Um estudo mostrou resultados muito positivos com uma nova medicação, chamada ecopipam, que atua sobre receptores neurológicos
Por Marcia Avanza
A síndrome de Tourette é um distúrbio neurológico de desenvolvimento que geralmente começa na infância, entre os 5 e 7 anos de idade. Ela se manifesta por tiques motores e vocais, que são movimentos ou sons involuntários e repetitivos — como piscar os olhos, fazer caretas, emitir sons ou até palavras. Esses sintomas tendem a variar em intensidade, com períodos de melhora e piora, e podem se tornar bastante limitantes para algumas pessoas.
A causa exata ainda não é totalmente compreendida, mas sabemos que envolve alterações nos circuitos cerebrais ligados à dopamina, um neurotransmissor essencial para o controle dos movimentos. O tratamento é indicado quando os tiques causam sofrimento ou impacto na vida escolar e social, e costuma incluir medicamentos. O problema é que as opções disponíveis atualmente — em geral antipsicóticos que atuam sobre os receptores D2 da dopamina — podem provocar efeitos colaterais importantes, como ganho de peso, alterações metabólicas e, em alguns casos, movimentos involuntários secundários. Por isso, há uma busca constante por terapias mais eficazes e seguras.
Um estudo apresentado agora em outubro no Congresso Internacional de Doenças de Parkinson e Distúrbios do Movimento, em Honululu, Havaí, mostrou resultados muito positivos com uma nova medicação chamada ecopipam. Ela tem um mecanismo de ação diferente: em vez de bloquear os receptores D2 atua sobre os receptores D1 da dopamina, o que pode ajudar a controlar os tiques sem causar os efeitos adversos mais temidos.
O estudo foi um ensaio clínico de fase 3, com mais de cem participantes, incluindo crianças, adolescentes e adultos. Após um período inicial de uso do remédio, os pacientes que haviam melhorado foram divididos em dois grupos: um continuou tomando o ecopipam e o outro passou para placebo. O resultado foi impressionante — nas crianças e adolescentes, o risco de recaída dos tiques foi reduzido em 50% no grupo que manteve o tratamento, e o mesmo benefício foi observado também quando se consideraram os adultos.
Os efeitos colaterais mais comuns foram sonolência, ansiedade e dor de cabeça, mas o medicamento não causou ganho de peso nem alterações metabólicas. Isso é um diferencial importante, já que muitos pacientes abandonam os tratamentos atuais por causa desses problemas. Se confirmado em estudos de longo prazo, o ecopipam pode se tornar o primeiro representante de uma nova classe de medicamentos para a síndrome de Tourette — e uma esperança real para quem convive com essa condição.
O minuto do Cérebro
A coluna O minuto do Cérebro, com o professor Octávio Pontes Neto, vai ao ar quinzenalmente, terça-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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