Em cartaz até 9 de novembro, obra da Cia. Pássaro de Presságio reúne teatro físico, dança contemporânea e performance
Por Manuela Trafane*

É impossível controlar os rumos da vida, por mais que o ser humano se esforce para isso. É o que a peça O Mar Não Me Obedece, em cartaz no Teatro da USP (Tusp), no Centro MariAntonia, tenta evidenciar. “Parece que tudo o que queremos é alguma forma de confirmação de que ficará tudo bem com ele e com as pessoas que ama”, afirma a performer Natalia Karam, que atua no espetáculo. Produzida pela Cia. Pássaro de Presságio, a peça – que estreou no dia 16 passado – reúne teatro físico, dança contemporânea e performance. Ela será exibida até 9 de novembro, de quinta-feira a domingo.
A performance começa com Karam e outro dançarino, Luiz Ragusa, parados no palco vestindo figurinos feitos com fractais — formas geométricas que se repetem em tamanhos cada vez menores. No início, eles só mexem os olhos, mas logo começam a se movimentar pelo palco, desequilibrados. Os performers caem e rolam pelo chão até se encontrarem. Assim começa uma coreografia em que Karam é movimentada como uma boneca. A partir disso, seguem-se momentos de descanso, de textos declamados e danças, contendo interação entre as personagens e dinâmicas individuais. O chão é pintado com formatos espirais em giz, que começam a se desfazer conforme Karam e Ragusa se arrastam.
As quedas no palco são arriscadas para a dupla, o que captura a atenção do espectador, sempre tenso com o risco dos movimentos. Ao mesmo tempo que envolve quem vê, os dançarinos também ficam presos na atuação por estar vivenciando o perigo, não só o interpretando.
Os movimentos ensaiados pelos dançarinos têm origens diversas. “Tomamos como base técnica a dança contemporânea, mas também o aiquidô, o judô e o jiu-jítsu”, explica Leonardo Villa, diretor da peça. “Também adotamos os princípios da acrobacia e do teatro físico, que é a capacidade de significar um movimento abstrato num contexto, geralmente secreto. Esse mistério permite ao público projetar sua subjetividade às cenas”, continua Villa.
O método que engloba o espectador na obra chama-se narrativa não aristotélica, uma dramaturgia aberta, sem história linear, permitindo ao público que interprete a peça, explica Karam. A obra convida o espectador a ter uma experiência própria sobre o desejo de ter controle sobre a vida, informa a performer. “Se é uma pessoa mais ansiosa, ela interpreta a performance como [se estivesse] falando sobre ansiedade. Então, depende da maneira como cada um se relaciona com o estar vivo, até porque todo ser humano quer ter controle de sua própria realidade”, acrescenta Karam.

Estado de incerteza
A parceria entre Karam e Villa começou em 2020, quando eles se conhecerem na Accademia de Teatro Dimitri, na Suíça. Ela fazia uma produção em teatro físico e ele, mestrado. Após concluírem os estudos, foram juntos para o México, país de origem do diretor, e lá criaram a Cia. Pássaro de Presságio. Desenvolveram pesquisas sobre o risco no teatro físico, trabalhos cênicos e audiovisuais. Aos poucos, outras pessoas foram se envolvendo nas produções e, entre os trabalhos, nasceu O Mar Não Me Obedece. “Como diretor, eu não estava buscando abordar o descontrole. Foi algo que aconteceu. Trabalhamos muito intuitivamente”, diz Villa.

Karam lembra que o espetáculo foi concebido num momento em que a humanidade se sentia sem controle: a época da pandemia de covid-19. “Naquele momento, a vida deu um giro de 360 graus gigantesco”, destaca. “A sociedade estava num estado de incerteza sobre o futuro, o que impedia um planejamento prévio da vida, algo que a performer descreve como “o luto de não poder fazer”. No cotidiano, diz, o ser humano não quer abdicar desse controle e se esforça para sustentar o domínio, mas não consegue. Para representar isso, as personagens em cena tentam se equilibrar, mas sempre caem. “Acontece muito na peça. Fisicamente estamos quase conseguindo um equilíbrio, e o perdemos de novo. Chega um momento em que, pelo menos por um tempo, eu aceito isso e não tento agarrar esse controle”, conta.
Parte dessa aceitação se encontra no princípio budista de impermanência, a ideia de que tudo muda, diferente do racionalismo europeu, que tenta monitorar tudo, como explica Villa. “Queremos chamar atenção para essa separação entre o corpo e a mente, a natureza e a cultura. Acho que esse racionalismo cartesiano fez muito mal ao ser humano contemporâneo. É ele que está destruindo o planeta ao gerar grandes males ecológicos. É ele que está causando doenças mentais e impulsionando a desigualdade”, observa o diretor. O nome da peça aponta para a impossibilidade de controle, que se assemelha ao movimento do mar. “Tem um texto no espetáculo que conta a história de um rei que quer fazer uma viagem, mas a corrente marinha não o permitia partir. No final ele tenta castigar o mar por isso”, conta Karam.
A peça O Mar Não Me Obedece fica em cartaz até 9 de novembro, às quintas, sextas e sábados, às 20 horas, e aos domingos, às 19 horas, no Teatro da USP (Tusp), no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. Os ingressos devem ser retirados no local a partir de uma hora antes da sessão. Mais informações estão disponíveis no site do Tusp.
* Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro


