sexta-feira, maio 15, 2026
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Norbert Elias visto por Per Bak – Jornal da USP


Ao abrir o jornal pela manhã – sou daqueles que leem em papel –, começo pelos quadrinhos e pelo futebol para recuperar o bom humor ao acordar. Passo, então, às notícias do dia a dia, constatando uma tendência atual aos comportamentos radicais nas mais variadas esferas da atividade humana.

A minha curiosidade fica aguçada pela emergência de grupos que se manifestam de maneiras não explicáveis, apoiando quem os prejudica e dando vivas a ações de destruição em curso no planeta.

Meu respeito ao estudo e à reflexão cuidadosa levam-me a procurar referências que tratem desses fenômenos assustadores. Assim chego à obra de Norbert Elias (1897-1990), A Sociedade dos Indivíduos, que trata da ideia de como a sociedade emerge da junção das individualidades e, em contrapartida, como a sociedade molda o viver individual.

Trata-se de uma leitura agradável e uma análise clara que parte de exemplos sobre como as características do todo não são meras superposições das partes. Partindo de metáforas como a proposta por Aristóteles (384 a.c. – 322 a.c.) entre as pedras e a casa, conjectura que o comportamento coletivo não é diretamente explicável pelas propriedades de seus componentes.

Essa ideia corresponde a dois tópicos familiares ao estudo das chamadas áreas de Exatas: Física Estatística e Sistemas Dinâmicos.

A Física Estatística, que tem entre seus principais expoentes James Clerk Maxwell (1831-1879) e Josiah Willard Gibbs (1839-1903), iniciou seu desenvolvimento no final do século 19 tendo como meta principal o estudo de sistemas constituídos por muitos corpos.

A metodologia consiste em pensar, por exemplo, nas moléculas de um gás dentro de um recipiente fechado, cada uma delas com energia cinética diferente em relação ao centro de massa do conjunto. Supondo que os valores das energias cinéticas seguem uma certa distribuição de probabilidades, procura inferir propriedades do sistema como um todo.

Trata-se de importante visão complementar à Termodinâmica Clássica, cujas leis e princípios permitem o projeto de máquinas, tendo como base grandezas físicas macroscópicas como pressão, volume e temperatura. O aporte da Física Estatística reside na relação entre grandezas físicas associadas ao comportamento microscópico de um agrupamento de muitas moléculas e seus efeitos nos mensuráveis macroscópicos do sistema global.

Parece tentador transferir esse modo de pensar para os modelos de relação indivíduo-sociedade, cada vez mais importantes à medida que o progresso tecnológico democratiza a informação, ao mesmo tempo que facilita sua manipulação por grupos hegemônicos.

Ao consultar o periódico Physica A: Statistical Mechanics and its Applications, é possível encontrar alguns artigos interessantes sobre a implementação de modelos da Física Estatística para aplicações em epidemiologia, economia e sociologia.

Quanto aos Sistemas Dinâmicos, lembramos sempre de Jules Henri Poincaré (1854- 1912) que, ao estudar problemas de Mecânica Celeste, evidenciou o fato de modelos matemáticos determinísticos apresentarem comportamentos aparentemente aleatórios, provocados pelas não linearidades intrínsecas aos sistemas físicos reais.

Voltando a Norbert Elias, relembramos que uma melodia, apesar de ser composta de notas individuais, não é a simples superposição delas. Assim como os livros, compostos de palavras e frases, produzem efeitos muito mais significativos do que suas combinações.

Esses modelos e metáforas, embora facilitem nosso raciocínio, representam pouco aporte de conhecimento para a relação indivíduo-sociedade, questão singular difícil de ser transposta a outras esferas de existência.

Aparentemente, as relações indivíduo-sociedade, às vezes caracterizadas por comportamentos emergentes inexplicáveis, resultam de estados mentais individuais ou coletivos. Como não possuem regularidade própria como as que estamos acostumados, que estão sempre relacionadas com substâncias, objetos ou corpos, que podem ser percebidos pelos nossos sentidos, carecem da possibilidade de modelagem efetiva.

Talvez esteja faltando nos nossos modelos habituais o conceito de criticalidade auto-organizada, proposto por Per Bak (1948-2002), físico dinamarquês pioneiro no estudo dos sistemas complexos, em seu livro How Nature Works: The Science of Self-organized Criticality, publicado em 1997.

Nesse livro, Bak mostra as diferenças entre os conceitos de complexidade e criticalidade, usando aquilo que chama de paradigma das pilhas de areia. Desenvolvendo um modelo teórico de formação de pilhas de areia, mostra que elas são sujeitas a catástrofes de padrões variáveis de acordo com leis de potência.

Explicando um pouco melhor, catástrofes de pequena monta são muito prováveis e as de grande amplitude ocorrem em situações críticas pouco prováveis, mas de alta intensidade. Assim, Bak analisa fenômenos críticos como terremotos e congestionamentos de tráfego e, em seguida, discorre sobre o papel da criticalidade auto-organizada na extinção de espécies biológicas e nos mecanismos cerebrais subjacentes à consciência.

Agregar a criticalidade auto-organizada aos modelos de Física Estatística, atribuindo escalas para medir fenômenos comportamentais individuais talvez possa proporcionar alguma luz a alguns fenômenos críticos nas sociedades atuais, como a emergência de comportamentos de intolerância, cada vez mais difundidos nos mais diversos tipos de sociedade.

Acreditando nisso, os artigos Self-organized criticality and the predictability of human behavior, publicado em 2011 no periódico New Ideas in Psychology, e Zipf’s Law Organizes a Psychiatric Ward, publicado em 1999 pelo Journal of Theoretical Biology, expressam possibilidades de desenvolvimento de modelos comportamentais usando ferramentas da Física Estatística e da Teoria de Sistemas Dinâmicos.

Mais uma vez, simulações computacionais em sistemas com aprendizagem de máquina podem, por meio de interações in-silico, fazer algum tipo de previsão de ações de grupos de indivíduos que, apesar de suas diferenças, produzem comportamentos socialmente ainda pouco conhecidos.

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