A experiência de pessoas migrantes residentes em São Paulo é marcada por um sentimento de ambivalência, segundo as entrevistas. Ao mesmo tempo que as pessoas se mostram gratas pelo acolhimento em diversos ambientes, sofrem por perceberem discriminações xenofóbicas e racistas. Há relatos de pessoas que se percebem alvo de olhares fixos em certos ambientes, o que consideram estranho em um país com uma população negra tão grande.
Entre as entrevistas, há relatos de abordagens policiais constrangedoras ou violentas, como conta um dos entrevistados, Pierre Ainda, vindo de Chade, país da África Central. Pierre sofreu uma abordagem policial, à luz do dia, quando estava em seu primeiro ano como intercambista da Pontifícia Universidade Católica (PUC), no curso de Teologia, saindo da faculdade acompanhado de um amigo compatriota e de outros colegas. Ele e o amigo ficaram de costas com as mãos na parede e suas mochilas foram totalmente reviradas:
“Do nada, quatro viaturas da polícia. A gente andava com muita gente e a polícia parou só nós dois. E parou de um jeito bem violento, pegaram a mochila, tiraram os cadernos que a gente tinha dentro. Revistaram tudo. Eu fiquei totalmente apavorado, porque era a primeira vez que eu estava sendo abordado assim. Depois viram que a gente não era o que pensavam”.
Pierre Ainda, da República de Chade
Enquanto morou em São Paulo, Laure também fez visitas ao Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) de Perus. Nessa região, residem muitas pessoas vindas do Haiti, o que fez com que dirigentes do Cieja criassem um currículo intercultural com atividades sobre a cultura migrante.
A professora de Língua Portuguesa, Cristiane Maria Coutinho, que trabalha no Cieja, comenta que “alemães, holandeses, suíços, italianos são muito bem aceitos, bem recebidos [no País]. Os brasileiros têm uma curiosidade de saber da língua, como vieram, como vivem. Isso não acontece com os haitianos.” Cristiane relata que, em festas para a comunidade organizadas pelo Cieja, pessoas brasileiras demonstraram surpresa ao notarem que os haitianos falavam francês. “Havia, também, uma crença dos brasileiros de que o Haiti ficava na África. E a África já é estigmatizada”, diz a professora.
Laure reflete sobre “como as pessoas que chegam agora têm, muitas vezes, as mesmas problemáticas que as pessoas afro-brasileiras” e sofrem com as consequências do racismo estrutural, como formação de novos guetos na cidade e a violência contra a população negra.
A exemplo disso, ela menciona o assassinato do jovem imigrante do Congo, Moïse Kabagambe, em seu local de trabalho, ocorrido no Rio de Janeiro. Laure conta que estava em São Paulo quando aconteceram protestos pela morte do jovem congolês, reunindo imigrantes e pessoas negras brasileiras.


