Mas uma mulher branca, de origem italiana, pode ser considerada a terceira peça fundamental do Programa de Índio: Angela Pappiani, produtora do programa do começo ao fim, de 1985 a 1991, que, por ter feito jornalismo na Escola de Comunicações e Artes (ECA) na mesma época de Santoro, foi a ponte para que a concepção da inusitada ideia chegasse aos ouvidos da então direção da Rádio USP: “A gente foi junto levar essa proposta, que era uma ideia e não era uma proposta muito elaborada, que eles gostariam de usar o veículo para essa comunicação e, a princípio, pensando em uma cidade como São Paulo, era basicamente a população urbana, não-indígena que a gente imaginava que seria esse ouvinte do programa”, contou Angela, entrevistada como parte da pesquisa de pós-doutorado que desenvolvo sobre os 50 anos da Rádio USP, a serem celebrados em 2027.
Angela afirmou ainda que a ideia do programa foi promovida pela União das Nações Indígenas (UNI): “Então a brincadeira era: vamos fazer um programa de índio para amansar branco. E era bastante ousado porque ninguém tinha experiência com rádio. Era muito difícil ter um roteiro mais elaborado, eram as ideias daquele momento e, às vezes, quando ligávamos o microfone, ia-se para um outro caminho totalmente imprevisível porque aí vem essa coisa da oralidade, da força da palavra, da força do pensamento, dessa maneira muito diferente de lidar com a narrativa”, relembra.
E Ailton complementou, em entrevista à Folha da Tarde, em 1985: “Não temos experiência e também não queremos copiar os programas que já existem. Queremos ter características próprias que revelem, inclusive, nossa dificuldade com a língua do branco, principalmente quanto a entender uma porção de conceitos”.
Dessa forma, o movimento indígena encontrou na Rádio USP de 1985, sob a direção de Santoro, uma emissora educativa aberta ao experimental e um espaço ideal para o inovador Programa de Índio, com suas discussões emergentes sobre o que acontecia naquele momento de abertura política no país, tanto para a população urbana que quisesse saber mais sobre essa cultura ancestral como o público indígena, uma vez que as aldeias possuíam radinhos de pilha para a escuta.
Ao todo, foram 220 programas com músicas e rituais de grupos indígenas, além de depoimentos de membros de tribos nacionais e internacionais transmitidos durante quase cinco anos com três interrupções no período. A primeira foi realizada pelo Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel) em 1985, que tirou a Rádio USP do ar, segundo Angela, porque estavam falando em língua estrangeira (a indígena), apesar das falas serem traduzidas para o português simultaneamente. A segunda ocasião ocorreu em uma troca de direção da emissora, em 1988, que preferiu não renovar a parceria. Mas houve um forte protesto por conta dos ouvintes com telefonemas e cartas, o que fez a Rádio USP rever a decisão. E a terceira e última interrupção foi em 1991, novamente durante uma nova troca de direção, quando a equipe foi informada que o Programa de Índio iria sair da grade de programação. Desta última vez decidiram não reagir porque a causa indígena já estava em outro momento, pós Constituição Federal de 1988, com demarcação de terras asseguradas pela União, assim como direitos civis e políticos, entre outros pontos, e podiam procurar outros meios de comunicação para se expressarem.
Ainda sobre os ouvintes Angela pontua que até hoje recebe manifestações de carinho e destaca a história da dona Maria como um exemplo. Em 2024, ao participar de um evento no Sesc Belenzinho, zona leste da capital paulista, foi abordada pela filha daquela senhora, já falecida, que insistiu em estar lá para assisti-la pelo carinho que a mãe tinha para com o Programa de Índio. Dona Maria era professora, também da zona leste de São Paulo, ouvinte assídua e muitas vezes chegou a levar de presente bandejas de brigadeiros para os apresentadores.
Ouvintes-mirins também fizeram parte do Programa de Índio, produzindo ocasiões especiais. Em um determinado momento Angela e Ailton decidiram chamar um grupo de crianças, entre as quais, Maíra, filha do então casal, para perguntarem para o Ailton tudo que lhes viesse à cabeça, sem filtro. As indagações inusitadas renderam duas edições, como descreveu Angela: “Fomos para o estúdio da Rádio USP. Levamos uma turminha, de dez a 12 crianças para dentro do estúdio e a gente fez um programa delas fazendo perguntas para o Ailton. Foi lindo, emocionante, fofo, sabe? Destoou daquele clima combativo, de militância, que era o perfil do programa. Eram crianças fazendo perguntas como: ‘Índio tem bafo?’ Ao mesmo tempo, era o que qualquer adulto de repente teria vontade de perguntar para o povo indígena e por vergonha não fazia. E essas crianças hoje estão com 45 anos e alguns ainda lembram, porque a gente ainda tem contato, foi marcante para eles e para a gente. Eu acho lindos esses programas.”
Mesmo após o fim do Programa de Índio, Angela continuou ligada à causa indígena e é reconhecida por diversos projetos educativos, culturais e editoriais. Como escritora infanto-juvenil, já publicou obras ligadas à cultura indígena, ancestralidade e espiritualidade. É uma das fundadoras e diretoras da plataforma cultural e editorial Ikorẽ, que abarca projetos, parcerias e atividades voltadas aos conhecimentos e culturas indígenas.
Quem quiser conhecer mais sobre o Programa de Índio pode visitar – gratuitamente – até 23 de novembro a Ocupação Ailton Krenak, em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo. Há uma sessão dedicada ao programa dentro da Ocupação que traz detalhes do papel transformador desse projeto na história da comunicação e da cultura indígena no Brasil.
Endereço/horários: Avenida Paulista, 149. De terça a sábado, das 11h às 20h. Domingos e feriados, das 11h às 19h.
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