sexta-feira, maio 15, 2026
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grupo da USP propõe método prático e reflexivo – Jornal da USP


Organizado por pesquisadora do Instituto de Química de São Carlos da USP, grupo traz, entre os estudos de caso, grama sintética, agrotóxicos, plásticos biodegradáveis e o desafio do malte

Vista do alto de um estádio de futebol com arquibancadas cheias e jogadores correndo no gramado. Acima da foto a capa de um livro
A substituição da grama natural pela sintética é tema de um dos estudos de caso – Arte sobre foto de Björn Láczay (dustpuppy) / Wikimedia Commons

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“Peixe também morre afogado?”, “A grama sintética, o novo verde dos estádios”, “Inflando o perigo”, “Agrotóxicos, do uso ao abuso”, “De olho no óleo”, “Plásticos ‘biodesagradáveis’” e “O desafio do malte” são alguns dos casos apresentados no e-book Estudos de caso no ensino de Ciências da Natureza 1: Química em foco. Produzida pelo Grupo de Pesquisa em Ensino de Química (GPEQSC), do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP, a publicação reúne textos de vários autores, pós-graduandos do instituto, professores da educação básica e professores universitários, organizados pela professora Salete Linhares Queiroz e pelo mestrando Caio Moralez de Figueiredo. A obra, com 139 páginas, pode ser acessada gratuitamente no site do GPEQSC.

“O propósito do livro vai além da simples reprodução dos estudos de caso apresentados: busca fornecer elementos que permitam ao leitor aprender, refletir criticamente sobre suas práticas e desenvolver seus próprios casos investigativos”, afirma o pesquisador Carlos Alberto da Silva Júnior, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba, que escreveu o prefácio do livro. Segundo ele, a obra é fruto de uma trajetória comprometida e engajada com o ensino de química: “A professora Salete Linhares Queiroz não apenas escreve sobre estudos de caso — ela vive esse método de ensino”. A professora, que coordena o GPEQSC, é pioneira no desenvolvimento de pesquisas e na divulgação do método de estudos de caso como abordagem de ensino no Brasil, tendo publicado outros livros e artigos sobre o assunto.

Mas afinal, o que é o método de estudo de caso? pergunta o pesquisador, que responde de forma simplificada: trata-se de uma variação da aprendizagem baseada em problemas. “Os casos investigativos são narrativas que retratam situações vivenciadas por pessoas e que demandam a mobilização de conhecimentos de natureza científica ou sociocientífica para alcançar suas possíveis soluções”.

No livro, cada caso é narrado em linguagem acessível, e o contexto é explorado de forma didática, incluindo os seguintes tópicos: apontamentos didáticos; características do caso e contextualização do tema; fonte(s) de inspiração na produção do caso; soluções para o caso e conteúdos de química em pauta; e para saber mais. “Essa organização não só facilita a compreensão, mas também ajuda o leitor a imaginar como usar cada caso em sala de aula”, afirma o pesquisador.

A grama sintética

Os assuntos discutidos no caso “Grama sintética, o novo verde dos estádios” englobam, entre outros aspectos, a modernização dos estádios de futebol, em especial a substituição da grama natural pela sintética, tema que vem causando controvérsia no meio esportivo. A grama sintética é composta, em linhas gerais, por um tapete verde que simula a grama natural, formado por várias lâminas de plástico ou náilon, uma camada de material amortecedor e o enchimento, que possibilita a fixação da grama. Cada um desses componentes pode apresentar riscos à saúde humana, especialmente o enchimento, que pode ser feito de plástico triturado, geralmente obtido a partir de pneus descartados.

Nesse contexto, além dos compostos utilizados na fabricação da borracha, várias outras substâncias podem estar presentes, resultantes do uso dos pneus nas estradas, incluindo hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e compostos orgânicos voláteis. Também foram identificados metais como zinco, cádmio e cromo, assim como diversos materiais carcinogênicos e neurotóxicos.

Além das preocupações com a saúde, existem questões ambientais relacionadas ao processo, como a produção de microplásticos. Parte das lâminas sintéticas se degrada com o tempo: os campos costumam perder, por meio do atrito durante o uso e da exposição à radiação solar, entre 0,5% e 8% das lâminas por ano. Esses microplásticos podem contaminar corpos hídricos, o ar e o solo.

Dessa forma, a aplicação do caso permite discussões sobre saúde humana e proteção ambiental em um contexto que envolve elementos sociais, culturais, econômicos e esportivos.

Os peixes mortos

O texto apresenta o caso da população de Química Valley, surpreendida com o aparecimento de peixes mortos no Lago Sorensen. Alguns moradores responsabilizaram a indústria química recentemente instalada nas redondezas, suspeitando que estaria descartando resíduos no lago. Outras hipóteses também surgiram: enquanto o prefeito Gregório Ernesto Stein sugeriu que os peixes morreram por falta de oxigênio, a vice-prefeita Maria Curi apontou a contaminação por metais pesados — chumbo, polônio, cádmio e mercúrio — como possível causa da morte dos animais. Já Érick Schroder, proprietário de uma clínica veterinária especializada em gatos, levantou uma suposição inusitada: seria possível que os peixes não estivessem mortos, mas adotando algum mecanismo de defesa para evitar predadores?

Os fiscais ambientais Augusto Arrhenius e Gilberto Lewis constataram, durante uma inspeção rotineira, o intenso uso de agrotóxicos pelos produtores locais. Isso poderia ter alterado propriedades físico-químicas da água que chega ao lago — como turbidez e pH —, provocando a morte dos peixes.

Antônio Lavoise, clérigo da cidade, discursando na paróquia Saint Chemistry, sugeriu que os peixes não estariam mortos, mas passando por um processo de mutação, lembrando que “nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. Com outra explicação igualmente inusitada, Miguel Farad, trovador local, compôs uma canção afirmando que os peixes haviam morrido eletrocutados pelos raios e relâmpagos de dias anteriores.

Diante de tantas hipóteses e dúvidas, Lucas Paulino, jornalista investigativo da cidade, iniciou uma investigação para desvendar o mistério.

Embora existam várias hipóteses para explicar esse possível desastre ambiental, há um direcionamento para explorar a possibilidade de poluição aquática decorrente do descarte inadequado de resíduos industriais. Assim, para o uso do caso na graduação em química, é necessário inseri-lo em abordagens de conteúdos relacionados ao meio ambiente e/ou aos resíduos químicos. O componente curricular Química Ambiental reúne essas características.

Em geral, ele tem como objetivo principal proporcionar uma compreensão do meio ambiente a partir dos ciclos biogeoquímicos, destacando as diferenças entre processos naturais e antropogênicos. Também busca avaliar os impactos das atividades humanas sobre os ecossistemas, oferecendo uma visão geral das características físicas e químicas dos diversos componentes ambientais — atmosfera, litosfera, hidrosfera e biosfera. Por fim, o curso, conforme sua oferta em diversas instituições de ensino superior, fornece uma introdução aos processos de controle da poluição.

Para ler o livro Estudos de caso no ensino de Ciências da Natureza 1: Química em foco na íntegra clique aqui.

 

*Texto com informações da Assessoria de Comunicação IQSC



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