Uma ideia a que a maioria dos grupos corais recorreu nesse período foi a de produzir um vídeo do coro cantando uma música escolhida. Cada cantor gravava o áudio cantando e depois a sua imagem. Os áudios de todos os cantores eram então mixados, recebendo tratamento de estúdio, e as imagens eram trabalhadas de modo a formarem um mosaico com os rostos de todos os participantes.
Essa ideia, porém, não me cativava porque eu sentia que o resultado desse trabalho virtual não correspondia à realidade do coro. Assim, ao invés de adotar essa prática, resolvi propor aos grupos que dirijo, Zimana e Jupará, um exercício de criação coletiva. Um desafio: “Vamos compor a música do Zimana!” “Vamos compor a música do Jupará!”.
Descrevo aqui o processo realizado com o grupo Zimana por ter representado um desafio maior, uma vez que muitos integrantes deste grupo não tinham conhecimentos musicais.
Foi um trabalho extenso, que ocupou praticamente um ano, mas muito prazeroso e enriquecedor, do qual todos participaram. A primeira etapa foi escrever a letra da música. Sobre o que vamos falar? Sobre o que significa cantar em coro? Sobre o aspecto social do grupo? Todas as sugestões eram apresentadas e votadas (às vezes, havendo muitas sugestões, a votação era em dois turnos). O resultado foi a poesia intitulada Cantar é o nosso destino:
Você consegue explicar por que é preciso cantar?
Que harmonia tem no ar, capaz de te emocionar?
Cantando reaprendemos a sentir o que não vemos
E que por vezes esquecemos que amor é tudo que temos.
Alegres como crianças,
Fazemos novos amigos e encantamos os antigos.
Respeitando as diferenças,
Unidos num só objetivo: cantar é o nosso motivo.
De Euterpe descendentes, atravessamos continentes,
Contando cada segundo do seu tempo fecundo.
Nossas almas bem-dispostas encontram na tua respostas,
Reunindo o múltiplo som nalgum equilibrado tom.
Cantar é o nosso destino, ecoamos como um sino,
Nascidos de um mesmo sol, lá brilhamos no arrebol.
Dos sons que a nossa terra emana no calor da voz humana,
Esta voz que aqui exclama é a dos irmãos Zimana!
Depois de definido o texto, veio a parte musical. Nessa etapa eu fui orientando os cantores quanto à estrutura da música: macroforma e microforma. A música deveria ser organizada em seções, constituindo assim a macroforma. Por exemplo, podíamos escolher uma estrofe ou alguns versos para servirem como refrão. O resultado seria então um rondó: A – R – B – R – C, onde R é o refrão e A, B e C são as outras estrofes, com música diferente daquela do refrão. Discutimos muito sobre as diversas possibilidades, e a forma final escolhida foi: A – B – C – B – A, uma forma que chamamos de cíclica.
Passamos então à microforma, isto é, a definição de temas e ideias melódicas e harmônicas, bem como a consideração das texturas para cada seção da música. A escolha das melodias contou com a participação maciça dos cantores, porque os que tinham conhecimentos musicais escreveram suas sugestões e os que não tinham apenas cantaram suas ideias melódicas. Uma vez escolhida uma melodia ou tema, tivemos diferentes propostas para a sua harmonização e a proposta final era escolhida pelo voto.
Por fim, definimos as texturas: uma seção homofônica, com todos cantando a mesma letra no mesmo ritmo, ou um naipe cantando o tema e os outros naipes fazendo um acompanhamento. Escolhemos também a natureza dessa acompanhamento: mais denso, mais rarefeito, mais rítmico, mais tranquilo, com sons longos sustentados.
Um momento especial foi quando os cantores sugeriram que poderia haver uma seção polifônica. Como eles não tinham conhecimento de contraponto, a técnica necessária para a escrita polifônica, eu me propus a escrever essa seção como minha contribuição. Pedi a eles sugestões de ideias melódicas e as utilizei então para criar a seção polifônica que eles queriam.
Dizem que há males que vêm para bem, e de fato o mal da covid nos proporcionou esta experiência tão gratificante. O dia em que cantamos esta música ao vivo, em 2022, foi um dos momentos mais emocionantes da história do Zimana.
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