Nova diretriz busca ampliar a prevenção e reforçar cuidados com fatores de risco associados, como diabetes, obesidade e colesterol alto

A leitura de 12/8, antes vista como sinônimo de pressão arterial perfeita, agora é classificada como pré-hipertensão, de acordo com as novas diretrizes elaboradas pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, Nefrologia e Hipertensão. O documento, coordenado pelo professor Luiz Aparecido Bortolotto, da Faculdade de Medicina (FM) da USP e diretor da Unidade de Hipertensão do InCor (Instituto do Coração), segue a tendência de recomendações internacionais divulgadas recentemente na Europa e busca antecipar a atenção médica para grupos de risco.
Segundo Bortolotto, o entendimento de que níveis aparentemente normais já trazem risco não é novo. Estudos mostram que a partir de 115/75 milímetros de mercúrio, cada aumento de 20 pontos na pressão sistólica ou de 10 na diastólica eleva consideravelmente as chances de complicações cardiovasculares. Por isso, valores iguais ou acima de 12/8 já exigem acompanhamento e mudanças de hábito, mesmo que não representem hipertensão instalada. “A ideia é fazer um alerta e começar a prevenção logo”, explica o pesquisador.
Prevenção é o foco
As novas diretrizes indicam que quem está na faixa de pré-hipertensão deve adotar mudanças no estilo de vida, como reduzir o consumo de sal, controlar o peso, praticar atividades físicas e gerenciar o estresse. O uso de medicamentos, no entanto, só é considerado em casos específicos — como em pessoas com pressão acima de 13/8 associada a diabetes ou doenças renais. “Esses pacientes têm risco maior e podem precisar de remédios, caso as medidas não medicamentosas não surtam efeito após três meses”, explica o especialista.

Quando a pressão ultrapassa 14/9, a hipertensão é considerada instalada, exigindo tratamento medicamentoso. Segundo o cardiologista, essa elevação indica que os vasos sanguíneos já estão sofrendo danos, o que aumenta a probabilidade de eventos graves, como infarto e AVC. Por isso, mesmo pessoas sem diagnóstico devem medir a pressão regularmente e ficar atentas a sintomas como dor de cabeça intensa, tontura, falta de ar ou sangramento nasal.
Cuidar da pressão é cuidar do corpo inteiro
Bortolotto ressalta que a hipertensão raramente aparece sozinha. Em grande parte dos casos ela vem acompanhada de obesidade, colesterol alto e glicemia elevada, o que multiplica os riscos. Por isso, a diretriz reforça a importância de observar o paciente como um todo, e não apenas o número no medidor. “Se a gente só baixar a pressão, mas não controlar o colesterol ou o açúcar, o risco continua alto”, afirma.
Para isso, os especialistas recomendam o uso de calculadoras de risco cardiovascular, que ajudam a avaliar o conjunto dos fatores e ajustar metas de tratamento. Entre elas estão a manutenção do peso, o controle rigoroso da glicemia e a redução do colesterol LDL, o chamado “colesterol ruim”.
Atenção primária e controle contínuo
O professor destaca ainda que o SUS é a principal porta de entrada para o acompanhamento da hipertensão. A diretriz brasileira inclui, pela primeira vez, um capítulo dedicado à atuação das unidades básicas de saúde, reforçando o papel do clínico geral na prevenção e no tratamento inicial. Casos mais complexos, que envolvam alterações cardíacas ou renais, podem ser encaminhados a cardiologistas ou nefrologistas.
Mesmo pacientes que já fazem uso de medicamentos podem, em alguns casos, reduzir a dosagem ou suspender o tratamento, desde que sob orientação médica e com mudança comprovada de hábitos. “Há pessoas cuja pressão melhora significativamente com perda de peso, mas isso deve ser acompanhado de perto”, alerta o especialista.
Bortolotto lembra que a hipertensão não controlada é a principal causa de mortes no mundo, direta ou indiretamente. Por isso, o recado é simples: medir a pressão ao menos uma vez por ano e procurar acompanhamento médico regular. “É uma doença silenciosa, mas que pode ser prevenida com atitudes simples. O importante é não esperar os sintomas aparecerem”, conclui.
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