Denise Duarte explica como o desenho das construções, a ventilação natural e o uso de materiais locais ajudam a enfrentar temperaturas acima dos 40 °C em regiões áridas da África

Em Nouna, um pequeno distrito rural de Burkina Faso, o calor ultrapassa facilmente os 40 °C. As casas de barro, sem eletricidade nem água encanada, abrigam famílias que vivem da agricultura de subsistência — e enfrentam um dos maiores desafios da mudança climática: o calor extremo.
A professora Denise Duarte, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, estuda soluções que dependem mais do território do que de tecnologia. “O que se faz em um lugar como esse é tirar o máximo proveito do clima local — entender os dados, os materiais disponíveis e a cultura da região”, afirma.
O legado de Francis Kéré

Denise cita o trabalho do arquiteto Francis Kéré, natural de Burkina Faso e vencedor do Prêmio Pritzker de Arquitetura, como exemplo de como a construção pode se adaptar ao ambiente. “Eu conheci a obra dele em uma palestra na Alemanha, e lembro que ele começou a fala no escuro, dizendo: ‘Eu vim de um lugar assim’, um lugar sem energia elétrica. Foi muito comovente”, conta.
Para ela, o mérito de Kéré está em unir técnicas locais, sombra e ventilação natural. “Ele desenha coberturas muito generosas, com beirais largos que criam sombra ao redor dos prédios. As venezianas controlam a luz e o ar, e podem ser operadas por professores e alunos. É um trabalho de desenho de arquitetura fenomenal, totalmente ligado ao lugar.”
A sombra como primeira barreira
Em locais áridos e de latitude baixa, Denise afirma que a sombra é o primeiro passo para resistir ao calor. “A maior parte do ganho de calor para o ser humano vem da radiação solar direta. Se eu não corto essa radiação, tudo o que eu fizer terá um efeito menor”, explica.
As estratégias variam conforme o clima: em regiões secas, paredes mais espessas ajudam a manter o interior fresco; já em zonas úmidas, a ventilação constante é essencial. “Não há uma fórmula única. O jeito de tratar o calor no Mato Grosso é diferente do semiárido nordestino ou da Amazônia. Cada lugar exige uma leitura climática própria”, diz.
O calor como “assassino silencioso”
O aumento das temperaturas não é apenas um problema de conforto. “O calor mata — e mata mais do que deslizamentos de terra no Brasil”, alerta Denise, citando estudos recentes sobre o tema. “Mas muitas dessas mortes não são reconhecidas porque aparecem associadas a infarto, AVC ou problemas cardiorrespiratórios.”
Ela lembra que o secretário-geral da ONU, António Guterres, chamou o fenômeno de “assassino silencioso” (silent killer). Na Europa, a mortalidade por ondas de calor passou a ser monitorada com mais rigor depois da tragédia de 2003, e pesquisas latino-americanas seguem o mesmo caminho.
Entre as medidas de baixo custo, Denise destaca os telhados frios — coberturas pintadas com cores claras que refletem a radiação solar. “É uma técnica usada em comunidades da Índia e que ajuda a reduzir a temperatura. Não resolve tudo, mas é barata e eficaz”, afirma. A professora lembra, no entanto, que o efeito das tintas se perde com o tempo e precisa ser renovado periodicamente.
Quando o verde e a água fazem falta
Em grandes cidades, a presença de vegetação e de água — a chamada infraestrutura verde e azul — tem se mostrado eficaz contra o calor. “Essas soluções reduzem a temperatura, melhoram a drenagem e aumentam a qualidade de vida”, observa.
Mas, em regiões áridas, essa alternativa é limitada. “Em Burkina Faso, onde há escassez de água e vegetação semelhante à do Cerrado, essa estratégia é quase inviável. Por isso, tudo começa entendendo o lugar — o clima, a vegetação, os recursos disponíveis — para traçar as melhores estratégias possíveis”, explica Denise.
Para a professora da USP, o papel da arquitetura nas mudanças climáticas é claro: usar menos energia e aprender com o território. “O desenho de um edifício é também o desenho de uma forma de viver”, resume. E, em lugares quentes e pobres do planeta, essa sabedoria pode significar não apenas conforto, mas sobrevivência.
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