sábado, maio 16, 2026
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Violência letal que atinge juventude negra expõe as desigualdades no Brasil – Jornal da USP


Especialista aponta o racismo estrutural e a precarização do trabalho como fatores que ampliam a violência contra jovens negros

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Quatro homens negros de costas observam uma paisagem urbana com prédios e ao fundo. A imagem é em preto e branco. Eles usam camisetas simples e têm diferentes estilos de cabelo crespo e trançado.
Homens negros de 15 a 29 anos concentram a maior parte das mortes por causas externas entre jovens – Foto: Freepik
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No Brasil a violência que resulta em morte atinge de forma desigual a juventude, sobretudo negra. Um levantamento da Fiocruz, realizado entre 2022 e 2023 e divulgado em agosto deste ano, revela que jovens negros, principalmente homens de 15 a 29 anos, concentram 73% das mortes por causas externas, aquelas não provocadas por doenças ou condições naturais, como agressões com arma de fogo e acidentes. Nessa faixa etária, o risco de morte é 22% maior em comparação aos demais jovens.

Homem de pele parda e com barba rala, usa óculos de grau de armação preta e camiseta branca. Ele está posando diante de uma parede bege.
Cleiton Corrêa Tereza – Foto: Arquivo pessoal

Segundo o professor Cleiton Corrêa Tereza, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, o racismo estrutural é central para entender esse cenário. “Quando um jovem negro é vítima de violência, existiu uma trajetória e uma série de fatores que perpassaram o tecido social e chegaram até aquele momento.” Segundo ele, “olhar para essas questões é fundamental para que possamos entender melhor a nossa realidade e entender o contexto brasileiro.”

Segundo o estudo, a agressão física é a forma de violência mais comum entre jovens (47%), seguida da psicológica/moral (15,6%) e da sexual (7,2%). As principais causas de mortes violentas são as agressões com armas de fogo, tanto para homens quanto para mulheres, seguida de acidentes com motocicletas e ações da polícia. Segundo o especialista, esses três fatores colocam a juventude negra numa situação de maior dificuldade e vulnerabilidade. “Podemos perceber como há uma repetição de um ciclo de exclusão, exploração e violência persistente.”

Ele também destaca o mundo do trabalho como fator de risco. “A fragilização do mundo do trabalho, que muitas vezes é colocada como flexibilidade e janela de oportunidades, aumenta a exploração e coloca as pessoas em risco. Uma parte da juventude, até por outras opções, como dificuldade de acessar e de seguir com seus estudos, tem trabalhado como entregadores. E essa função se tornou muito importante, mas ela é arriscada.”

O professor alerta que “diariamente, especialmente nas grandes cidades, jovens arriscam suas vidas para poder entregar produtos da forma mais breve possível, para tentar obter maiores rendimentos, sem a devida responsabilização das empresas que lucram com isso e colocam as suas vidas em risco”. Ele conclui que mesmo quando não há mortes, acidentes podem causar mutilações e limitações que impactam profundamente as famílias.

Diante disso, milhares de famílias e comunidades são afetadas. “Esses cenários deixam consequências históricas de fragilização, ausência, medo e perspectiva”, afirma o especialista. “Eu, enquanto professor, trabalhando em escolas públicas durante muito tempo, pude observar o cenário com estudantes que foram afetados pela violência, que perderam algum familiar. Esses jovens se encontravam com muitas dificuldades, tanto imediatas quanto a longo prazo.”

Prevenção e políticas públicas

Diante da naturalização da violência contra jovens, especialmente os negros, o professor destaca que políticas públicas podem ser mais eficazes. “Nós temos muitos exemplos de políticas públicas louváveis no Brasil. Entretanto, há muito que ser melhorado, seja na questão do acesso e permanência à educação de qualidade, mas também do atendimento em relação à saúde e políticas de cultura e lazer.” 

Ele reforça que o acolhimento e promoção do pertencimento da juventude são essenciais. “Isso passa pela construção e pela transformação de uma sociedade mais justa que tem que considerar a centralidade de questões políticas e econômicas. Problemas estruturais só podem ser alterados por meio da modificação das estruturas que geram essas polêmicas.”

Além de medidas de monitoramento e prevenção, o especialista observa na educação uma oportunidade de mudança. “Precisamos pensar em uma educação que vai além da tecnicista, burocratizante, em que a vida autoritária não se realiza e desconsidera as vivências e os afetos. Nós precisamos olhar para uma educação mais integral, diversa, plural, de qualidade, mas que não fique apenas nos índices que geram treinamentos e formas de violência e de exclusão”, explica. “Dizem que a escola prepara para a vida, mas não, a escola é a própria vida”, conclui o docente.

Mídia e percepção da juventude

O professor acredita que a juventude é muitas vezes mal compreendida. “É recorrentemente menosprezada e não levada a sério. Por exemplo, nos debates realizados no início do ano a partir da série Adolescência, conseguimos observar tanto na série quanto nos debates posteriores que as pessoas compreendem mal os adolescentes e os jovens adultos. Não é assim, ao ponto de não conseguirem ter uma comunicação e dialogar efetivamente.”

Ele critica a influência da mídia sobre esse cenário. “Muitas vezes se fala de uma juventude que nem trabalha nem estuda, mas essa é uma parcela pequena. Uma parte também tem sido muito afetada pelos jogos on-line, por promessas de enriquecimento fácil e que geram muitas vezes endividamento e aproximação com a criminalidade”, explica. “De forma recorrente, a mídia é irresponsável no trato do debate racial partindo do ponto que as próprias pessoas negras que se vitimizam, jogando a responsabilidade naqueles que são mais afetados”, ressalta. O professor observa que a juventude negra, pobre e periférica, é tratada de forma seletiva, vista como ameaça, enquanto jovens não negros recebem atenção diferente e menos crítica.

“Como vamos construir políticas, inserir essa população que é a base para a construção social, onde nós depositamos um futuro melhor, se nós mal compreendemos como tem pensado, vivido e quais os anseios dela?”, conclui o professor.

*Estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares


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