Uma das obras mostradas na exposição Viajantes Franceses no Brasil é a série de três pinturas Pequenos Catecismos, do artista amazonense Denilson Baniwa, um militante pela causa indígena. Nessas pinturas, Baniwa faz uma releitura de gravuras do artista belga Theodore de Bry (1528-1598), em que o indígena é o agente da história contada nas imagens. Em um dos quadros de Baniwa, o europeu é retratado como um demônio que agride um homem indígena, numa alusão à catequese que apagou a cultura dos povos originários.
A crítica é reforçada pelo erotismo e por inscrições em idiomas indígenas presentes na imagem, que demonstram a insubmissão da figura atacada à língua portuguesa e ao pudor colonial. “O corpo e a língua passam a ser instrumentos de reinscrição dessa história contada por uma perspectiva diferente da narrativa oficial”, afirma Mariana Keller, assistente curatorial da mostra.
Outra obra presente na exposição é Feitiço do Fio, da artista e antropóloga baiana Glicéria Tupinambá, também uma liderança indígena. A obra inclui uma malha feita de fios vermelhos, que representa um manto tupinambá. Segundo Keller, o manto é recorrente nos trabalhos de Glicéria, mas também é um elemento presente nos relatos e coleções europeias sobre os povos originários brasileiros.
Junto dele, são expostas fotografias da artista ao lado de sua obra. Glicéria é uma mulher indígena de cabelos naturalmente cacheados. Antes ela os alisava, mas hoje passa pelo processo de transição capilar — período em que uma pessoa para de usar químicas, como progressivas, e permite que o cabelo cresça em sua textura natural. Nas fotos, seus cachos se misturam com o tecido do manto, para demonstrar a reivindicação dessa textura como parte de sua identidade. Com isso, ela confronta ideologias coloniais do fenótipo “autêntico”, de cabelos lisos, atribuída aos povos originários.


