O EAD tem atraído majoritariamente estudantes de faixa etária superior a 20 anos, com uma renda familiar mais baixa, que trabalham em tempo integral e que vêm de escolas públicas

O Censo da Educação Superior de 2024, publicado em setembro de 2025 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mostra que, entre os anos de 2014 e 2024, o número de matrículas na modalidade de ensino a distância (EAD) no ensino superior quadruplicou. Em 2014, o número de estudantes matriculados nesta modalidade era de 1.341.876; já em 2024 esse número era de 5.189.391. Apesar disso, o investimento financeiro nessa modalidade não é suficiente.

A professora Noeli Prestes Padilha Rivas, do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (Dedic) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, explica que “dois fatos principais explicam esse fenômeno: a revolução das tecnologias de informação e comunicação, difundida a partir da década de 1990, e o reconhecimento formal do EAD no Marco Legal brasileiro, por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em 1996”. Para a professora, “esses fatores criaram fortes condições para o impulso efetivo do EAD no País”.
No entanto, apesar do aumento significativo no número das matrículas, Noeli garante que “pesquisas apontam que o crescimento não veio acompanhado de investimento proporcional”. Sobre a questão financeira, o professor José Marcelino de Rezende Pinto, também do Dedic, afirma que no Brasil o EAD segue a lógica do lucro. “Quando se fala em EAD no Brasil, nós estamos falando de algo como 94% das matrículas no setor privado, e aí a lógica usada é simplesmente a lógica do lucro e da redução de custos”, explica. Essa lógica mencionada pelo professor ressalta a falta de investimentos em infraestrutura.
A redução de custos, para a professora Noeli, fez com que muitas universidades “reduzissem suas capacidades instaladas, como campus e bibliotecas”. Segundo ela, “a desvalorização do espaço físico fragiliza a pesquisa laboratorial, a convivência acadêmica e a extensão, que são elementos centrais da Universidade como instituição social, que visa a uma formação consistente, com acesso a conhecimentos sistematizados e uma vivência democrática”.

Ainda sobre a questão financeira do EAD, o professor Rezende afirma que “isso gerou um processo totalmente anômalo do ponto de vista do desenho da educação superior do Brasil, que é uma das mais privatizadas do mundo. Também acentuou problemas que já existiam na época da educação presencial”.
Além da questão financeira, a professora Noeli acrescenta outro problema do EAD: as barreiras sociais e econômicas dos alunos. De acordo com ela, “as barreiras econômicas, entendidas como custos de equipamentos e internet, as barreiras tecnológicas, como a infraestrutura precária, e as barreiras sociais, como nível de escolaridade e letramento digital desigual, limitam a efetividade do EAD”. A professora diz ainda que “as deficiências tecnológicas e sociais no Brasil refletem e reproduzem as desigualdades socioeconômicas existentes, impactando e dificultando o acesso a serviços e oportunidades”.
Democratização da educação
Apesar dos problemas mencionados pelos professores, Noeli reconhece que o aumento de matrículas na educação a distância democratizou o acesso ao ensino superior e transformou o perfil socioeconômico dos estudantes.
Para a professora Noeli, “o EAD tem atraído majoritariamente estudantes de faixa etária superior a 20 anos, com uma renda familiar mais baixa, que trabalham em tempo integral, que vêm de escolas públicas e que os pais não possuem ensino superior”. Ela afirma ainda que “pesquisas apontam uma maior presença de mulheres buscando a qualificação e ascensão profissional ou acesso à educação onde não há oferta presencial”.
No entanto, apesar de o EAD democratizar o acesso ao ensino superior, o professor Rezende garante que “não dá para esperar que o profissional formado em EAD tenha o mesmo nível e qualificação dos profissionais formados em cursos presenciais”.
*Estagiária sob supervisão de Ferraz Jr e Gabriel Soares
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