Em 2023, a Missão Diplomática do Brasil junto à FAO consultou pesquisadores brasileiros sobre a metodologia e os resultados apresentados nos relatórios SOFA 2023 e 2024. Este último publicado já incorporando ajustes metodológicos e estudos de caso para alguns países, inclusive o Brasil. A partir do diálogo gerado, alguns participantes constituíram grupo de pesquisa interinstitucional, para analisar de forma crítica e construtiva a metodologia do SOFA, em especial, sua aplicação para o Brasil.
Desde abril de 2025, este grupo vem se reunindo, culminado na realização do workshop Hidden Costs and Food Prices: Global Methods, Local Meanings – Debating SOFA/FAO Report in the Brazilian Context, organizado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. Contou com a participação de pesquisadores da UFRRJ, UERJ, USP, de representantes da Embrapa, dos Ministérios da Agricultura e Pecuária, e do Desenvolvimento e Assistência Social e do Combate à Fome, e teve como palestrante o David Laborde, Diretor da Divisão de Economia Agroalimentar e Política da FAO.
A motivação principal do grupo foi ampliar o engajamento da comunidade científica na discussão dos custos e benefícios ocultos e dos desafios para mensuração nos moldes propostos pelo SOFA. O cerne dessa análise é a metodologia TCA, que quantifica os impactos que não se refletem nos preços de mercado – os “custos ocultos” e visa orientar políticas públicas para agir sobre os mercados e reduzir os impactos desses custos.
No SOFA 2024, com dados para 156 países, esses custos são estimados em US$12 trilhões anuais e dividem-se em três categorias: os de Saúde, associados à perda de produtividade decorrente de padrões alimentares pouco saudáveis que causam Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNTs); os Ambientais, relacionados a emissões de Gases de Efeito Estufa e de nitrogênio, mudanças no uso da terra e retiradas de água azul; e os Sociais, devidos à subalimentação (ingestão energética insuficiente) e à pobreza entre os trabalhadores dos sistemas agroalimentares. Para o Brasil, os custos ocultos foram estimados em US$ 426,61 bilhões, sendo a maior parcela atribuída aos custos ambientais, seguidos dos de saúde e os sociais.
O objetivo do evento foi refletir sobre a aplicabilidade dessas abordagens à luz do contexto brasileiro, categorizado pelo SOFA 2024 como um “Sistema em Formalização”.
Foram debatidos os desafios metodológicos de adaptar a abordagem TCA ao nível nacional, apontando a necessidade de usar fontes de dados e indicadores que reflitam a realidade do país. O grupo questionou se a categorização do Brasil em uma única tipologia é útil para a orientação de políticas, dada a diversidade de biomas e sistemas agroalimentares que coexistem no país. Foi salientado que os impactos positivos (hidden benefits) dos sistemas agroalimentares brasileiros não tiveram o destaque necessário no estudo.
Como desdobramento do evento, é proposta uma agenda de pesquisa em duas etapas. Intitulada The Transition of Agri-Food Systems in Brazil and the True Cost, pretende-se refinar a metodologia TCA para o contexto nacional e gerar elementos para orientar políticas públicas eficazes. Em destaque na primeira etapa:
i) A coordenação com autoridades públicas para unificar dados nacionais, visando a segurança, organização, transparência e rastreabilidade da informação;
ii) A incorporação do sobrepeso/obesidade e das deficiências nutricionais nos custos de saúde, e do efeito positivo do sequestro de carbono no solo pela adoção de práticas conservacionistas, agroecológicas e dos sistemas integrados de produção, nos custos ambientais;
iii) A análise de ferramentas públicas eficazes para reduzir custos ocultos, a exemplo, no contexto brasileiro, do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que prevê compras mínimas da agricultura familiar, e do programa de recuperação de áreas de pastagens degradadas, que pode liberar terras e reduzir emissões.
Destacou-se a importância do engajamento de stakeholders para assegurar uma participação equilibrada de representantes da academia, do governo, do setor privado e da sociedade civil, de modo a evitar vieses no diagnóstico e na orientação de políticas públicas.
A reunião de pesquisadores de diversas áreas e representantes do governo no evento do dia 7 de outubro já constitui um resultado concreto e positivo da iniciativa TCA, que deverá ser fortalecida na próxima etapa do projeto, com a ampliação de participantes.
Esse evento reafirmou a importância de posicionar o Brasil não apenas como um estudo de caso, mas como participante ativo e contribuidor para o debate metodológico internacional sobre a iniciativa TCA global da FAO. Ao refinar dados e integrar as perspectivas social, de saúde e ambiental, esperamos demonstrar que medir o custo verdadeiro dos alimentos também significa reconhecer o seu verdadeiro valor para a sociedade.
* Eliseu Verly Junior, professor Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, professor Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP
* Membros do INCT Combate à Fome: estratégias e políticas públicas para a realização do direito humano à alimentação adequada – Abordagem transdisciplinar de sistemas alimentares com apoio de Inteligência Artificial
E-mail INCT – inctcombatefome@usp.br
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