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Arte, história e humanização. Palavras de homenagem ao Professor Emérito Boris Kossoy – Jornal da USP


Na abertura da 36ª Bienal de Arte de São Paulo, as palavras de Keyna Eleison, curadora at large da edição de um suplemento especial do jornal O Estado de S. Paulo, 8 de setembro de 2025, interpretam a essência do evento como um processo em construção: “Não estamos buscando a ideia europeia e filosófica de humanidade. Nós a abordamos como um verbo a ser conjugado. (…) Por isso falamos também de humanidade no plural, para evidenciar que não existe apenas um tipo de verdade ou apenas um jeito de criar arte.”

No mesmo rumo diria que Arte, Ciência/Reflexão e História seguem a mesma trajetória plural de processos em construção. Experiências e mentes diversas acrescentam andaimes a essa construção que ensaia afirmar as assinaturas humanas.

Neste momento, desejo registrar as marcas de uma dessas assinaturas: a de Boris Kossoy. E com acento na pluralidade de méritos da contribuição ao mesmo tempo na Arte, na Reflexão e na História. Não seria diferente a tríplice homenagem que agora expresso, perante uma obra que se desdobra nos três volumosos campos de publicações.

Como já escrevi em um prefácio de um livro recente de Kossoy – O Encanto de Narciso (2020) –, conheço o pesquisador há meio século. Ao me mudar com a família para São Paulo e sermos contratados, Sinval Medina e eu, na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP em 1971, logo viria um contato acadêmico e amigo com o colega Thomaz Farkas (1924-2011) no Departamento de Jornalismo que a seguir acrescentaria Editoração à estrutura da Comunicação Social. E com o saudoso Farkas logo surgiria também um elo externo à USP.

O professor e consagrado criador na área audiovisual, empresário do ramo, me convidou, junto com o colega Paulo Roberto Leandro (1947–2015), que havíamos assumido a pioneira Agência Universitária de Notícias na ECA, para editarmos a revista de sua empresa, a Fotoptica. A interrupção do trabalho acadêmico deste grupo no meio dos anos 1970, por motivos políticos da ditadura militar e já documentados na Comissão da Verdade da USP, vol.8, não interromperia a atuação jornalística na Revista Fotoptica. E neste espaço de atuação mantive significativos contatos com os fotógrafos da época, hoje assinaturas fundantes da criação nacional e internacional. Entre eles, se destacavam as imagens nomeadas fantasmagóricas de Boris Kossoy.

Não me cabe a exegese crítica dessa semântica, porque me interessava então aquilo que mais tarde situaria como leitura cultural no lugar de análise do discurso. Se nas entrevistas, depoimentos e contatos diretos com o fotógrafo, ele podia apresentar motivações de sua arte, o fato é que, ao longo de décadas, em exposições locais e externas, sua obra navegou com as digitais de autoria na fotografia mundial. Na belíssima edição de 2010, Boris Kossoy , Fotógrafo, a apresentação de Jorge Coli abre a janela verbal para intitular a lente da câmera fotográfica “O Caleidoscópio e a Metafísica”. Aqui os fantasmas do fotógrafo transcendem o realismo epidérmico. Mas as fotos que se seguem a partir dos anos 1950, nos tocam também tanto pela magia das miudezas do cotidiano quanto pela imprevisibilidade da metarrealidade. O que não se percebe é a ausência da observação, da reflexão e do metabolismo erudito de um autor que se debruça sobre a linguagem fotográfica. Talvez esse o fantasma seja o que persegue e empurra qualquer gesto autocentrado no próprio clique para uma consciente pesquisa do legado coletivo de imagens. Ou, como se intitula outro registro de fotografias de uma exposição de 2013, Busca-me. E onde buscar o fotógrafo Boris Kossoy? Seu fantasmagórico é uma antologia das vias traçadas pela humanização na linguagem visual.

Talvez por isso que o estudioso de ciências sociais na origem – formado em arquitetura (Universidade Mackenzie, 1965), optou por mestrado e doutorado em Sociologia (Escola de Sociologia e Política, 1977-1979), mas se lançou ao Outro da Fotografia pela rigorosa e pioneira pesquisa histórica. Mais um sintoma do desprendimento das imagens-em-si-mesmo e a perseguição fantasmagórica coletiva.

Motivado portanto por raízes no tempo, o pesquisador mergulhou em documentos e deu vez a insights para chegar a Hercules Florence, ao século 19 e a descoberta da fotografia no Brasil, percurso detalhadamente registrado no livro de 1977. Nessa altura, a partir de 1975, eu saíra da USP e dirigia a Editoria de Artes do jornal O Estado de S. Paulo. Daí acompanhei toda a saga de Kossoy para levar ao mundo esse pioneiro processo fotográfico desenvolvido pelo pesquisador francês após participar da Expedição Langsdorff (1825-1829) do Tietê ao Amazonas por via fluvial. A seguir, Florence se estabeleceu na Vila de São Carlos, atual cidade de Campinas, e na sua inovadora experiência de laboratório deu passos decisivos à história das invenções. Foi preciso muito empenho do pesquisador brasileiro, nascido em São Paulo, para documentar essa descoberta, remeter a “isolada invenção da fotografia no Brasil” e dar-lhe crédito em instituições e registros internacionais. Testemunha desse itinerário no Estadão dos anos 1970 aos anos 1980, passei a admirar o estudioso para além do artista. Escusado rever aqui a extensa bibliografia em português e em línguas estrangeiras em que Boris Kossoy une sua paixão pela fotografia ao método de pesquisa do inventor Hércules Florence. Edições em espanhol, francês, inglês ou alemão que, em conjunto com as de língua portuguesa, estão aí à disposição de historiadores não só da fotografia como da comunicação visual desde o século 19. Na 4ª edição revista e ampliada de 2020, da Edusp, novos leitores encontram em 445 páginas o minucioso relato da viagem do pesquisador brasileiro documentada no primeiro livro de 1977 sobre Hércules Florence.

Mas não foi suficiente esse radical mergulho do historiador, sempre unindo o Gesto da Arte e ao seu contexto sociocultural. Kossoy ainda se empenha sobremodo em criar ambientes coletivos – galerias ou espaços em grandes instituições culturais – para apoiar e dar visibilidade aos parceiros da fotografia. Também aí acompanhei sua vocação solidária: o Outro, Fotógrafo, conta com ele para compor o cenário coletivo do desenvolvimento e do brilho da fotografia em nosso meio. A biografia dele próprio se funde com o interesse e acolhimento da criação dos Outros. Trago apenas um momento ao presente dos tantos que poderia elencar. Ao dirigir o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (1980–1983), lembro de dar cobertura no jornal paulista a uma iniciativa fabulosa. Kossoy montou um projeto para as cidades do interior do Estado, em que as populações elegiam seu espaço fotografável, seu próprio rincão de patrimônio histórico. (Uma rua, uma pracinha, um bairro – superando a mentalidade do patrimônio histórico atribuído a palácios, templos e casarões.) Dessa proposta nasceu uma exposição fotográfica e uma original documentação assinada pelo coletivo no MIS, que muito conteúdo cultural revelava a antropólogos, sociólogos, comunicadores.

Há de se apontar uniões particulares que também frutificaram no âmbito histórico de tempos e espaços. Kossoy e sua companheira, a historiadora uspiana Maria Luiza Tucci Carneiro têm multiplicado juntos importante documentação de períodos complicados como o da Imprensa confiscada pelo Deops 1924-1954, volume de 2002. Ou o volume O olhar europeu, o negro na iconografia brasileira do século 19 (1994). Minha homenagem a esta parceria de grandes amigos, Malu e Boris. (Aliás, devo a Maria Luiza Tucci Carneiro o convite de participar de uma de suas pesquisas históricas que resultou no livro por ela organizado, Minorias silenciadas, de 2001, onde refleti sobre o período da censura na minha atividade profissional como repórter e editora na ditadura militar de 1964.)

A contribuição histórica de Kossoy, se atravessou fronteiras na busca das autorias na arte e na técnica da fotografia, igualmente se empenhou no território nacional. Um olhar sobre o Brasil, a Fotografia na construção da imagem da Nação 1833-2003, edição de 2012, com a consultoria científica de Lilia Moritz Schwarcz, atesta uma das ampliações dos mapeamentos já consagrados em Álbum de Photographias do Estado de São Paulo 1892, de 1984, Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo – Militão, São Paulo de 1981, São Paulo, 1900 de 1988, culminando com a obra mais recente, Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro de 2002, em que o subtítulo Fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910) nos leva a uma visita aos artistas das câmaras (lambe-lambe) e dos estúdios fotográficos que fixaram rostos e comportamentos de nossa cultura.

Pergunta que se impõe: como estudioso como esse poderia estar fora da mais importante universidade de pesquisa do País? Foi outro importante pesquisador, Walter Zanini (1925–2012), diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP e também diretor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) de 1981 a 1985, que teve a iniciativa de incentivar Boris Kossoy para ingressar na unidade universitária que faria jus a seu valor científico e que agora o reconhece como Emérito. A essa voz saudosa de Zanini me uni nos anos 1990 para que Boris pra cá viesse – hoje partilhamos a mesma sala no Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA. Desde 1988 já ministrara cursos como professor colaborador, em 2000, prestou concurso de livre-docência e em 2002, para o cargo de professor titular. Sua inserção acadêmica tinha raízes em instituições de ensino superior a partir dos anos 1970 nas áreas de Comunicação, Museologia e Arquitetura. A Universidade de São Paulo, no entanto, não poderia ser o melhor locos para que assinasse sua terceira vocação, a de epistemólogo da fotografia.

E para comprovar esse eixo de conhecimento da tríplice contribuição artístico-histórico-científica de Boris Kossoy, aí estão livros de necessária consulta, alguns já circulando também no Exterior: Fotografia e História (primeira edição de 1988); Realidades e Ficções na trama fotográfica (primeira edição de 1999); Os Tempos da Fotografia, o efêmero e o perpétuo (2007); O Encanto de Narciso – Reflexões sobre a Fotografia (2020). Este – o mais recente volume de uma obra que ainda se multiplicará em presentes e futuras criações do fotógrafo, historiador e do epistemólogo da fotografia – articula em profundidade a reflexão e o ato artístico, pois Narciso nos faz navegar em inúmeras interrogantes: aparência, enigma e significados; a construção de realidades; verdade e verossimilhança; o olhar e o repertório do observador; fato, imagem e imaginação; ambiguidades; códigos formais e culturais; ciência e representação; história visual e edição; fotografia e memória; fotojornalismo – entre imagens e palavras; o instante e retângulos eternos; cultura, ideologia e memória; o passado nebuloso.

Meu amigo, que itinerário você nos oferece para reafirmamos perante ingenuidades epistemológicas aquilo que, em síntese, você diz da fotografia – afinal uma foto não reproduz a realidade e sim produz uma Segunda Realidade. Grata por deixar registrado em seus textos nossa afinidade de mediadores/autores ao atribuirmos sentidos ao mundo coletivo que nos cerca, aos rostos individualizados e suas circunstâncias. A sua produção simbólica nas Fotografias que captou e capta a Primeira Realidade são primas irmãs do universo linguístico das Reportagens que ensaio na Comunicação Social. Também simbolicamente habitamos a mesma sala na universidade.

(Este texto integra a apresentação-homenagem que enunciei na cerimônia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 25 de setembro último, ao atribuir o título de Professor Emérito ao professor titular sênior Boris Kossoy.)

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