Os investimentos em mobilidade, por exemplo, privilegiaram a duplicação de avenidas e rodovias, deixando o mínimo para o modal hidroviário, não fosse Belém uma cidade que mantém uma relação histórica com as águas
A professora Raquel Rolnik fala da preparação da cidade de Belém para receber a COP30. Os investimentos aplicados na cidade foram da ordem de R$ 7 bilhões, dos quais mais de R$ 2 bilhões foram para a área de mobilidade. O problema é que a colunista vê aí a repetição de um mesmo modelo, ou seja, mais do mesmo, de vez que esse investimento em mobilidade privilegiou a duplicação de avenidas, rodovias, viadutos. Houve, é certo, uma melhoria no sistema de transporte por ônibus, “mas continua sendo transporte sobre pneus e isso numa metrópole fluvial como Belém, que tem 42 ilhas, uma relação histórica com as águas, e o modal hidroviário, por exemplo, apesar do potencial, recebeu investimentos absolutamente mínimos. O mesmo a gente pode dizer em relação à maior parte dos investimentos, inclusive em saneamento, em drenagem, incorporando muito pouco uma nova lógica, que é exatamente aquilo que será intensamente discutido na própria conferência”.
De acordo com a professora, não se pode atribuir a culpa por isso a Belém. “Se a gente for pensar em todos os megaeventos, é mais ou menos isso. Mais do mesmo. Um modelo hegemônico aproveita o megaevento, que vai ter muito dinheiro, vai ter possibilidade de passar por cima – o que a gente chama da cidade de exceção – de muitos regramentos para poder fazer logo, e fazer muito, e, ao fazer isso, se aproveita para pegar coisas que já estavam estabelecidas, estabelecidas nos circuitos governamentais, enfim, estabelecidas na cidade.” Raquel Rolnik deixa claro, porém, que tudo isso não é um problema só de governo. “Se, no interior do Estado, os projetos e as concepções têm uma enorme inércia, para conseguir se transformar como modelo de intervenção a gente pensa que é todo o sistema de transformação da infraestrutura. Então toda a área técnica, todas as empresas de engenharia, tudo que já está pronto para poder intervir, está pronto para fazer exatamente o que sempre fez – e transformar isso na direção de um outro paradigma é uma tarefa hercúlea que, infelizmente, não foi feito no caso da COP30, em Belém.”
Cidade para Todos
A coluna Cidade para Todos, com a professora Raquel Rolnik, vai ao ar quinzenalmente quinta-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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