Atravessar o rio sentindo as pedras.
— Provérbio chinês pronunciado por Deng Xiaoping, em 1978, durante o período da reforma econômica na China
A sabedoria milenar de muitos povos que compõem o que chamamos de Sul Global ensina que os esforços para alcançar o bem comum, entre suas nações tão díspares em termos sociais, econômicos e históricos, podem superar as suas diferenças e apontar para soluções conjuntas, contribuindo para reduzir os problemas gerados pelo desenvolvimento tardio.
Em 23 de setembro, morreu, num acidente trágico no Pantanal, Kongjian Yu, professor da Universidade de Pequim, um dos maiores arquitetos da atualidade que criou o conceito de “cidades esponjas”, planejadas para absorver grandes volumes de água.
Kongjian Yu foi parte de uma geração de intelectuais chineses que interagem com seus pares pelo mundo afora, tentando resolver questões que afetam a qualidade de vida das pessoas, o meio ambiente e o próprio desenvolvimento dessas nações.
Quando se fala em parcerias estratégicas entre universidades e pesquisadores, não se pode esquecer do quanto a comunidade científica russa e a brasileira têm se relacionado ao longo dos anos. Elas vêm fomentando pesquisas sobre altas energias, medicina nuclear e nos mais variados campos do saber, da literatura e da cultura.
Com a África do Sul, a USP mantém diversos convênios, inclusive em áreas como antropologia, sociologia e ciência política, em pesquisas sobre os impactos da covid-19 nas populações dos dois países e sobre o desenvolvimento de estratégias de combate à desigualdade.
Ao longo dessas últimas décadas, a Universidade firmou parcerias com a Índia para pesquisas na agricultura e outras que resultaram no melhoramento genético de animais de corte.
As indústrias farmacêuticas dos dois países mantêm intensa colaboração no desenvolvimento de fármacos; já no campo das altas tecnologias, ainda há um caminho a percorrer, com perspectivas de benefícios mútuos.
No combate às mudanças climáticas e às desigualdades sociais, nos desafios de adoção de energias limpas e de mitigação da pobreza, os esforços dessas nações são imensos.
Somente com a colaboração profícua entre as universidades e os centros de pesquisa do Sul Global será possível atravessar o rio sentindo antes as pedras do leito e tomando o pulso da medida do desafio.
Quando o arquiteto Kongijan Yu esteve em São Paulo, para a Bienal de Arquitetura, e visitou com seus colegas da USP os lugares da cidade que são fortemente impactados pelas mudanças climáticas severas e pelo histórico de descasos, o seu olhar não era somente do intelectual visitante, mas de alguém que já se fazia presente e via para além do problema que estava colocado, ele nos apontava soluções para além do concreto. Sua história de vida, de camponês ao grande arquiteto que se tornou, suas reflexões aguçadas e os ensinamentos que nos deixou retratam a esperança de dias melhores para nossos povos.
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