Impera a desumanização nos mercados do nosso material mais essencial, nossos corpos
Quem viveu os primórdios ainda universitários da internet sabe que o free ware, o software livre e modelos semelhantes eram a regra. Pegue, não pague. Era o princípio fundamental incorporado como um verdadeiro mantra por alguns gurus. Três décadas depois, o seu princípio mais notório e evidente é o pague, não pegue. Tudo é cada vez mais digital. Você não pega com a mão ou com as digitais humanas. Mas paga muito, cada vez mais caro por tudo o que pega, no sentido de que é trend, virou moda, é influência no consumo de massa orientado por algoritmos opacos e muitas vezes abertamente criminosos.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou agora um dos mais importantes relatórios sobre as relações entre vida conectada e a solidão, o isolamento e o desamparo. Pesquisas em vários países confirmam o fato de que a transformação digital está desumanizando os corpos e, claro, as mentes que neles habitam, criando uma nova pandemia, cujo principal sintoma é a degradação das relações sociais escravizadas pelas conexões digitais. Falta ao CDE alertar que uma relação virtuosa e progressista entre conectividade e sociabilidade é impossível sob o capitalismo. Entre as inúmeras tragédias que decorrem da desumanização, a começar das pragas do racismo e do fundamentalismo, está a tragédia da saúde individual coletiva e pública. A culpa é do governo? Das faculdades de medicina a granel? Da inexorabilidade e inviabilidade de planos de saúde frente a cataclismos como a covid ou a pandemia de transtornos mentais, a obesidade ou diabetes?
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