebeu menção honrosa para a área de Letras, Linguística e Artes no Prêmio Tese Destaque USP deste ano.

O espaço em questão é o Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards. Foi fundado por Jerzy Grotowski, diretor polonês que dedicou parte de sua carreira à criação de encenações teatrais que se tornaram históricas. No entanto, ele rompeu com o teatro tradicional e passou a se dedicar a “uma investigação sobre o ser humano em situações performativas, buscando a performance como um veículo de conhecimento da pessoa sobre si mesma”, conta Luciano, que é um dos mais novos docentes do Departamento de Artes Cênicas da ECA.
O pesquisador explica que essa investigação levou o diretor a entrar em contato com os cantos de tradição haitiana e outras culturas afrodiaspóricas, como a cubana e a do sul dos Estados Unidos. Esses cantos foram então incorporados como a base do trabalho investigativo e performativo do Workcenter, que esteve em atividade entre 1985 e 2022.
Luciano afirma que esse tipo de canto, “sobretudo das tradições continuadas e reconstruídas na diáspora, com seu alto poder de transculturação, constrói territórios simbólicos”. Para ele, o ato de cantar reterritorializa a pessoa afrodescendente e as canções funcionam “como âncoras que aterram uma identidade que deriva, geram a noção concreta de pertencimento”.
A arte da diáspora e os locais limítrofes
Luciano discute a maneira como as tradições afrodiaspóricas foram trabalhadas no Workcenter a partir de sua própria vivência como performer do grupo, entre 2013 e 2015. Na tese, ele aponta que os elementos da cultura afrodiaspórica, bem como as presenças de colaboradores afrodescendentes na trajetória do Workcenter, “foram pouco consideradas nos discursos elaborados pelo binômio Grotowski-Workcenter e em pesquisas acadêmicas sobre o mesmo”. Por esse motivo, o pesquisador buscou olhar para essa falta de representação de um modo crítico.
Chamou sua atenção o fato de que em quase 30 anos não havia uma presença negra expressiva no grupo, mas justamente quando começaram a aflorar discussões sobre apropriação cultural e racismo institucional, Luciano e mais três pessoas negras foram selecionadas para ingressar no Open Program do Workcenter.
Ele conta que, apesar das relações de amizade estabelecidas no local, a pesquisa buscou abordar criticamente o pouco destaque de epistemologias afrodiaspóricas e a relevância das presenças negras na trajetória pós-teatral de Grotowski e do Workcenter. Para ele, “o doutorado foi a possibilidade de olhar para isso não de uma maneira de cancelamento”, mas como uma forma de ver as falhas e potências do projeto. A tese foi composta pelos relatos de experiências próprias entrelaçados à base teórica, com autores como Frantz Fanon e Michel Foucault.
O autor considera que sua experiência no Workcenter foi marcada pelo que ele chama, na tese, de políticas de amizade. Ao mesmo tempo, o racismo do meio externo exercia certa influência no trabalho, como ele conta sobre uma experiência de inimizade racial no consulado dos Estados Unidos: às vésperas de uma viagem de trabalho com a equipe, o pesquisador teve o visto negado sob o pretexto de ser um potencial imigrante ilegal, mesmo com muitos documentos que comprovavam seu vínculo ao grupo e à Itália. A consulesa perguntou onde Luciano tinha comprado os documentos e, além disso, afirmou: “eu conheço a gente da sua terra”, se referindo ao Brasil.
Ele explica que é importante falar desses locais limítrofes, como fronteiras e alfândegas, porque eles “determinam, em nível global, a experiência de existência do artista negro africano e afrodescendente” pelo modo de tratar pessoas negras. Na tese, o autor comenta: “o choque entre estes dois modos de vivência [de amizade e inimizade] teve como consequência, em mim, uma constante sensação de deriva”, e ainda diz: “é nesse jogo de tensões que consigo encontrar a crise de uma afrodescendência como marcador identitário em constante elaboração”.
A partir dessas reflexões, Luciano desenvolveu sua pesquisa “observando as experiências comuns que a gente vivia, desse racismo que se dá nas fronteiras, nos aeroportos, nas ruas, nos lugares onde não somos esperados, onde nossa presença não é vista no primeiro momento como legítima”.
Amizades teatrais e inimizades raciais
O pesquisador também explorou a presença de Thomas Richards, estadunidense que assumiu a direção do Workcenter após a morte de Grotowski, em 1999. Thomas é filho de Lloyd Richards, professor emérito da Universidade Yale. Segundo Luciano, “foi um dos primeiros atores negros a atuar na Broadway e abriu caminho para outros artistas, dramaturgos, diretores, atores. No entanto, Thomas Richards nunca trouxe muito a presença do pai em sua obra”. O pesquisador também aponta que o reconhecimento como afrodescendente e a relação de Thomas com as tradições afrodiaspóricas só chegaram por meio das provocações de Grotowski, um homem branco.
Com a análise de situações vividas no Workcenter e de seu contexto histórico, Luciano conclui que, no período em que foi parte da equipe, a “maior representatividade [negra] foi uma forma de conseguir legitimação sobre o trabalho sobre cantos de tradições afrodiaspóricas, realizado por uma maioria de pessoas brancas desde a fundação do centro de pesquisa artística”.
Esses cantos foram usados, segundo ele, de forma desracializada, sem a preocupação com as raízes étnico-históricas dessas tradições. Era “um monte de pessoas brancas cantando cantos de pessoas pretas, mas num grupo onde não tem pessoas pretas”, segundo a citação de uma fonte anônima que compõe a tese.
Para Luciano, “quando Grotowski fala do canto de tradição como algo de autoria anônima ou patrimônio da humanidade” o material afrodiaspórico é tratado como arquivo do mundo. Como consequência, esses elementos são mantidos “nas sombras do indiferenciável” apesar do potencial de “construção de vitalidades em qualquer circunstância cultural no tempo presente”.
No pós-doutorado, Luciano pretende pesquisar os vissungos, cantos de tradição do interior de Minas Gerais. O tema começou a ser trabalhado por ele quando ainda estava no Workcenter, e tomou forma no projeto Garimpar em Minas Negras Cantos de Diamante, que foi apoiado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte). Para ele, “trabalhar, ensinar, pesquisar e criar nesse campo com as africanias e no diálogo com as culturas dos povos originários e do sul global, é fundamental para, de fato, a construção de uma comunidade na construção de conhecimento”.
“Eu penso as africanidades de maneira afro-referenciada ou afro-perspectivada, mas não afrocêntrica. […] Eu não quero um novo centro, me interessa muito mais olhar que tudo é centro, o centro está em todos os lugares”, diz Luciano Mendes de Jesus, atualmente docente da ECA.
*Texto de Maria Luiza Negrão, do LAC – Laboratório Agência de Comunicação da ECA. Versão original publicada no site da ECA.





