Por Hernan Chaimovich, Professor Emérito do Instituto de Química da USP e ex-presidente do CNPq
Sem medo de exageros, e em muitos sentidos, a universidade deveria ser um lugar de ideias e debates civilizados. No entanto, os campi transformaram-se numa fábrica de dogmas e numa arena de disputa política em muitos institutos, centros e faculdades. A liberdade de expressar opiniões é uma regra de ouro na academia. Contudo, as opiniões que não são fundamentadas em fatos, ou na razão, não merecem o mesmo respeito que as opiniões verdadeiras e bem fundamentadas. Este princípio também é parte da essência da universidade, bem como da democracia.
Num ambiente universitário livre, as opiniões de todas as cores do espectro político, inclusive dos extremos, são bem-vindas, dentro do decoro acadêmico. Esta ideia exclui a violência e o discurso de ódio. No terreno das ciências, por exemplo, as opiniões dos que negam a importância das vacinas deveriam ser combatidas com opiniões sustentadas por fatos e não com insultos ou violência física.
Esta análise merece ampla discussão, pois, como na sociedade fora do campus, o crescimento da violência pessoal e do Estado é crescente e a contraposição de opiniões gera muito mais confronto que acordo. As universidades públicas no Brasil sofreram violentos ataques vindos do governo Bolsonaro e a sua resiliência foi notável. A USP vem sofrendo ataques violentos por turbas que se dizem conservadoras, mas são, na verdade, brucutianas, como diria Orwell em novilingua. Igualmente brucutianas são as atitudes que impedem que opiniões conservadoras se expressem em todas as unidades da universidade. Alguns espaços físicos e intelectuais na universidade estão partidarizados ou ideologizados ao extremo.
As mudanças recentes da sociedade são gerais e podem ser observadas, sem risco de engano, no mundo todo e, em particular, na América Latina. Essas mudanças são profundas e dizem respeito a muitos fenômenos sociais. Algumas surgiram a partir da ciência transformada em mecanismos tecnológicos de comunicação instantânea. Basta pensar nas redes sociais que há pouco mais de uma década não existiam e impactaram nossa vida de forma explosiva. Sem incluir aqui a revolução da inteligência artificial. Esta área do conhecimento está sendo desenvolvida em empresas privadas e, portanto, hoje as universidades não têm espaço para colocar limites. Isso me espanta.
Outras mudanças sociais surgiram de forma independente das novas tecnologias, mas foram magnificadas graças a elas. Refiro-me a fenômenos disruptivos como a busca individual e eterna da felicidade, os movimentos identitários e a falência do fazer político como entendido pela minha geração. O conjunto dessas mudanças recentes levou à fragmentação da sociedade. Apesar do sonho de alguns poucos, a universidade é parte da sociedade e, portanto, os fenômenos sociais se refletem no próprio tecido interno da instituição.
A universidade não é uma instituição isolada. Ela faz parte de uma sociedade que transfere a ela algumas responsabilidades. Dentre elas, estão a de formação de cidadãos com competências específicas, a criação e a transferência de conhecimento, e a vocação de entender a sociedade e oferecer soluções para serem implementadas. Ainda, dentre as responsabilidades, deve promover valores democráticos. As universidades também devem educar seus estudantes sobre as responsabilidades que acompanham esses direitos, incluindo o dever de respeitar os direitos dos demais. Além disso, devem estar atentas à proteção da liberdade de pesquisa. Não devem permitir que a pressão política ou a censura interfiram na busca do conhecimento e da verdade. As universidades devem estar cientes de seu papel na formação do futuro da sociedade. Devem contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas e engajar-se com a comunidade em geral. As universidades devem estar dispostas a enfrentar os desafios da sociedade e trabalhar na busca de soluções que promovam o bem comum.
Por séculos, a universidade tem assumido o enorme encargo que a sociedade lhe transferiu, adaptando-se às mudanças. Entre todos os males que hoje afligem a sociedade, a falta de espaços de mediação, nos quais se possam discutir com civilidade posições antagônicas, é um problema urgente. Pode a universidade hoje oferecer à sociedade um espaço de mediação de que tão evidentemente necessita? Minha resposta é um enfático não.
Por que isso? Minhas experiências recentes, a autocensura de alunos e professores e a violência crescente exigem uma autocrítica aguda e urgente. A mera observação demonstra a inexistência de espaços de mediação dentro da universidade. Se desejamos criá-los para tentar dialogar com algum dos males que assolam a sociedade, temos primeiro que criar estes espaços dentro de nossas instituições.
Como otimista e realista ao mesmo tempo, tendo participado da criação desses espaços há algumas décadas, creio que esse desafio é possível, urgente e alcançável.
(Este texto é parte de uma conferência ministrada no seminário “Libertad, ética y integridad en la Academia y la Investigación”, Universidad de Chile, em 24 de setembro de 2025)
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