segunda-feira, maio 18, 2026
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Em São Paulo, periquitos, maracanãs e papagaios buscam alimento em árvores nativas – Jornal da USP


Se ouvir alguém dizer que viu uma revoada de papagaios pela Universidade de São Paulo, não duvide. A transformação na paisagem da Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira (Cuaso), no Butantã, faz parte da adaptação a ambientes urbanizados de algumas espécies de psitacídeos — família à qual papagaios, maracanãs e periquitos pertencem. Intrigados pelo modo como essas aves têm se adaptado à cidade, pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da USP quantificaram a dieta das espécies que habitam o campus. 

Indo a campo, a equipe registrou 2.929 eventos de alimentação que envolveram 83 alimentos. A comida de escolha, quase sempre, vinha de plantas — 79 espécies distintas, em sua maioria arbóreas. Três espécies de psitacídeos foram as responsáveis por 97% desses casos: Brotogeris tirica (periquito-verde), Diopsittaca nobilis (maracanã-nobre ou arara-d’ombros-vermelhos) e Amazona aestiva (papagaio-verdadeiro). Com exceção do periquito-verde, que consumiu de forma equilibrada frutos, sementes e néctar, as outras concentraram sua dieta em sementes. 

“Tendo alimento e o local para fazer ninho, eles vão prosperar. E é o que a gente nota aqui”, diz o professor José Carlos Motta Junior, do Departamento de Ecologia do IB, em entrevista ao Jornal da USP. O primeiro autor do artigo explica que, embora os psitacídeos do campus já tenham sido amplamente documentados, o número atual de avistamentos chama a atenção. “Há cerca de dez ou 15 anos, não se via a quantidade de papagaios que observamos hoje.” 

O aumento de psitacídeos na região acompanha um cenário singular: ainda que inserida na área urbana, a Cuaso se destaca por sua cobertura arbórea extensa, composta tanto de espécies nativas quanto exóticas. Os dados refletem essa relação: 59,5% das plantas consumidas pelas aves eram nativas (67,7% do total de eventos de alimentação) —  o que sugere a importância das espécies regionais na arborização urbana. 

A perda da vegetação nativa, a introdução de plantas exóticas e as mudanças no microclima afetam diretamente a ocorrência das aves em ambientes urbanos. Motta Junior ressalta que, por outro lado, o consumo das exóticas indica a plasticidade adaptativa dos psitacídeos, ou seja, a capacidade do sistema biológico de modificar seu comportamento em resposta a mudanças ambientais. Um exemplo é a sazonalidade na dieta das aves, que passaram a consumir mais flores em períodos secos e menos em meses de precipitação intensa. Os resultados da pesquisa foram publicados na Revista do Instituto Florestal.



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