domingo, maio 17, 2026
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Relatório “Fairwork Brasil” revela cenário de precariedade do trabalho em aplicativos no País – Jornal da USP


Geraldo Tessarini comenta iniciativa internacional do Oxford Internet Institute, a qual tratou de trabalho decente nas plataformas digitais

Imagem de um jovem preto transportando por bicicleta uma sacola com mercadoria, que leva em suas costas
As condições de trabalho em empresas de aplicativo ainda é precário, aponta pesquisa – Foto: Laura Monteiro Fernandes/Wikimédia
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O terceiro relatório Fairwork Brasil 2025 sobre trabalho decente nas plataformas digitais, iniciativa internacional sediada no Oxford Internet Institute, avaliou dez plataformas digitais e revelou um cenário de precariedade, endividamento e ausência de direitos para trabalhadores de aplicativos. Geraldo Tessarini Junior, pós-doutorando da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP e autor da tese: A “obra-prima” da exploração: normalização do trabalho precário, consentimento e resistência na gig economy sobre o mesmo tema, comenta a respeito.

Geraldo Tessarini Junior – Foto: Lattes

“O novo relatório Fairwork Brasil confirmou um cenário vivenciado diariamente pelos trabalhadores e que é muito conhecido por aqueles que pesquisam sobre esse tema. Trata-se de um trabalho marcado pela exploração, baixos salários, jornadas longas e falta de direitos básicos. O documento mostrou que, das dez plataformas avaliadas, apenas duas conseguiram pontuar e, mesmo assim, o ponto relacionado é a remuneração mínima. Ou seja, nenhuma plataforma oferece condições de trabalho decentes. Fica evidente nessa situação que as promessas de autonomia que as empresas vendem escondem a precariedade e os riscos que os trabalhadores têm que enfrentar diariamente.”

Causas da precariedade

Tessarini afirma que é uma situação complexa e que, primeiramente, o próprio modelo de negócio dessas plataformas, que se colocam ali como intermediárias e parceiras e não efetivamente como empregadoras, acaba mascarando o vínculo trabalhista. Em segundo plano, as próprias práticas de gestão adotadas, como bloqueios de conta sem justificativa, técnicas de “gamificação”, que promovem metas de desempenho muitas vezes inalcançáveis, acabam aumentando a vulnerabilidade dos trabalhadores.

“São mecanismos que criam estresse, incentivam jornadas longas e que podem levar à perda de ganhos, caso o trabalhador não atinja os parâmetros definidos pela plataforma, aumentando a insegurança financeira e os riscos de acidentes.” O terceiro aspecto mencionado é a falta de legislação sobre esses empregos, que não se encaixam nas leis trabalhistas existentes, o que dificulta a responsabilização dessas empresas diante dessas condições precárias.

“Por fim, a questão da representatividade dos trabalhadores, onde eles têm muito poucos mecanismos de negociação coletiva, o que impede ou dificulta melhorias efetivas. As plataformas, além de oferecerem uma remuneração baixa, acabam transferindo os custos da atividade para o trabalhador, que têm que arcar com combustível, seguro do veículo, celular e internet. Se o trabalhador ficar doente ou se machucar no trabalho, ele também não vai receber nenhum apoio da plataforma. Não é à toa que muitos trabalhadores estão se endividando para conseguir continuar nesse ramo, como mostra o relatório.”

A gig economy e o que pode ser feito a respeito

O termo gig economy é utilizado na literatura acadêmica, principalmente internacional, justamente para se referir a esse processo cada vez mais acentuado de precarização. “É como se fosse um modelo de negócios perfeito, acrescentando até essa nova questão dos empréstimos, apresentada no relatório, na qual o trabalhador não tem uma remuneração suficiente, precisa arcar com os custos do trabalho e aí tem que recorrer a empréstimos, que são oferecidos pelas próprias plataformas, para conseguir continuar executando essa atividade. Então é como se fosse uma obra-prima da exploração do trabalho.”

“Se devemos pensar em ações que possam ser exercidas, eu acho que a principal é a questão da regulação, garantir que as plataformas paguem uma remuneração justa e ofereçam segurança aos trabalhadores. E é fundamental que essa regulação seja feita de forma tripartite, com a presença do Estado, das empresas, e principalmente dos trabalhadores. Não basta ouvir o que os trabalhadores querem, é necessário que toda e qualquer regulação seja efetivamente construída por eles.”

Outro aspecto importante mencionado por Tessarini é o fortalecimento da representação coletiva, seja via sindicatos ou outras instâncias, também, a necessidade de maior transparência e governança dessas plataformas, pois é importante que o trabalhador conheça e tenha clareza dos critérios de gestão, avaliação e remuneração.

Período de retrocessos históricos

“É um modelo que gera retrocessos históricos, ao precarizar direitos conquistados no trabalho formal, como estabilidade, Previdência e diversos outros. Se as plataformas continuarem priorizando lucros e flexibilidades que beneficiam apenas elas próprias, o setor tende a ampliar cada vez mais desigualdades. Cabe a nós, enquanto sociedade, contribuir para que ocorra uma mudança nesse modelo. Não podemos continuar ignorando e normalizando esse modelo de negócios que oprime e explora os trabalhadores, que muitas vezes não têm outras alternativas para sustentar as suas famílias”, finaliza Tessarini.

O tema está sendo julgado pelo Supremo Tribunal Federal e a tendência é ser feita uma regulação, mas que não caracteriza o vínculo empregatício nos moldes da CLT, porém serão garantidos alguns direitos aos trabalhadores e impostos limites às plataformas.


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