Ex-orientandos organizaram mesa em homenagem ao professor sênior Antônio Sérgio Guimarães durante o “49º Encontro Anual da Anpocs”
Por Silvana Salles

Professor sênior da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o sociólogo Antônio Sérgio Guimarães tem dedicado grande parte de sua vida profissional aos estudos afro-brasileiros e das relações raciais. Para seus ex-orientandos, que hoje lecionam na USP e em outras universidades, sua contribuição nessa seara não é apenas temática: ele contribuiu também para formar uma geração de pesquisadores negros em uma época em que ainda não havia políticas de ação afirmativa em nenhuma universidade brasileira. Esse grupo de antigos orientandos organizou uma homenagem ao mestre durante o 49º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), realizado em Campinas na semana passada.
A sessão especial aconteceu na sexta-feira, 24, e foi uma das atividades de encerramento do evento, sediado no campus da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Antônio Sérgio estava presente, acompanhando as reflexões de seus ex-alunos e de outros pesquisadores que se formaram sob a influência de seu trabalho acadêmico. A coordenação da mesa ficou por conta da professora Flávia Rios, que fez graduação, mestrado e doutorado na USP com orientação de Antônio Sérgio. Neste ano, ela retornou à FFLCH, agora como professora do Departamento de Sociologia.

Flávia conta que a homenagem era um desejo antigo de orientandos do professor, pertencentes a diversas gerações. Para a atividade, a proposta foi debater as contribuições do sociólogo partindo do livro Racismo e Antirracismo no Brasil, cuja primeira edição é de 1999. O livro é considerado um marco nos estudos brasileiros sobre relações raciais e no debate sobre ações afirmativas, tendo “furado a bolha” da sociologia para se tornar referência também em outras áreas, como educação, direito, economia, antropologia e políticas públicas.
“Foi um divisor de águas. Primeiro porque Antônio Sérgio Guimarães reuniu toda a produção brasileira sobre relações raciais. Ele mostra as contribuições da escola de São Paulo, da escola da Bahia, as contribuições do Rio de Janeiro. Faz toda uma análise de como as pesquisas foram desenvolvidas no País e mostra também como os estudos foram mudando. Depois, ele faz uma reflexão mais atual, que é a que nos impacta mais, sobre as políticas de ação afirmativa. É o primeiro a fazer essa reflexão tal como se fazia nos Estados Unidos, mas trazendo para o contexto brasileiro, trazendo a característica do Brasil como sociedade hierárquica. E aí ele traz o conceito de antirracismo”, explica Flávia. “Esse livro tem essa contribuição porque traz esse debate numa época em que ele não estava bem assentado”, completa.
Participaram como debatedores na mesa realizada durante o Encontro Anual da Anpocs os docentes Luiz Augusto Campos, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), Edilza Sotero, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Márcio José de Macedo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e Muryatan Santana Barbosa, da Universidade Federal do ABC (UFABC). Além de Flávia, que estava na coordenação, Edilza, Márcio e Muryatan foram orientandos de Antônio Sérgio em ao menos alguma etapa da pós-graduação.
Raça e classe no Brasil
Luiz Augusto Campos iniciou o debate destacando a contribuição de Antônio Sérgio ao interrogar a recusa dos intelectuais brasileiros durante muito tempo em usar o termo raça, algo que perdurou até os anos 1990, e ao demonstrar que a estrutura de classes da sociedade brasileira é racializada.
“Quando me interessei pelo estudo da questão racial, era um graduando em ciência política na Universidade de Brasília (UnB). Ciência política esta na qual a temática era praticamente inexistente. Isso me fazia sofrer de uma afasia, que até hoje assola os estudantes que recebo como orientandos ou alunos nos meus cursos. O que, afinal, eu estudo? Grupo de cor, grupos étnicos, raças? Como eu devo nomear os grupos aos quais eu faço referência? Pretos e pardos? Negros? Não brancos? Pretos, pardos e indígenas? Longe de banais, essas perguntas são básicas para que o estudo da questão racial seja epistemologicamente possível. Nesse sentido, a obra de Antônio Sérgio deu um laço teórico e estabilidade conceitual ao paradigma de interpretação das relações raciais brasileiras”, comentou Luiz Augusto Campos.
Edilza Sotero falou sobre como o campo da educação recebeu e se apropriou do trabalho do professor sênior da FFLCH. Para ela, a obra de seu orientador na pós-graduação contribui para entender como o racismo estrutura as oportunidades educacionais. Ela mencionou três áreas de pesquisa que têm dialogado mais com as ideias de Antônio Sérgio: desigualdades nos ambientes educacionais, políticas públicas educacionais e currículo.
Na discussão sobre o currículo escolar, as formulações de Antônio Sérgio que têm mais inspirado os pesquisadores da educação estão em seu livro Modernidades negras: a formação racial brasileira (1930-1970), de 2021, no qual discute como grupos subalternizados ressignificaram a palavra “negro” como uma identidade política para reorganizar a luta e a construção de um novo imaginário coletivo.
“Essa proposta implica reconhecer o lugar da agência negra na posição de conhecimento, na cultura e na política. Autoras e autores retomam Guimarães para debater a ideia de uma pedagogia intercultural crítica e antirracista, apoiada no reconhecimento das diferenças. O currículo, nesse sentido, é um terreno de negociação social”, argumentou Edilza.
A USP antes das cotas
Além das contribuições teóricas e metodológicas, os participantes da sessão especial destacaram também as contribuições pedagógicas do professor Antônio Sérgio Guimarães. Nordestino, graduado e mestre em Ciências Sociais pela UFBA e doutor em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, o professor chegou à USP para lecionar na FFLCH em 1997. Era um pouco como um estranho no ninho intelectual paulista e defendia posições minoritárias, agindo de acordo com elas. Colocou-se desde os primeiros anos da USP como um “sociólogo da práxis”, como definiu Muryatan Barbosa no debate da Anpocs.
“Em 1997, éramos poucos os professores que defendiam ações afirmativas, o consenso era que tais políticas poriam em risco a excelência da universidade pública. Éramos tão minoritários quanto os alunos negros que conseguiam vencer a barreira do vestibular. Naqueles anos, o saber em ciências sociais e nas humanidades deveria vir do que se discutia nas universidades europeias e estadunidenses. Um lugar à parte, apenas uma exceção, era reservado para o ‘pensamento social brasileiro’, mas nele não tinham lugar os autores negros, ativistas antirracistas. Não se gostava de ouvir falar, nas boas rodas, de intelectuais negros, isso era inaceitável”, diz o professor Antônio Sérgio, sobre aquela época.

“Hoje, ao contrário, temos que convencer os alunos que o pensamento ocidental e europeu não pode ser reduzido à colonialidade, que há algo universal nessa razão que pode conviver tanto com a razão africana, quanto com a asiática”, completa.
Na sessão da Anpocs, Muryatan contou que conheceu o docente homenageado em 1999 ou 2000, cursando uma disciplina de Sociologia como optativa. Na época, era estudante de História na FFLCH. O contato com o professor lhe rendeu um convite para integrar o grupo de estudos organizado por Antônio Sérgio e pensar em um projeto de mestrado sobre o sociólogo baiano Alberto Guerreiro Ramos, que foi tema do trabalho entregue por Muryatan na disciplina.
“Desde então, eu estou com Antônio Sérgio e estou com Guerreiro Ramos. Eu não sabia exatamente para onde ele estava me empurrando, estudar Guerreiro Ramos na USP. Eu devia ter pensado melhor sobre isso”, brincou Muryatan, arrancando risos da plateia no encontro da Anpocs. Durante sua exposição, ele explicou que os conceitos e métodos do orientador lhe ajudaram posteriormente também nos estudos de história da África, aos quais se dedicou no doutorado em História Social. “Enfim, comecei aquele estudo do Guerreiro com um grupo, na verdade. E fui descobrindo melhor quem era o Antônio Sergio. Em primeiro lugar, alguém que tinha um comprometimento grande com os seus alunos, com seus orientandos”, elogiou.
Embrião da universidade do século 21
Flávia Rios foi uma das participantes desse grupo de estudos ao longo de seus anos de formação. Ao Jornal da USP, a professora contou que o grupo organizado por Antônio Sérgio reuniu estudantes negros de graduação e pós, matriculados em diferentes cursos da USP, em uma época em que não havia mais de uma ou duas pessoas negras em cada turma. “É uma experiência do início do milênio, uma transição do século 20 para o 21. É como se a gente tivesse vivido um embrião do que viria a ser a universidade”, reflete a professora da FFLCH.

Os encontros do grupo de estudos seguiam uma dinâmica pedagógica em que os mais novos falavam primeiro, integrando o grupo de maneira acolhedora e respeitosa. Lia-se muito e as exigências aos estudantes eram altas, mas o professor também os estimulava a escrever e publicar. Havia, ainda, os Seminários Afro-Brasileiros, abertos ao público geral e realizados às sextas-feiras. Esses seminários tinham como objetivo debater a temática das relações raciais.
“Os Seminários Afro-Brasileiros foram a minha formação core e, ao mesmo tempo, tinham muito a cara da maneira como Antônio Sérgio pensava e eu acho que pensa ainda a formação. É uma formação livre, com exposição de muitos autores diferentes. Para vocês terem uma ideia, eu tive oportunidade de assistir pessoalmente nesse ciclo de seminários, que durou três anos, Clóvis Moura, Kabengele Munanga, Octavio Ianni, Lívio Sansone, Lilia Schwarcz, João Baptista Borges, Peter Fry, entre outras pessoas”, destacou Márcio José de Macedo na sua fala em Campinas.
Mas os seminários não tiveram como palestrantes apenas intelectuais com atuação dentro da academia. O organizador também convidou artistas e intelectuais públicos, como o poeta Oswaldo de Camargo e a cientista social Sueli Carneiro, que na época ainda não havia defendido sua tese de doutorado e era mais conhecida pelo seu trabalho à frente do Geledés – Instituto da Mulher Negra.
“Isso não era usual, era esquisito para a tradição universitária”, comenta Flávia. A docente diz que, hoje, esse tipo de diálogo amplo da universidade com a sociedade se tornou mais comum, principalmente por meio das atividades de extensão. “Esse investimento que a academia tem feito em se aproximar de intelectuais públicos agora se tornou uma coisa relevante, respeitável. Os doutores Honoris Causa, o reconhecimento dos saberes dos mestres, dos capoeiras”, avalia.
Os 25 anos que separam as “esquisitas” atividades de formação organizadas pelo professor Antônio Sérgio do cotidiano atual da USP dão a medida das profundas mudanças pelas quais as universidades brasileiras vêm passando no século 21. Questionado pela reportagem do Jornal da USP, o professor sênior confessou que inicialmente se assustou com a notícia de que seria homenageado na Anpocs. Mas depois achou que, para seus antigos orientandos, a homenagem era uma forma de sedimentar a história recente do campo de pesquisas sobre raça, racismo e antirracismo no Brasil.
“Alguns presentes não foram meus orientandos, mas se formaram discutindo meus artigos e livros. Ou seja, tratava-se de um reconhecimento público do lugar que estamos construindo nas nossas ciências sociais, de sua importância e da necessidade de se homenagear a excelência de uma área de pesquisa”, reflete Antônio Sérgio Guimarães.





