Segundo a organização global de coleta de dados Development Initiatives, a fome afetou 9,1% da população mundial em 2023. Ao mesmo tempo, uma em cada três pessoas têm sobrepeso ou obesidade, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em 2024. Os autores do artigo dizem que esses dois fatores estão relacionados por conta da forma como o mundo produz os alimentos.
O estudo teve como base a teoria da Sindemia Global, proposta em 2019 pelo professor Boyd Swinburn, da Escola de Saúde da População da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, e colegas. O termo sustenta que, hoje em dia, mudanças climáticas, obesidade e desnutrição estão conectadas. Isso porque a forma como se produz alimentos têm desvalorizado a alimentação saudável, ao mesmo tempo em que contribui para a degradação ambiental.
De acordo com Dirce Marchioni, o ser humano precisa de uma alimentação diversa, mas a valorização da monocultura é prejudicial para a biodiversidade. Além disso, comidas que vêm da Europa são colocadas acima do alimento típico brasileiro, mesmo este sendo rico em nutrientes. O desperdício de alimentos é outra face do problema: na cadeia de produção do País, se perde 30% deles. “A questão aqui é essa busca pela segurança alimentar, que significa ter alimentos em quantidade, mas também em qualidade”, ressalta a professora.
Nesse cenário, diferentes grupos sociais podem enfrentar desafios diversos na questão alimentar. “O que o nosso artigo traz é que essa sindemia afeta grupos de forma desproporcional. Portanto, qualquer medida [pública] deve considerar obrigatoriamente as desigualdades sociais, já que a exposição à má nutrição não é a mesma para todos”, pontua Sávio Gomes, professor no Departamento de Nutrição da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e autor principal do estudo. Essa estratégia adota o conceito acadêmico de interseccionalidade.


