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Editora independente batalha para publicar livro de bell hooks inédito no Brasil – Jornal da USP


Projeto que conta com colaboração de pesquisadoras negras da USP está nos últimos dias da campanha de financiamento coletivo para viabilizar a publicação do livro “Questões de classe: o lugar que ocupamos”

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Projeto da capa, contracapa, folha de rosto e marca-página do livro
Campanha de financiamento coletivo para a edição do livro de bell hooks sobre classes sociais vai apenas até sexta-feira (7) – Foto: Reprodução/Instagram

 

A escritora, professora universitária, artista e ativista norte-americana bell hooks ficou conhecida no Brasil pelos livros de sua Trilogia do Amor, cuja primeira parte foi lançada em português no mesmo ano em que a autora faleceu (2021). Agora, por meio de uma campanha de financiamento coletivo, uma editora independente sediada em Belo Horizonte quer trazer para o público brasileiro um livro ainda inédito no País, no qual a autora desenvolve aspectos menos conhecidos por aqui de seu pensamento social. Trata-se de Questões de classe: o lugar que ocupamos, originalmente publicado em inglês como Where we stand: class matters.

A edição brasileira do livro de bell hooks está em processo de produção pela Oficina Palimpsestus. O projeto prevê um prefácio de Cida Bento, psicóloga, colunista da Folha de S.Paulo e autora de Pacto da branquitude, bem como a publicação conjunta de um livro de ensaios escritos por pesquisadoras negras, dialogando com o pensamento da autora norte-americana. Intitulado Encontros com bell hooks: de que vale o diálogo?, o volume de ensaios contará com colaborações de Silvana Nascimento e Maria Ribeiro, professoras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Tudo isso depende de o projeto atingir a meta de arrecadação da campanha na plataforma Catarse, que termina nesta sexta-feira (7). Até o fechamento desta matéria, a campanha havia batido 61% da meta. “É uma campanha tudo ou nada. Se a gente não conseguir o valor total, infelizmente, nem a obra da bell nem esse livro de ensaios vão ser publicados”, diz Maria Carolina Casati, embaixadora do projeto e organizadora de Encontros com bell hooks.

Uma vasta obra

Retrato bell hooks palestrando com um microfone na mão esquerda. Ela é uma mulher negra que usa óculos e os cabelos presos. Veste uma blusa laranja, um cachecol estampado com um padrão em laranja, amarelo e marrom, brincos de argola dourados e um anel também dourado. Ela tem uma expressão sorridente, mesmo falando.
bell hooks escreveu sobre raça, classe e gênero – Foto: Cmongirl/Wikimédia

bell hooks — o pseudônimo de Gloria Jean Watkins —, foi uma escritora bastante prolífica, com mais de 40 livros publicados e outros tantos capítulos. Ao longo de seus 69 anos de vida, ela produziu crítica social, teoria feminista, intervenções antirracistas, propostas pedagógicas e livros infantis. A autora tangenciou o tema das classes sociais em muitos de seus trabalhos, mas até Questões de classe, não havia se dedicado ao assunto de forma muito incisiva.

“A obra da bell hooks é muito vasta, e a gente ainda não tem muita noção de tudo que essa mulher teorizou. A gente sabe muito sobre o que ela fala sobre o amor, por conta da Trilogia do Amor, a gente sabe um pouco sobre o que ela fala sobre feminismo”, comenta Maria Carolina, que é doutora em Ciências pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP e membra do Grupos de Estudos e Pesquisa em História Oral e Memória (GEPHOM) da USP. “Ela pouco fala sobre classe, e eu acho que aí é que está todo o diferencial do livro”, completa.

A primeira edição Questões de classe foi publicada nos Estados Unidos em 2000 pela editora Routledge. Ao longo dos 14 capítulos do livro, bell elabora a memória de suas experiências pessoais para costurá-las com reflexões mais amplas sobre as relações entre classe, raça e gênero. A partir de uma perspectiva interseccional, ela aborda temas como invisibilidade, solidariedade e consciência de classe, olhando tanto para as elites quanto para a base da pirâmide social.

“Nesta obra, ela demonstra que a classe é um tema que permeia todos os âmbitos da vida cotidiana”, diz a tradutora Larissa Bontempi. “Com uma linguagem acessível e partindo da experiência pessoal de quem cresceu em um bairro suburbano e segregado do Meio-Oeste estadunidense, ela esmiúça como a classe está presente em todos os nossos vínculos interpessoais, no lugar onde moramos, nos espaços que frequentamos. Além disso, explicita de que maneiras a segregação racial e a desigualdade de gênero contribuem para a permanência das diferenças sociais e ao mesmo tempo se alimentam delas”, continua.

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Maria Carolina explica que, ao costurar as reflexões do micro para o macro, a autora pensa a classe no sentido da experiência e de como esse fator reverbera na vida das pessoas, levando em consideração também outros marcadores da diferença. O relato autobiográfico passa, por exemplo, pela experiência particular de mudança de classe – tema que tem aparecido na mídia brasileira principalmente em comentários sobre autores franceses como Annie Ernaux e Édouard Louis, que publicaram romances expondo questões de classe por meio do que se convencionou chamar de “autoficção”. Contudo, a reflexão de bell hooks sobre classes não é autoficção e nem para no indivíduo.

“Ela fica o tempo todo trabalhando nessa relação entre o particular e o coletivo. Pensando, de fato, em questões de política, questões de política pública, se ainda tem grupos que continuam impedidos de mudar. O que faz com que esses grupos continuem praticamente em uma casta? Como que isso pode ser transformado? Qual é a cor da pele, qual é o gênero, qual é a raça, se a gente quiser falar, dessas pessoas? A gente está falando desse lugar de prestígio ou não, de reconhecimento ou não que você consegue alcançar nessa sociedade”, comenta a embaixadora do projeto.

Para Larissa, apesar da tradução chegar 25 anos depois da primeira publicação, a reflexão presente no livro não poderia estar mais alinhada com o atual contexto brasileiro. “Quando pensamos na pejotização, no enfraquecimento da CLT, nos custos altíssimos de moradia em grandes centros urbanos, na escala 6×1 ou na taxação dos super-ricos, por exemplo, podemos traçar um paralelo com o que bell hooks demonstrava que já ocorria nos Estados Unidos dos anos 1990 e 2000. Ela nos convida a repensar o lugar que ocupamos na estratificação social e considerar a classe como uma urgência coletiva. Caso contrário, isso acarretará em condições de vida ainda mais insustentáveis”, explica.

 





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