Especialistas apontam impactos da ferramenta no sistema nervoso, na atenção e na consolidação da memória
Por Hugo Carcci*

O hábito de assistir a vídeos em velocidades acima do normal tem se popularizado nas principais plataformas digitais e já faz parte da rotina de milhões de usuários. Funções como a reprodução em 1,5x ou 2x são cada vez mais acionadas em aplicativos como TikTok, Instagram e YouTube, permitindo consumir uma quantidade maior de conteúdos em menos tempo. Para alguns, essa prática é vista como um recurso de produtividade. Para outros, é apenas uma forma de evitar pausas longas e acelerar o entretenimento. A tendência, no entanto, também levanta debates sobre como essa mudança pode afetar a maneira como as pessoas processam informações e se relacionam com o conteúdo audiovisual.

O psicólogo especialista em terapia cognitivo-comportamental Mário Glória Filho explica o que leva as pessoas a utilizarem esse tipo de ferramenta. “Um estudo bem recente de 2025 mostrou que o maior preditor para assistir um vídeo em velocidade acelerada é a utilidade percebida, ou seja, a sensação de que você está economizando tempo”, explica. “Muita gente acelera ou pula os vídeos em plataformas como TikTok, YouTube ou Netflix, justamente para evitar se entediar. Só que os estudos mostram o efeito contrário. Quanto mais a pessoa acelera ou pula, mais entediada e insatisfeita ela tende a se sentir. A experiência fica menos envolvente”, ressalta. O especialista conclui que a facilidade de uso dessas ferramentas também impacta: quanto mais simples de acionar, maior o uso.
Saúde mental
A prática, por si só, quando feita isoladamente, não é maléfica. Segundo o psicólogo, “em alguns casos, assistir em velocidade 2x pode até ajudar, se o tempo economizado for utilizado para revisar o conteúdo antes de uma prova, por exemplo”. Contudo, o uso rotineiro da ferramenta pode agravar casos de saúde mental. “Quando você acelera vídeos, o cérebro precisa processar mais informações em menos tempo e isso aumenta a carga mental. Esse esforço extra pode dar a sensação de cabeça saturada, irritação, dificuldade de manter a concentração e sintomas de ansiedade”, explica. “Em outras palavras, não é o ato isolado, apenas de colocar um vídeo em velocidade aumentada que gera ansiedade, mas quando isso se soma a um estilo de vida já acelerado com muitos estímulos e pouca pausa pode contribuir para aumentar o estresse e a sensação de estar sempre correndo atrás”, conclui.
Impacto cerebral
A prática pode impactar partes específicas do cérebro, como explica a professora Flávia Marucci da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP. “De forma imediata, as estruturas impactadas são relacionadas ao sistema límbico (grupo de estruturas no cérebro que regulam emoções,

comportamento, motivação e memória) e ao nosso sistema de recompensa (circuito que processa a informação relacionada à sensação de prazer ou de satisfação), justamente por envolver uma hiperestimulação.” Ela reforça que “além disso, todo o processo relacionado ao nosso controle executivo e à regulação de foco atencional também fica alterado, e isso é regido principalmente pelo nosso córtex pré-frontal (responsável pelas funções executivas do cérebro, como a tomada de decisões, planejamento, resolução de problemas e regulação do comportamento e das emoções)”.
Ainda segundo a especialista, quando vídeos acelerados se tornam recorrentes, “o cérebro se acostuma com esse padrão de conteúdos mais rápidos, mais intensos e acaba tendo dificuldade quando a informação não chega na mesma velocidade”. O psicólogo acrescenta que, ao longo do tempo, esse processo “pode diminuir a paciência para atividades mais lentas e profundas, como uma conversa presencial, uma leitura densa ou até assistir a um filme sem distrações”.
Memória comprometida
Flávia afirma que existem dois tipos de memória: a operacional e a de longo prazo. Segundo ela, “vídeos acelerados prejudicam a memória operacional porque é aquela que eu registro durante a execução da atividade e, por ser limitada, não consegue registrar muitas informações ao mesmo tempo”.
A especialista detalha os processos. “Para uma memória ser armazenada em longo prazo ela precisa de processos de repetição, elaboração, consolidação e criar conexões. A informação é recebida e isso cria conexões com outras informações no sentido de redes neurais, para assim o processo de elaboração ser feito e então se consolide no sono.” Ela conclui que, diante do fluxo de informações hiperestimuladas, rápidas e intensas, torna-se difícil mantê-las na memória operacional. Isso gera registros mais frágeis e incompletos, comprometendo a memória como um todo.
Limite saudável
Apesar da dependência de fatores como o nível natural individual de processamento de informação, familiaridade com o tema que está sendo assistido e o tipo de conteúdo Flávia acredita que a aceleração em até 50% pode ser considerada saudável. “Evita sobrecarga excessiva e fadiga mental sem comprometer a compreensão e a memória. Acima disso, já pode ser mais prejudicial.”


