No conjunto, partiu-se do diagnóstico que cabia à USP ocupar um lugar de destaque no debate público, fosse oferecendo ao País a produção do conhecimento, o que é parte do seu cotidiano, fosse se posicionando em temas nacionais prioritários, por meio do pensamento crítico, da defesa da cidadania, do Estado Democrático de Direito, da democracia e da justiça social. A produção da ciência, nesses termos, não se desconecta de uma consciência social, que, de resto, reproduz posições políticas motivadas por concepções éticas e civilizatórias.
Quando da realização do primeiro seminário, o Brasil sequer havia equacionado os traumas oriundos da pandemia de covid-19, na qual a ciência havia sido colocada em questão. Os temas de saúde pública, no enfrentamento da covid, o descrédito dos programas de vacinação nacionais, corriam pari passu com a desconsideração dos impactos sociais e ambientais diversos. A enormidade da crise agravou-se em função da posição do governo francamente avessa às medidas sanitárias. O questionamento das orientações advindas das pesquisas científicas levou a uma atrocidade social, na qual o Brasil foi responsável por 10% dos mortos mundiais, embora a sua população total seja proporcionalmente menor na esfera global.
Nesse contexto de tensões que atingiam todas as instituições sociais, a Universidade não poderia estar alheia frente à gravidade da situação: a defesa da autonomia universitária identifica-se com a defesa da democracia. Proteger a democracia, tarefa nada trivial, como ficou evidente poucos meses depois, durante um dos mais disputados pleitos eleitorais do País, que culminaria com uma tentativa de golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023.
A primeira edição do USP Pensa Brasil realizada em 2022, no contexto das efemérides do bicentenário da Independência e do centenário da Semana de Arte Moderna, revelou-se uma estratégia profícua: a recuperação dos episódios centrais da história do País, por intermédio das interpretações canônicas do nosso pensamento social, marcava a necessidade de atualizar o passado, segundo a questão: “Como pensar o Brasil no século 21?”.
Os debates revelaram a emergência de um novo país no século 21, maior e mais complexo. Se a longa duração marcava as identidades de um país desigual, com feições autoritárias, socialmente injustas e excludentes, eram também inegáveis algumas conquistas sociais e políticas nas últimas décadas, que passaram a exigir o reconhecimento de uma nova história do Brasil. A nação moderna não havia ultrapassado as iniquidades, apenas reatualizara o modo como se manifestavam e incidiam sobre as camadas populares.
Após o traumático processo eleitoral, o seminário de 2023 convidou os debatedores para dissertar sobre A Produção do Comum em uma Sociedade Fraturada. Pretendendo iluminar os possíveis caminhos para a construção de projetos coletivos, as intervenções ofereceram alternativas para uma sociedade em que os valores do individualismo, do consumismo e do mercado como reguladores sociais tomaram nossas vidas. Novamente, tanto no campo da economia, da política e do enfrentamento das mudanças climáticas, novas métricas deveriam ser valorizadas, outros personagens reconhecidos, novos projetos coletivos pactuados. A frieza do diagnóstico conviveu com a aposta em consensos originados em experiências coletivas.
Em 2024, o USP Pensa Brasil buscou antecipar o debate sobre o meio ambiente que coloca o País como protagonista das políticas ambientais no mundo, por isso o tema COP30 e os Desafios para o Brasil. Saberes da ciência e das comunidades da floresta passaram a nortear uma agenda para a defesa da natureza, uma sociobioeconomia da floresta, que deve equilibrar preservação com oferecimento de bens e serviços para toda a população. Assim, as intervenções indicavam a urgência de medidas de preservação ambiental, mas reconhecendo as demandas econômicas e sociais de grupos que ainda precisam ser atendidos por mínimos parâmetros de bem-estar.
Pensar em projetos para o Brasil no século 21, avaliar a fratura que tipifica as sociedades contemporâneas e estabelecer novas ações e políticas para o meio ambiente são temas cuja envergadura ultrapassa a dimensão nacional, e que se tornam ainda mais complexos no prisma das relações internacionais. Foi nesse sentido que, em 2025, o seminário abordou O Brasil e a Nova Desordem Mundial. Mais do que nunca, ainda que seja possível e necessário que cada país enfrente localmente impasses contemporâneos, tais como as crescentes desigualdades econômicas e sociais, o enfraquecimento do multilateralismo, a destruição ambiental são desafios a exigir uma governança internacional.
Apesar das resistências encontradas nos fóruns multilaterais, o Brasil tem buscado, atualmente, dialogar com uma agenda socialmente avançada, de defesa do desenvolvimento e da justiça social. Ao propor a pobreza e a desigualdade como eixos centrais da rodada de debates do G20 em 2024, o País engaja-se na concepção de um “desenvolvimento com equidade”. Do mesmo modo, ao assumir posição firme no combate às mudanças climáticas e propugnar por uma justiça ambiental na preparação para a COP30, em 2025, o Brasil projeta-se como ator-chave de uma nova arquitetura internacional.
As pesquisas realizadas nas universidades públicas são elos dessa cadeia de mudanças profundas do nosso mundo desconcertante. Há mais de um século, o sociólogo alemão Max Weber publicou dois ensaios centrais para compreender a dinâmica da sociedade contemporânea: Ciência como Vocação (1917) e Política como Vocação (1919). Em 2025, por meio do USP Pensa Brasil, ao considerar ciência e política como dimensões indissociáveis, a universidade pública brasileira reforça seu compromisso com o conhecimento científico e os valores de uma sociedade democrática e justa.
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