O perigo mora em um ou dois treinos mal planejados e não apenas no volume total da semana, diz Bruno Bedo ao citar um estudo internacional que acompanhou mais de 5 mil corredores
O professor Bruno Bedo trata em sua coluna de hoje (24) do popular esporte da corrida de rua, mais especificamente respondendo à seguinte pergunta: quanto que é demais? Ele menciona um estudo recém-publicado num jornal britânico de medicina esportiva. Depois de acompanhar mais de 5.200 corredores por 18 meses, pesquisadores de universidades da Dinamarca, Suécia e Austrália analisaram centenas de milhares de dados de sessões de treino registrados nos relógios e buscaram identificar quais aumentos na distância realmente elevam o risco de lesões. Os resultados foram bem claros: “O perigo não está apenas no volume semanal, mas também num aumento brusco dentro das sessões de treino. Quando os corredores aumentavam em mais de 10% a distância em relação à sua corrida mais longa no mês anterior, o risco de lesões por sobrecarga subia consideravelmente. Um aumento de 10% a 30% na distância elevou o risco em 64%; em um aumento entre 30% a 100%, o risco aumentou em 52%. Quando o corredor dobrava a distância ainda de uma sessão para outra, o risco mais que dobrava. Essas lesões eram em sua maioria não traumáticas, ligadas ao excesso de esforço nos músculos, tendões e articulações. Por outro lado, a variação semanal total, ou seja, comparar a quilometragem de uma semana com as anteriores, não mostrou uma relação significativa com risco de lesões”.
“Na prática, o artigo traz uma mensagem que o perigo mora em talvez um ou dois treinos mal planejados e não apenas no volume total da semana”, prossegue Bedo. “A famosa regra dos 10% citada por tantos blogs, planilhas e influenciadores pode não ser tão segura quanto a gente imaginava. Mesmo aumentos pequenos de 1% a 10% já mostram tendência de maior risco.
Em outras palavras, o ideal é progredir com mais cautela, respeitando a recuperação e ouvindo o seu corpo. Se a sua corrida mais longa no último mês foi de 10 km, sair de 12 km para 13 km, de uma vez só, pode não ser tão eficaz do ponto de vista que pode causar uma lesão. Especialmente se o corpo ainda não se adaptou a essa carga anterior.”
Fica aí, portanto, a dica para treinadores e profissionais de esporte, profissionais de educação física, que “podem se beneficiar desse novo paradigma, focando não apenas no volume total da semana, mas no controle dessas variações dentro de uma sessão individual. O estudo sugere uma mudança de paradigma. O risco de lesão em corredores não depende apenas da soma dos quilômetros por semana, mas, principalmente, dos picos repentinos em uma única corrida. Monitorar essas oscilações pode ser uma estratégia mais eficaz para prevenir lesões e garantir uma progressão segura do treinamento. Mais do que correr longe ou rápido é preciso correr com constância e inteligência. Afinal, na corrida, o exagero em um único dia pode custar semanas paradas; por isso, a importância de você ter um profissional de educação física capacitado te auxiliando”, finaliza.
Ciência e Esporte
A coluna Ciência e Esporte, com o professor Bruno Bedo, vai ao ar toda sexta-feira às 10h00, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.
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