A pesquisa investigou o comportamento de três tipos de tecido adiposo. O tecido adiposo branco é o tipo de gordura mais abundante no corpo humano e tem como funções principais o depósito de gordura para reserva energética e a secreção de adipocinas – proteínas de sinalização que modulam processos biológicos no pâncreas, no fígado e no sistema vascular. A depender de estímulos ambientais, o tecido adiposo branco pode adquirir um fenótipo pró-inflamatório: em quadros de obesidade, por exemplo, o tecido libera substâncias que prejudicam a atividade dos órgãos.
“Ele regula a função do fígado, e o fígado, por sua vez, é extremamente importante na esterificação de ácidos graxos e no metabolismo de lipídios”, exemplifica Thales Dourado. O consumo exacerbado de álcool diminui a lipólise (quebra das reservas de gordura para obter energia) e favorece a lipogênese (síntese e o armazenamento de gordura), processo que pode levar à esteatose hepática ou “fígado gorduroso”. Essa alteração pode causar o acúmulo de lipídios em outros tecidos e aumentar a resistência insulínica, um fator de risco para a diabetes tipo 2.
O tecido adiposo marrom, por outro lado, está localizado em regiões específicas do corpo, como atrás do pescoço. Sua principal função é produzir calor (termogênese) a partir da queima de gordura. Pesquisas com camundongos indicam que o etanol pode alterar a capacidade de termorregulação do corpo, pois ele reduz a expressão de genes fundamentais para a termogênese – e, por isso, o usuário se torna mais tolerante ao frio.
Ao longo das últimas décadas, cientistas tentaram manipular esse tecido para aumentar a eficiência da termogênese, o que aumentaria também a queima de gordura. “Ele possui diversas organelas que facilitam a degradação dos lipídios, diferente do branco, que possui apenas uma”, explica Dourado.
Os pesquisadores levantaram a hipótese de que, ao modular o tecido adiposo marrom, seria possível prevenir o desenvolvimento de uma doença hepática. “Alguns estudos mostram que ele tem um efeito protetor em relação aos efeitos nocivos do consumo de etanol”, afirma. “Se a gente conseguir regular a função do tecido adiposo marrom, protegeremos [o organismo] também de doenças cardiovasculares, que são especialmente perigosas em pacientes com sobrepeso.”


