Inédita no Brasil, obra do dramaturgo escocês Eric Coble está em cartaz até 9 de novembro
Por *Clara Hanek

Com 70 minutos de duração e dois personagens no elenco, a peça Coyote faz críticas à devastação ambiental e ao individualismo contemporâneo a partir de situações inusitadas ocorridas nas vidas de Tony (Rodrigo Pandolfo) e Melinda (Karen Coelho). Escrita pelo dramaturgo escocês Eric Coble e inédita no Brasil, a obra está em cartaz até 9 de novembro no Teatro da USP (Tusp), na Cidade Universitária. A entrada é grátis, mediante reserva de ingressos através da plataforma Sympla.
O início da peça se dá com dois monólogos intercalados, dirigidos diretamente à plateia, que funcionam como um prólogo, em que a rotina de Tony e Melinda é explicada. Desempregado, Tony passa o dia todo no seu apartamento, numa busca on-line por trabalho. Já Melinda trabalha no turno da noite de uma fábrica, entediada e sozinha. Eles moram no mesmo prédio, mas não se conhecem, característica comum da vizinhança numa metrópole. “Cada um dos personagens está no seu próprio mundo”, destaca Karen Coelho, que também assina a direção do espetáculo, ao lado de Rodrigo Pandolfo.
Melinda e Tony se conhecem após a aparição de um coiote no prédio, durante a noite. O animal continuou fazendo visitas inusitadas, o que despertou a amizade dos vizinhos, obcecados por esperá-lo, e transformou suas rotinas. A partir desse momento, coisas absurdas começam a acontecer, o que faz o espectador duvidar se o ocorrido seria a realidade ou um sonho delirante dos personagens. “É nesse sentido que a peça tem traços de surrealismo e de realismo fantástico”, explica a atriz.

“Ela tem uma estrutura de contação de história, uma característica épica. A obra flerta com a fábula, em que os animais também têm características humanas. É como uma fábula contemporânea.” O tom de humor acompanha a peça, seja nas contradições entre os personagens com personalidades opostas, seja nas próprias situações engraçadas.
O texto foi traduzido na íntegra por Diego Teza, tradutor e curador de dramaturgia, amigo de Karen Coelho e de Rodrigo Pandolfo. Durante os ensaios foram feitas adaptações, como a inversão de cenas. Apesar de a peça ser originalmente de 2012, ela permanece atual, diz Karen. A atriz aponta que, após a primeira leitura, ela e Pandolfo tiveram a sensação de que se tratava de uma obra recente, pós-pandêmica, uma vez que os fez lembrar de relatos sobre animais selvagens invadindo cidades durante o isolamento social provocado pela pandemia de covid-19.
Karen destaca algumas conexões feitas pela produção. “Por exemplo, o Tony está desempregado há cinco anos, o que nos leva a crer que ele está falando sobre a crise financeira de 2008, nos Estados Unidos, em que houve demissões em massa.” Há também forte relação com a sociedade individualista na pós-modernidade, em especial com os jovens. “É bastante atual, tem muita conexão com a vida hoje, com a questão da crise ambiental e da relação com a natureza.”
Qualquer animal selvagem dos Estados Unidos poderia ter sido colocado na peça, mas a escolha pelo coiote carrega um simbolismo, porque, em determinadas regiões daquele país, ele é considerado um animal mitológico. O coiote faz parte do folclore nativo, está associado à fluidez e pode representar a transformação – como a observada na rotina dos personagens da peça – e a capacidade de adaptação. “A aparição desse animal faz os personagens pensarem que a ordem das coisas está muito equivocada. O coiote estava lá antes, ele tem primazia.” A questão da peça, que começa com “que direito tem o animal de estar na minha cidade?”, se torna “que direito tem a minha cidade de estar na vida dele?”.
A peça é um trabalho de amizade. Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo são amigos há mais de 25 anos, desde a adolescência, na escola de teatro. Na época em que procuravam um projeto para realizar juntos, Diego Teza, amigo da dupla, apresentou a eles o texto My barking dog, de Eric Coble, traduzido por ele para Coyote.
Karen lembra que ela e Pandolfo se encantaram com o texto logo na primeira leitura. A partir daí, estruturaram o projeto e decidiram assumir a direção também. “Nós convidamos o encenador Jefferson Miranda, que é um grande diretor”, diz a atriz. Miranda fez a interlocução artística, trabalhando com os atores nos ensaios e na preparação.
Sobre a recepção do público, Coelho comenta: “É um convite à imaginação, a sonhar novas formas de vida, uma vida mais leve e em harmonia com a natureza. Esperamos que as pessoas saiam impactadas por essas questões e repensem a forma de estar neste mundo”.
A peça Coyote está em cartaz até 9 de novembro, com sessões de quarta-feira a sábado, às 20 horas, e domingo, às 18 horas, no Teatro da USP (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo). O ingresso é grátis, mas deve ser reservado através da plataforma Sympla
*Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro


