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Agroecologia fortalece a produção local, mas enfrenta barreiras no campo, na política e na escola – Jornal da USP


Feiras agroecológicas, políticas públicas e materiais didáticos revelam avanços e limitações na consolidação de práticas sustentáveis em Ribeirão Preto

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As feiras e os grupos de consumo agroecológicos são formas de comércio mais justas, tanto para produtores quanto para consumidores – Foto: Abmac/Wikimédia
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Em Ribeirão Preto, iniciativas como feiras agroecológicas, grupos de consumo e assentamentos rurais revelam avanços na busca por cadeias de produção mais justas e sustentáveis. Ao mesmo tempo, a cidade carrega o peso de ser conhecida como “capital do agronegócio” e maior polo sucroalcooleiro do mundo, o que evidencia a contradição entre experiências locais de resistência e a predominância do modelo agrícola convencional. Nesse cenário, as práticas agroecológicas ganham visibilidade, mas ainda enfrentam barreiras impostas pela fragilidade das políticas públicas e pela pouca presença do tema nas escolas.

Essas três dimensões, feiras agroecológicas, políticas públicas e ambiente escolar, foram analisadas em profundidade por pesquisas desenvolvidas no Laboratório de Epistemologia e Didática da Biologia (Ledib), da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. Os trabalhos de conclusão de curso, de Letícia de Godoy Torso, Verônica Albano Colantonio e Maria Luiza Pereira Andrade,  revelam como a agroecologia ainda encontra barreiras no cotidiano de agricultores familiares, nas políticas públicas e no ambiente escolar.

A agroecologia tem se consolidado nas últimas décadas como uma alternativa viável ao modelo convencional de produção agrícola, marcado pelo uso intensivo de insumos químicos, mecanização e monocultura. Mais do que uma técnica de cultivo, trata-se de uma abordagem que integra dimensões sociais, ambientais e econômicas, defendendo a proteção da biodiversidade e soberania alimentar. Apesar de sua crescente valorização, sobretudo diante das mudanças climáticas e da pressão pelo uso sustentável dos recursos naturais, sua implementação concreta ainda enfrenta desafios profundos.

Espaços de resistência

O mapeamento realizado por Letícia de Godoy Torso identificou 11 iniciativas agroecológicas em Ribeirão Preto e sua região metropolitana, entre feiras, grupos de consumo e produções familiares. Foram entrevistados agricultores familiares agroecológicos comerciantes e/ou produtores e os organizadores das iniciativas de comercialização.

O levantamento mostrou que o município conta com cerca de 35 locais de feira livre e assentamentos como o Mário Lago e o Sepé Tiaraju, este localizado na região metropolitana da cidade, que atuam como polos de produção agroecológica. “As feiras e os grupos de consumo agroecológicos são formas de comércio mais justas, tanto para produtores quanto para consumidores, porque aproximam os dois lados e garantem preços mais acessíveis”, afirma Letícia.

Além de aproximar produtores e consumidores, esses espaços são reconhecidos por promover educação ambiental e fomentar uma mudança cultural no consumo de alimentos. “Os grupos de consumo são responsáveis por promover discussões e ações educativas sobre a cadeia de produção e consumo de alimentos, incentivando mudanças positivas nessas cadeias”, observa a pesquisadora.

Letícia de Godoy Torso – Foto: Arquivo pessoal

Mas os desafios são grandes. Muitos agricultores relataram ausência de certificação específica para agroecológicos, o que limita o reconhecimento de seus produtos no mercado. A certificação participativa, quando existe, é vista como alternativa mais acessível, mas não alcança a mesma valorização que os selos oficiais.

As condições de vida nos assentamentos também chamaram atenção: falta de saneamento básico, insegurança hídrica e precariedade de infraestrutura foram mencionadas por praticamente todos os entrevistados. “Todos os agricultores familiares agroecológicos já enfrentam muitos desafios, como a falta de incentivo governamental e o baixo pagamento nos programas de compra.”

Mas, no caso dos assentamentos, esses problemas se agravam ainda mais, porque a realidade é de um verdadeiro abandono estatal, que revela a incompletude do processo de reforma agrária”, acrescenta Letícia. “Apesar de estarem sobre o Aquífero Guarani, os assentados não têm acesso suficiente à água para irrigação. Isso compromete a produção e a permanência no campo”, destacou.

Políticas públicas frágeis 

Verônica Albano Colantonio – Foto: Arquivo pessoal

A monografia de Verônica Albano Colantonio mostrou que, em nível federal, a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), instituída em 2012, foi fruto da mobilização de movimentos sociais e representou um marco ao reconhecer a agroecologia como política de Estado. “A PNAPO foi fundamental para reconhecer a agroecologia como política de Estado. Só que sua efetividade sofreu com cortes orçamentários e descontinuidade de metas.”

Programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) se destacam por garantir a compra institucional da agricultura familiar, destinando pelo menos 30% dos recursos da merenda escolar à produção local.

Em São Paulo, a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica (Peapo) foi aprovada em 2018, mas só começou a ser implementada em 2024, o que evidencia a demora na efetivação das medidas. “Isso mostra que mais do que criar políticas, é essencial garantir sua execução contínua e bem financiada”, explica Verônica.

No plano municipal, Ribeirão Preto já possui leis que autorizam a inclusão de alimentos agroecológicos no sistema de ensino e a realização de feiras de produtos orgânicos. Mas, segundo a pesquisadora, falta um plano estruturado e metas claras. “O que falta de fato é a criação de uma política municipal de agroecologia e produção orgânica, que articule alimentação saudável, educação ambiental e desenvolvimento sustentável. Além disso, é fundamental promover processos de conscientização da população, porque a agroecologia nasce e se fortalece a partir dos movimentos sociais e do engajamento comunitário. Também é essencial garantir o acesso à terra e ampliar investimentos públicos”, afirma.

A análise também ressalta que, embora existam 21 normativas entre esferas federal, estadual e municipal relacionadas ao tema, sua efetividade depende da continuidade e da fiscalização. Sem isso, a agroecologia segue limitada frente ao peso econômico e político do agronegócio.

Formação crítica

Maria Luiza Pereira Andrade – Foto: Arquivo pessoal

Na dimensão educacional, Maria Luiza Pereira Andrade analisou 400 aulas do material digital de ciências adotado pela rede estadual paulista em 2024. Foram identificadas 239 menções à agricultura, das quais 97% referiam-se à agricultura convencional. 

Apenas seis vezes apareceram com termos ligados à agricultura não convencional, como agricultura sustentável, orgânica ou permacultura. “Minha análise mostrou que o tema da agricultura é apresentado sob uma visão majoritariamente progressista, associando tecnologia a maior produtividade, segurança alimentar e sustentabilidade. Mas essa escolha simplifica o debate e limita a compreensão de práticas agrícolas verdadeiramente sustentáveis. Apesar de a agricultura aparecer como fator de impacto ambiental e de mudanças climáticas, o material não incentiva um pensamento crítico complexo do aluno”, avalia Maria Luiza.

A pesquisadora destaca que o material escolar dá ênfase quase exclusiva à produtividade, vinculada ao emprego de técnicas de manejo e gestão, sem estimular uma reflexão mais complexa sobre impactos ambientais e sociais. “Dentro do material, 97% das expressões sobre agricultura são ligadas ao modelo convencional. Não há espaço para a agricultura não convencional como alternativa de redução da degradação ambiental e de aproximação entre sociedade e natureza. Isso cria uma lacuna de conhecimento sobre a relação direta entre agroecologia, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável”, aponta.

Para Maria Luiza, essa lacuna repercute na formação crítica dos estudantes. “Formar alunos com consciência ambiental requer que eles conheçam e reconheçam alternativas para um futuro sustentável. Isso inclui entender que a biodiversidade é uma aliada da segurança alimentar e que não bastam ações individuais: é preciso cobrar transparência na origem dos alimentos e incentivo governamental às produções alternativas. A ausência desse debate priva o estudante de uma visão crítica e abrangente, essencial para a formação de cidadãos capazes de exigir e construir um futuro sustentável”, conclui.

Ledib

O Laboratório de Epistemologia e Didática da Biologia (Ledib), coordenado pela professora Fernanda da Rocha Brando Fernandez, foi criado em 2012 e está vinculado ao Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP. As atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária estão voltadas à formação interdisciplinar de biólogos e educadores ambientais e à produção de material didático para espaços formais e não formais de ensino. No Ledib são desenvolvidos estudos sobre a natureza do conhecimento biológico e ambiental, interfaces e aplicações em espaços formais e não formais de ensino, além de análises e avaliações de políticas públicas, sendo seus interesses os processos de construção e transposição de saberes fazendo uso das abordagens epistemológicas.


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