Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP
— Que é isso de senhorias, ilhas e vassalos, Sancho? — respondeu Joana Pança, que assim se chamava a mulher de Sancho […]
(Miguel de Cervantes, Dom Quixote, vol. 1)
Há quem superestime a própria importância, supondo ocupar maior, mais alto e melhor quinhão no mundo. A maneira de conceber (ou de encenar) a si mesmo como se fosse um ser mais relevante que os demais costuma redundar em discursos de teor pretensioso.
Infelizmente, as falas jactanciosas são recorrentes. Quando o fenômeno acontece, os ouvintes são forçados a escutar declarações personalistas em que o enunciador sobrevaloriza as suas ações supostamente virtuosas; assinala seus pequenos-grandes feitos; salienta os impressionantes resultados de seu trabalho microespecializado – dentre outras fórmulas discursivas que revelam um misto de egocentrismo e alheamento, ou seja, uma fala autocentrada e desprovida de escuta.
Em situações tais como essa, é prudente desconfiarmos: alguma distância separa a fala autoelogiosa da presumível relevância. Além disso, (1) enaltecer a si mesmo repercute negativamente na audiência; (2) referendar os próprios atos pouco colabora com a desejável cota de humildade (ainda que fingida); (3) reivindicar superioridade costuma desvelar insegurança. Se quisermos driblar a antipatia do auditório e captar sua benevolência, o discurso soará mais útil e agradável se nos ativermos ao tema da mesa, ao objeto de discussão.
A que ouvinte interessará escutar microconfissões que não foram solicitadas? A que interlocutor agradará a enumeração de presumidas façanhas conduzidas pelo expositor?
Evidentemente, o assunto não é novo. No ocidente, a performance [actio] de quem está incumbido de falar é discutida pelo menos desde o século 5 a. C., como sugerem os diálogos de Platão, os fragmentos de Górgias e a arte retórica sistematizada por Aristóteles. Ora, saber como discorrer e como se comportar diante de um auditório (seja homogêneo, seja heterogêneo) é tão ou mais importante que o teor do discurso e o gênero em que ele se enquadra.
Sinal de desmedida, a fala pretensiosa costuma produzir indisposição nos ouvintes, especialmente quando o falante atua como um ente superior, anos-luz distante em relação àqueles que estão lá justamente para escutá-lo de mais perto.
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