Mas a questão importante, que demanda atenção antes mesmo de responder à pergunta que motivou este texto é: em que medida os textos, imagens, áudios, vídeos e chamadas que realizamos ou compartilhamos podem ser de fato associados a essa categoria? Qual o porcentual de megabytes gerados por cada um de nós que carrega o que um filósofo chamaria de “substância”?
A facilidade, o baixo custo e o caráter amigável das ferramentas de comunicação instantâneas convidam quase qualquer um a contribuir com o fluxo contínuo e gigantesco de dados que circulam na web. E é bem provável que uma grande parte deles não seja, de fato, útil a ninguém. Assim, uma parte importante do problema se resolveria se parássemos para pensar previamente se precisamos, de fato, enviar certa mensagem a alguém. Se a resposta for sim, então a questão da escolha do suporte se torna pertinente.
Começando pelo e-mail. Diferente do que se poderia esperar, ele não passa despercebido. O livro How bad are bananas?, do físico e pesquisador Mike Berners-Lee, aborda essa pergunta. Segundo ele, o cálculo das emissões de CO2 provocadas por um único e-mail depende de uma série de parâmetros, como o equipamento utilizado, o tempo de escrita do emissor e o de leitura do receptor.
Mas há algumas referências. Um simples spam capturado pelo filtro já custa 0,03 g (mesmo que você nem abra a mensagem!). Já uma daquelas mensagens curtíssimas, enviadas e recebidas no telefone celular, emite 0,2 g de CO2. Se o mesmo procedimento acontecer em um laptop, esse valor sobe para 0,3 g. Ainda no laptop, uma mensagem um pouco mais longa que tenha levado dez minutos para ser escrita e três para ser lida pesa 17 g. E a coisa toda começa a ganhar amplitude quando se acrescentam imagens e arquivos em anexo. Assim, são 50 g de CO2 a mais na atmosfera para um e-mail padrão, com um texto em anexo e uma imagem (que pode ser aquela logo na assinatura ou o print da tela que acompanha uma explicação).
Já a newsletter enviada a cem pessoas (das quais 99 vão apenas passar os olhos e só uma vai ler de fato) custa 26 g de CO2 ao planeta. Isso considerando que tenha levado apenas dez minutos para ser produzida e que não tenha nenhuma imagem (o que é raro). Segundo a Ademe, a agência do governo francês responsável pela transição energética do país, todos esses valores precisam ser revistos em função do tempo que o e-mail permanece guardado e da quantidade de destinatários da mensagem em questão: a pegada de carbono se multiplica por quatro quando se envia a mensagem para dez destinatários ao invés de um.
E o WhatsApp e outros aplicativos de mensagem instantânea? Difícil saber com precisão. Não há a mesma abundância de informação nos relatórios e pesquisas que abordam esse tema. Mas é possível fazer uma aproximação, tendo em vista que o processo e o trajeto da informação são semelhantes ao e-mail e que, por isso mesmo, não deve ter um desempenho muito melhor. No entanto, é necessário considerar a convidativa facilidade de enviar um áudio, um vídeo, uma foto, um emoji ou outra figurinha qualquer com ou sem movimento. Cada pixel representa mais um tantinho de energia e de água e aumenta o impacto. Será mesmo que os vídeos de gatinho e as estripulias das crianças desconhecidas valem essa conta?
Segundo Mike Berners-Lee, o campeão na categoria baixo impacto para o ecossistema global é o SMS. Ele gera em torno de 0,014 g de CO2 para uma mensagem padrão. Essa performance se explica pelo seu modo de transporte (que utiliza a rede de telefone, e não a web) , assim como o tamanho e a luminosidade utilizada pela tela na recepção. A austeridade da interface e a dificuldade na escolha das letras são um convite à sobriedade do discurso. Outra possibilidade é o telefone fixo, que também não passa pelos data centers e, quando bem utilizado, pode agilizar o processo, promovendo uma troca de informações precisa, curta e ajustada à demanda.
Mais inovador é o Bitchat, um aplicativo atribuído a Jack Dorsey, cofundador do Twitter. Ele dispensa qualquer tipo de rede (isso mesmo, não precisa de internet nem de rede de telefonia) e permite o envio de mensagens de texto a alguém que esteja a até 300 m do emissor. Para chegar, os dados circulam de telefone em telefone até atingir o objetivo. Rede sobrecarregada (como quando se está em uma multidão) ou pedido de socorro (como em um evento climático extremo) são exemplos do melhor uso possível da ferramenta.
Para aqueles que não querem abrir mão de nenhum recurso digital mas aceitam cooperar melhorando o seu desempenho, a Ademe traz algumas sugestões:
1. Comprimir os arquivos pesados ou utilizar uma plataforma de compartilhamento que simplifica o processo. Principalmente quando se trata de algo que precisa ser recebido por mais de um destinatário;
2. Definir adequadamente a quantidade de pessoas que precisam receber uma informação ou documento;
3. Dispensar as assinaturas de e-mail ou, pelo menos, não utilizar imagens como uma logo, por exemplo;
4. Fazer uma ampla limpeza nos e-mails arquivados há muito tempo.
Os pessimistas de plantão certamente dirão que o impacto efetivo de cada uma dessas ações (e ainda mais dos esforços que podem ser feitos para reduzi-lo) é matematicamente irrisório para o aquecimento global. De fato! Mas dois argumentos justificam o interesse da reflexão: o primeiro é a quantidade de usuários e a quantidade de vezes que se executa uma dessas ações a cada dia. O segundo é o potencial formativo desse tipo de ação, que pode gerar situações em que ficam claras as escolhas que fazemos todos os dias e que permanecem escondidas por trás de cada ação automatizada. Se até pouco tempo vivíamos despreocupados em uma cultura da abundância, agora sabemos ser necessário reduzir a quantidade de dióxido de carbono despejada na atmosfera. Para isso, teremos que nos reeducarmos para viver na sobriedade. O caminho passa pela compreensão da relação que existe entre nossas escolhas e o problema global.
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