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Pesquisa revela protagonismo das imigrantes japonesas na Amazônia – Jornal da USP


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Foto em preto e branco mostra a proa de um navio ao lado de uma linha férrea. À direita, uma construção de madeira e pessoas circulando; à esquerda, um braço d'água natural com um barco ao fundo

Posted: 28/01/2025

A pesquisa relata que oscilações no mercado da pimenta-do-reino marcaram a trajetória dos imigrantes em Tomé-Açu. O auge da produção dessa especiaria foi entre 1953 e 1954. No entanto, os anos seguintes foram marcados por instabilidade: os preços caíram drasticamente entre 1956 e 1957, recuperaram-se em 1959, voltaram a cair em 1962, subiram em 1965 e despencaram novamente a partir de 1966.

Uma das entrevistadas, Watanabe Etsuko, de 86 anos, relatou como enfrentou as dificuldades desse período de crise. Ela recorria aos moradores locais para vender objetos que havia trazido do Japão, numa tentativa de sustentar sua família. 

A situação se agravou após o marido contrair dívidas e a empresa dele falir. Sem outra fonte de renda,  Etsuko começou a produzir artesanato para trocar por alimentos como arroz. Depois, piorou ainda mais quando o marido começou a beber e em seguida morreu deixando inúmeras dívidas para a família pagar. Para sobreviver e manter a família, ela decidiu abrir um restaurante, mesmo sem qualquer experiência anterior na cozinha.

(…) Se eu não montasse um restaurante, a família inteira teria que cometer suicídio. Eu simplesmente senti que tinha que fazer isso… Mesmo não havendo nenhum preparo. Como eu nunca tinha feito comida antes, todos me diziam: ‘Como é possível fazer negócio desse jeito?(…)”

Sem confiança no sabor dos pratos, Watanabe Etsuko apostou em porções generosas como diferencial. Ainda assim, enfrentou críticas da clientela. Apesar das dificuldades, conseguiu quitar a dívida deixada pelo marido após cerca de nove anos, com resiliência diante das adversidades.

A professora Leiko diz que a pesquisa conduzida por Sayaka Nakanishi Ikeuti vai além do registro histórico: revela a força e a contribuição das mulheres japonesas para o desenvolvimento social, econômico e cultural da Amazônia. Suas histórias, marcadas por trabalho árduo, solidariedade e capacidade de adaptação, mostram que foram elas — e não seus maridos — as verdadeiras pilares da comunidade imigrante de Tomé-Açu. “Ao recuperar essas memórias, o estudo amplia o entendimento sobre a imigração japonesa no Brasil e reconhece o papel feminino na construção de uma herança cultural que segue viva até hoje”, diz.

A dissertação A história de vida das esposas imigrantes japonesas do pós-guerra em Tomé-Açu, PA (1953-2020) foi defendida em setembro de 2025 na FFLCH e deve estar disponível em breve na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP. O trabalho recebeu financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Mais informações: leikomm@usp.br, com Leiko Matsubara Morales (orientadora); jokoalice@gmail.com, com Alice Joko (co-orientadora); e sayaka.6248@gmail.com, com Sayaka Nakanishi Ikeuti843971



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