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Inovação, a “vencedora” do Prêmio Nobel de Economia – Jornal da USP


Por Marcelo Caldeira Pedroso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP


Em 2025, mais especificamente no dia 13 de outubro, Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt foram laureados com o Prêmio Nobel de Economia. Esse trio desenvolve pesquisas sobre o crescimento econômico impulsionado pela inovação.

O holandês Joel Mokyr recebeu metade do prêmio por identificar as condições necessárias para o progresso econômico sustentado por meio do avanço tecnológico. A outra metade da premiação foi direcionada, conjuntamente, para o francês Philippe Aghion e o canadense Peter Howitt em função de suas pesquisas sobre a teoria do crescimento sustentado por meio da destruição criativa.

Progresso econômico e inovação tecnológica

A inovação tecnológica pode ser considerada como o processo de desenvolvimento de novas tecnologias com o intuito de criar novos produtos, serviços ou processos, ou melhorar significativamente as soluções atuais, para resolver problemas relevantes. Exemplos de inovação tecnológica incluem a inteligência artificial, computação quântica, tecnologias de energia renovável, biotecnologia e engenharia genética.

Mokyr utiliza os preceitos da história econômica para investigar como as atividades econômicas (por exemplo, produção, comércio, consumo e mercado de trabalho) se desenvolvem ao longo do tempo. Ele dedica uma atenção especial à Revolução Industrial, que ficou marcada como um período de crescimento econômico sustentado.

Em suas pesquisas, Mokyr enfatiza que o avanço tecnológico é considerado a principal fonte de progresso econômico. De forma mais específica, ele destaca os três elementos que sustentam o crescimento econômico: ciência, tecnologia e “conhecimento útil” (ou seja, o conhecimento prático e aplicável que efetivamente ajuda a resolver problemas).

O impacto da inovação tecnológica no progresso econômico pode ser investigado de diferentes formas, além da história econômica. Por exemplo, é possível correlacionar um maior crescimento econômico em países que aumentam a quantidade de patentes. No âmbito das políticas públicas, pesquisas evidenciam que investimentos adequados em inovação contribuem positivamente para o crescimento econômico, particularmente no longo prazo. Ao contrário, baixos investimentos em inovação podem se refletir em estagnação econômica.

Crescimento econômico e a destruição criativa

O conceito de destruição criativa é baseado no paradigma de crescimento econômico schumpeteriano. Esse paradigma é fundamentado em três ideias centrais: inovação cumulativa, retornos da inovação e destruição criativa.

A primeira ideia considera que o crescimento a longo prazo resulta da inovação cumulativa, na qual as inovações recentes se baseiam nas tecnologias e nos conhecimentos obtidos em inovações anteriores. A segunda considera que a inovação é motivada pela perspectiva de retornos (ou rendimentos) advindos da inovação.

A terceira é a destruição criativa propriamente dita. Esta considera que o crescimento econômico é resultante de inovações que tornam obsoletas as inovações anteriores. Essa é a base das pesquisas conduzidas por Aghion e Howitt.

Nesse contexto, esses pesquisadores destacam o seguinte dilema: por um lado, os retornos da inovação são necessários para motivar os investimentos em inovação. Por outro lado, as instituições inovadoras são tentadas a usar os retornos da inovação para impedir inovações subsequentes, pois não desejariam sofrer os efeitos da destruição criativa.

Inovação acima de tudo?

A inovação está associada ao crescimento econômico e à melhoria na qualidade de vida da população. No entanto, além do dilema entre retornos e destruição criativa, a inovação também pode gerar algumas consequências indesejadas (ou “efeitos colaterais”). Destas, abordo quatro: desemprego tecnológico, desigualdades, concentração de renda e poder, e impactos ambientais.

A primeira consequência consiste no denominado desemprego tecnológico. As tecnologias que substituem o trabalho humano geram um efeito direto no mercado de trabalho. Há vários exemplos advindos da Revolução Industrial (por exemplo, a automação industrial) e, mais recentemente, com a utilização da inteligência artificial (IA).

A automação e a IA substituem a mão de obra em tarefas que ela costumava realizar, gerando uma redução na demanda do mercado de trabalho. Não obstante, esse efeito é contrabalançado por ganhos de produtividade e subsequentes incrementos da demanda por mão de obra em tarefas não automatizadas. Nesse sentido, um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) apresenta a previsão de que a IA afetará 40% dos empregos em todo o mundo. Em outro relatório, o Fórum Econômico Mundial estima que 92 milhões de empregos serão substituídos até 2030, com o surgimento posterior de 170 milhões de novos empregos. Assim, embora a inovação possa criar novos empregos, a transição tecnológica pode causar interrupções significativas e até mesmo desemprego no curto prazo.

A segunda consequência remete à desigualdade. A inovação pode afetar as desigualdades de diferentes maneiras: aumentando algumas e diminuindo outras. Isso ocorre uma vez que as novas oportunidades e os benefícios decorrentes da inovação podem não ser igualmente acessíveis a todos. Por exemplo, inovações direcionadas à redução dos gases de efeito estufa podem reduzir as desigualdades sociais. Isso ocorre uma vez que a população de baixa renda apresenta maior probabilidade de ser prejudicada pelos efeitos do aquecimento global. Inovações associadas ao desenvolvimento de novos medicamentos podem afetar a desigualdade, particularmente se esses medicamentos não forem acessíveis à população de baixa renda.

A terceira consequência considera que a inovação tende a aumentar a concentração de renda e a estrutura de poder dos diferentes atores em um determinado mercado. Por exemplo, modelos de negócios baseados em plataformas digitais estão ancorados nos efeitos de rede como fonte de poder de mercado. Assim, políticas públicas de incentivo à inovação precisam, ao mesmo tempo, garantir que os inovadores do passado não usufruam de seus lucros e força de mercado para impedir a inovação advinda de novos participantes.

A quarta consequência aborda os impactos ambientais. Dentre eles, podemos citar o esgotamento de recursos naturais, o aumento da poluição e do consumo de energia, além de outros potenciais danos ao meio ambiente. Por exemplo, diversas inovações envolvem o segmento de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Embora atualmente esse segmento seja responsável por 1,5% a 4% das emissões globais, as previsões apontam para um aumento significativo nos próximos anos. Dessa forma, é crucial incentivar inovações que proporcionem melhorias na eficiência energética, redução das emissões de gases de efeito estufa e promoção da economia circular.

Assim, considero que políticas públicas associadas à ciência, tecnologia e inovação e ao desenvolvimento econômico devem fomentar efetivamente o progresso tecnológico, a destruição criativa e o desenvolvimento do capital intelectual. Em contrapartida, entendo que as políticas públicas de desenvolvimento social e aquelas associadas ao meio ambiente deveriam mitigar e equilibrar as eventuais consequências indesejadas decorrentes da inovação.

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