segunda-feira, maio 18, 2026
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“A Amazônia é essencial ao equilíbrio do planeta. É objeto de estudo muito mais presente e urgente” – Jornal da USP


É o que diz Christiane Taubira, da Guiana Francesa, ex-ministra da Justiça da França, em nova publicação da Cátedra José Bonifácio

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Christiane Taubira, coordenadora do livro Amazônias, espaço vivo, social, político, da Cátedra José Bonifácio – Imagem: Montagem com Claude Truong-Ngoc/Wikimedia e Divulgação/Edusp

 

“Uma contribuição signi­ficativa da USP para os debates associados à conferência do clima de Belém do Pará, a COP30”, diz a frase final do texto da contracapa do livro Amazônias, espaço vivo, social, político, publicação da Cátedra José Bonifácio, programa de pesquisa administrado pelo Centro Ibero-Americano (Ciba) e vinculado ao Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP. A obra é coordenada por Christiane Taubira, antiga parlamentar e ministra da Justiça da França, cuja escolha para a cátedra inicialmente estimulou controvérsias.

homem branco, cabelos grisalhos, paletó cinza chumbo e camisa branca. Fundo de madeira
Pedro Dallari, coordenador da Cátedra José Bonifácio – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“Christiane Taubira veio para a Cátedra José Bonifácio da Universidade de São Paulo (USP) em outubro de 2024. Antiga ministra da Justiça da França – Garde des Sceaux, como a posição é historicamente denominada naquele país –, essa qualificação gerou dúvida na Universidade: como atribuir a uma personalidade da vida pública francesa a condução de programa de pesquisa dedicado ao espaço social ibero-americano? Bastante simples e clara, a resposta veio logo: Taubira é originária da Guiana Francesa, nascida em Caiena – amazônida, negra e créole , como ela mesma se define –, uma mulher sul-americana, portanto”, explicita Pedro Dallari, coordenador da Coleção Cátedra José Bonifácio, na publicação.

À guisa de introdução da obra, Christiane Taubira desenha: “A Amazônia é uma região essencial ao equilíbrio do planeta. Ela se tornou um objeto de estudo cada vez mais presente e urgente. Além disso, é tema de muitas declarações e resoluções internacionais. É legítimo questionar a percepção projetada sobre a Amazônia a partir de outros lugares, e os vieses provenientes de um imaginário que não está imune à situação política do mundo no momento da instauração de instituições multilaterais”.

E prossegue: “Aqui, portanto, relembra-se o que é a Amazônia: uma geografia, um ecossistema complexo, não uma paisagem; uma história transversal e nove histórias verticais e depois nacionais; povos e comunidades que teceram modos de vida e artes de viver, praticando e transmitindo centenas de línguas e de diversos saberes tradicionais, que não deixaram, de geração em geração, de fazer desse espaço vivo um espaço social, no quadro (ou apesar) de legislações nacionais às vezes estrábicas ou míopes, às vezes apoiadas em decisões das supremas cortes”.

Segundo as organizadoras da publicação, Camila Perruso e Djamila Delannon, a coordenadora Christiane Taubira “desejou que a obra fosse uma contribuição importante para a trigésima Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30) desde o início, indicando claramente que o objetivo do livro era reunir reflexões capazes de servir à ação, abrindo caminhos para todas e todos que se interessam pela Amazônia, mas, sobretudo, para aqueles que desejam pensar o mundo de forma diferente a partir das Amazônias”.

De acordo com elas, “o volume reúne análises de personalidades de destaque e especialistas experientes, bem como contribuições de pesquisadoras e pesquisadores de pós-graduação da USP”. São 23 textos, alguns em francês, divididos em duas partes, a primeira com a contribuição dos especialistas, e a segunda, com a de membros do grupo de pesquisa da Cátedra José Bonifácio. Na primeira parte, consta um artigo do ex-primeiro ministro francês no governo de François Miterrand, Laurent Fabius, Justice et environnement: le rôle des Cours constitutionnelles.

Mapa da Amazônia, abrangendo o Brasil (em verde-escuro) e os países vizinhos (em verde-claro) – Arte: Jornal da USP

Vale destacar um trecho do texto Amazônias, nossas vidas… contra alertas e quimeras, de autoria da catedrática Christiane Taubira:

Bem-vindo! A essa Amazônia, que é mais que uma paisagem. E que não pode ser resumida a pulmão do planeta. A essas Amazônias, lugares de nossa vida. Nossos lugares de vida.

Antes de mais nada, a Amazônia é uma geografia. Quase oito milhões de quilômetros quadrados, é o que se lê por todo lugar. E uma diversidade excepcional. A maior densidade de insetos por metro quadrado, e sem dúvida espécies de sapos dendrobatídeos ainda desconhecidas, sem falar nos anfíbios de cores cintilantes.

É o que basta para nos fazer sonhar, mas também tremer, ao pensarmos nos “construtores de ruínas” dos quais falava Euclides da Cunha no início do século 20. Também é lá que corre o rio Amazonas, cuja vazão é maior que a do Nilo; onde se dispersam quase sete mil quilômetros de rios que dançam e serpenteiam, abrigando mais de três mil espécies de peixes de água doce, entre os quais o imenso pirarucu.

Sob arroubos sentimentais, tornou-se um hábito repetir esses números e falar dessas maravilhas. Um hábito e um mantra. É verdade, a Amazônia é uma geografia. É também uma história. Que fragmentou essa geografia entre nove países, onde as línguas nativas convivem com as línguas crioulas, umas e outras abrindo caminho, obstinadamente, pelas dobras e fendas das línguas europeias. Essas línguas europeias, muitas vezes adoradas e com status oficial nas Constituições, ignoram massivamente as marcas das línguas nativas e sincréticas na fala cotidiana, assim como os rastros deixados pelo vaivém das línguas africanas. Partilhada por nove países, a história da Amazônia revela um pouco da história das potências europeias.

Nessas sociedades com vidas sociais, econômicas e culturais plurais, coloca-se a questão, por ciclos e intermitências, de um possível destino comum. A Amazônia, e particularmente sua proteção, pode tornar provável esse possível destino comum, cujos contornos e perspectivas ainda aguardam definição. Com a condição de que consigamos explicar às pessoas que, antes de pertencer ao mundo e de concentrar os temores traumáticos e febris de quem degradou ecossistemas ao sul e ao norte, essas Amazônias são lugares de vida, milenares; lugares de uma violência plurissecular; lugares de longa convivialidade tecida por resistências solidárias, por compartilhamento de saberes e do espaço; lugares de rastros; lugares de conhecimentos empíricos e de invenção; lugares de felicidade, de tristeza, de onde participamos do mundo, de onde olhamos o mundo, lugares que contribuem para o mundo.

A íntegra da publicação Amazônias, espaço vivo, social, político pode ser acessada gratuitamente.



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